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Archive for the ‘da memória’ Category

Seu Atílio com suas pequenas aventureiras. Foto: Norien Rossi.

Seu Atílio com suas pequenas aventureiras. Foto: Norien Rossi.

Descascam tangerinas no gramado do parque. Ele, cabelos gris e leve protuberância abdominal. Ela, 6 anos e um par de chiquinhas azuis.

Ele a convida a conhecer o novo sensor meteorológico, que ajuda as pessoas a saberem como anda o clima. Ela o convida a caminhar pela trilha no cerrado.

– Na volta, então? – ele insiste.

Ela, charmosa:

– Na volta. Agora quero ver todas as árvores, fotografar todas. Eu sou a fotografeira…

Ele corrige: Fotógrafa.

– Tá bom. Vamos, então?

Ela vasculha a mochila em busca da pequena câmera.

– Eu sou a fotógrafa aventureira. – Olha para ele: E você, quem é?

– Eu? – ele pensa um pouco, antes de responder, orgulhoso: Eu sou seu guia.

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Se você leu o post de ontem, esqueça tudo o que eu disse sobre ficar zen. Na terceira tentativa de completar a via crucis para obter um carimbo do Itamaraty em meu diploma de Jornalismo, acabei recorrendo ao que tenho de melhor: a contundência. Endureci. E quase perdi a ternura.

Carimbos1

10h30 – Fila do Protocolo da UnB – aquele que ontem estava fechado por causa da greve dos servidores. Formulário preenchido.

10h45 – Minha vez. Senhora, falta o comprovante de pagamento da taxa. Querida, fui informada ontem no balcão ali de baixo que a taxa poderia ser paga DEPOIS de dar entrada no pedido. Porque tenho urgência no pedido. Não, senhora, precisamos do comprovante original do depósito. Tudo bem, eu posso fazer o depósito online agora mesmo e mandar o comprovante por email. Pode ser? Não senhora, tem que ser em papel. OK, me dê então o papel que preciso pagar, eu corro lá no banco e volto antes das 12h. Ah, a senhora precisa pegar isso no balcão ali de baixo. What? No balcão ali de baixo me disseram ontem que eu apenas deveria fazer uma transferência! Estou aqui seguindo estritamente as orientações deles! A atendente chama o superior. Que chega com uma cópia do Diário Oficial. Veja bem, senhora. Esta Portaria foi publicada em junho de 2015. E diz blábláblábláblá. Mas antes já havia outra portaria blábláblá… Interrompo. Acredito em você. Apenas quero que você me dê o papel que preciso pagar. Estou há dias tentando resolver isso, e tenho urgência. Senhora, não tem papel. A senhora volte lá no outro balcão e resolva com eles. Me exalto. Mas eles não tem cópia desta Portaria? Vocês não combinaram os procedimentos? Eu vou perder mais um dia nessa via crucis? Não posso fazer nada, senhora. É o que diz a Portaria. E, a senhora sabe, estamos em greve, não temos prazo para entregar seu documento.

10h55 – Balcão de baixo. Querida, você pode me dar o papel que eu tenho que pagar para blábláblábláblá? Não tem papel, senhora. Como não tem papel? Se me pedem um papel, tem que ter papel! Não, a senhora tem que fazer blábláblábláblá. Perco de vez a paciência. Escuta, minha filha. Vocês já me fizeram perder váaaaarios dias. Me deram mandaram para o cartório errado. Me obrigaram a entrar com um pedido de segunda via do diploma. E agora não me deixam entrar com o pedido por causa de um papel que não existe!!! Não tenho mais tempo!!! A fila atrás se agita. A moça se irrita, vai lá dentro, e em 30 segundos volta cuspindo o endereço de um novo cartório. TEM CERTEZA? Tenho.

11h05 – Vou em casa buscar o diploma original para tentar o novo cartório. Paro no posto para comprar cigarros. Respiro fundo para tentar me desfazer da ideia de voltar ao balcão de baixo com uma bomba acesa caso o novo cartório não me dê o carimbo.

11h20 – Entro no cartório. Senha. Fila. Carimbo. Fila para pagar. Saio de lá com o carimbo.

11h35 – Entro no carro e acelero para chegar ao Itamaraty antes das 11h45, hora em que se encerra a entrega de senhas.

11h43 – Estacionamento do Itamaraty lotado. Desisto. Só amanhã. Meia-volta para casa. Na saída, um milagre: uma vaga do lado oposto do Eixo. Pista vazia. Faço uma gambiarra, marcha-a-ré na contramão, estaciono. Respiro fundo e miro meu alvo. Dou a partida nas panturrilhas. Atravesso correndo as seis faixas do Eixo (botinha de salto baixo, ufa!). Atravesso correndo o passeio dos jardins de Burle Marx. Passo por dois guardinhas que me olham curiosos. Contorno correndo o prédio de Niemeyer. Chego sem fôlego ao anexo. Entro correndo na saleta, preparada para seduzir o guardinha. Não preciso. São 11h46. A porta se fecha atrás de mim.

