
Imagem emprestada do site Tam Kids
Andréa foi quem me falou:
- Noca, você precisa ver o bolo de caneca que a Roseli fez hoje lá na produtora!
Para os desconectados, como eu, do hardnews de variedades da rede, eu explico, depois de pesquisar no Google: Bolo de Caneca é a última invenção do universo gastronômico (será que posso chamar assim?) que cabe num forno de microondas. A versão, digamos, confeiteira do noodle de copinho, aquele que você só precisa completar com água quente. Comida de guerra, enfim.
Registrei a informação mas nem me dei ao trabalho de contar a novidade a Donana.
- Microondas? Solo para fundir mantequilla e calentar agua para el capuccino – era o que ela me diria, com evidente desprezo.
Eu não contei, mas o Sérgio contou. Estávamos os três em volta da mesa, naqueles almoços intermináveis de domingo, quando já tínhamos arrematado uma wok de farfalle com frango e legumes, vários nacos de bolo de carambola, uma jarra de café e uns bons pedaços de chocolate. Sérgio bisbilhotava meu livro de receitas do Rotary de Porto Ferreira (1984) quando, ao virar uma página da seção de bolos, soltou a isca para Donana:
- Você já viu a novidade? A moda agora é Bolo de Caneca. Fica pronto em três minutos!
Donana virou os olhinhos de curiosidade, e eu mais que depressa puxei o iPad e pedi ajuda a São Google. Em cinco segundos se materializaram na tela dezenas de receitas, todas com uma mesma fórmula, e o desfecho milagroso: três minutos no microondas em potência máxima, e voilà!
Entendi que a coisa ia ficar complicada quando vi Donana começando a montar a mise en place: ovo, óleo, chocolate em pó, farinha de trigo, açúcar, pó Royal, leite.
- Leite não, vou fazer com suco de laranja! E a caneca, onde tem uma caneca nesta casa?
Mostrei a minha amiga a prateleira das canecas e saí de fininho para lavar a louça. Conheço Donana, isso não podia dar certo.
Enquanto eu ensaboava a pilha de louças, tive que fazer um grande esforço para controlar o riso ao ouvir a conversa de malucos que se passava ao meu lado.
- Já pensou se der certo? Você pode vender Bolo de Caneca no Ateliê! – era o Sérgio provocando.
- Gênio! Posso fazer de mil sabores diferentes, e vender em canecas personalizadas, com a carinha de Donana. Que máximo! Ao final de alguns bolinhos, o sujeito tem uma coleção de canecas Donana!
E lá vinha o Sérgio de novo:
- E a caneca também pode ser retornável: a pessoa compra a primeira e depois só leva ao Ateliê para encher de novo. Mas como você vai fazer, Donana? Vai vender cru ou assado?
- Não sei, não sei, preciso fazer uns testes primeiro – respondeu minha amiga, já salvando em meu iPad uma lista de receitas. – Pelo que entendi, há uma receita padrão com variações em pequenos detalhes – ela falava muito séria. – Se eu mantiver a proporção entre secos, líquidos e gorduras, posso criar uma infinidade de sabores!
- E depois pode montar uma franquia de Bolos de Caneca!

Não agüentei e caí na risada. Dessa vez o Sérgio foi longe demais. Franquia de bolo de microondas? É o fim! Pensei mas não falei, claro, porque minha gargalhada foi suficiente para detonar o mais furioso dos olhares de Donana.
Resoluta como só ela, no minuto seguinte a caneca já estava no microondas, e o cronômetro ligado.
Três minutos se passaram até que a curva de euforia iniciasse a trajetória descendente.
- Tem alguma coisa errada nessa receita, Sérgio. Olha só: o tempo já se esgotou e a massa ainda está crua.
Sérgio se aproximou para comprovar:
- Mas como é que você sabe?
- Simples: eu desligo o forno e a massa afunda!
Mais trinta segundos, e nada. Outros trinta, e a massa continuava afundando. Vários trinta segundos depois, Donana perdeu a paciência e tirou o bolo ainda meio molhado do microondas.
- Bom, vamos deixar na caneca para ver se ele acaba de cozinhar com o calor da porcelana.
Cozinhar o bolo até que cozinhou, mas foi preciso um grande esforço para chamar de bolo aquilo que saiu da caneca. E um esforço quase gigantesco para comer aquilo.
- Gosto de nada, cheiro de nada, textura de borracha barata – foi o diagnóstico implacável de Donana. – Sabe quando eu vou vender isso? Nun-qui-nha!
E foi assim, na velocidade de um microondas, que nasceu e morreu Donana Foods, a mais rápida e fulminante de todas as franquias da história da contra gastronomia.