11h47 – Senha. Formulário. Sento para me recompor. Respiiiira, Ana! Lembro que o atendente me disse, semana passada, para pegar o carimbo no cartório e voltar direto ao seu guichê. Lá vou eu. Ele não me reconhece, claro. Mas quer se livrar de mim para ir almoçar. Bate o carimbo e assina sem sequer conferir o carimbo do cartório. Me devolve. Pergunto: E o que faço com este formulário? Ele pega o dito-cujo, amassa e joga na lixeira, me olhando e rindo. Não precisa mais, tudo resolvido.

11h58 – Saio do Itamaraty com os dois primeiros carimbos. Atravesso devagarinho os jardins de Burle Marx, saboreando a vitória. Sorrio para os guardinhas. Contemplo o lindo dia de céu azul. Ufa! Por hoje é só, pessoal. Reservo a tarde para meditar. Preciso estar preparada. Amanhã começa a segunda etapa.

Carimbos2

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Hoje eu tive um sinal claro de que ainda é possível, neste mundo de Deus, tornar-me uma pessoa, digamos, quase calma. Seria um grande passo para, quem sabe na próxima encarnação, ou na seguinte, atingir o Nirvana Zen.

Estou falando de burocracia, essa instituição kafkiana, insana e irracional sem a qual nossos dias seriam mais longos e felizes.

Tudo começou na semana passada, quando dei início à peregrinação para ter meu diploma de Jornalismo reconhecido pela Embaixada da Espanha.

  • Passo 1: Buscar uns carimbos no Itamaraty.
  • Passo 2: Mandar traduzir para o Espanhol (por um tradutor juramentado)
  • Passo 3: Buscar mais uns carimbos na Embaixada da Espanha no Brasil.
  • Passo 4: Buscar novos carimbos no Ministério da Educação da Espanha ou algo que o valha. Em Madri.

Vamos por partes. Itamaraty.

Estaciono lá na PQP. Caminho de salto no asfalto quente. Senha. Uma hora de fila. O expediente termina e pularam meu número. Reclamo. Alguém que já ia sair para almoçar me atende de má vontade. Olha meu diploma e diz: tem que reconhecer estas firmas aqui. No cartório. Depois voltar aqui para buscar os carimbos. Mas já vou avisando: se o diploma for de outra cidade, vai ser difícil. Menos mal: o diploma é de Brasília.

Próximo passo: Cartório.

O maior da cidade, para ter alguma chance de acertar. No balcão, a primeira dificuldade é decifrar as assinaturas, que não estão acompanhadas dos respectivos nomes por extenso. Google: Quem era o reitor da UnB em outubro de 1990? (SIM, o diploma é de outubro de 1990!!!). Quem era o Diretor Acadêmico? Vinte e cinco links visitados, ufa!, tenho os nomes. Volto ao balcão. Nenhum dos dois tem firma registrada naquele cartório. O maior da cidade. Por onde começar? Google de novo: telefones da UnB. A lista é infinita. Começo pelos principais. Ninguém agende. Cinco ligações, zero resposta.

Pausa para o almoço.

Nova tentativa de falar na UnB. Zero sucesso. Vasculho a lista de telefones e descubro o nome de um conhecido na Secom. Bingo! Ligo e peço a gentileza de me ajudar a localizar o setor que pode me informar onde os ilustres signatários do meu diploma tem firma registrada. Ele me passa um telefone. Que, milagrosamente, é atendido! Explico para a moça do outro lado qual é a questão. Um momentinho. Cinco minutos: A senhora pode repetir os nomes? Repito. Mais um momentinho. Cinco minutos e ela pede para eu repetir DE NOVO os nomes. Ao final de mais cinco minutos a moça me dá o endereço do cartório onde tudo será resolvido: o mesmo onde eu já havia estado.

Estaca zero. Pausa para o fim de semana. Res-pi-ra, Ana.

Segunda tentativa.

Decido pedir à UnB que emita um novo diploma, com assinaturas atuais, que possam ser comprovadas em cartório. Chego na repartição indicada às 15h de hoje, segunda-feira, dia internacional de resolver pendências burocráticas. Entrego as cópias xerox e recebo um formulário para preencher. A senhora tem que levar o pedido no Protocolo, pagar a taxa no banco e esperar que avisem quando ficar pronto. Mas isso é quando? Ah, leva de 30 a 60 dias. Mas eu preciso pra ontem! Então peça urgência, mas não garanto prazo. Subo as escadas para o Protocolo. São 15h30 e a portinha está fechada, com um cartaz vermelho onde se lê: Servidores da UnB em Greve! Em letras miúdas, informa que atendimento externo durante a greve só pela manhã. Eu rio. Voltar amanhã cedo é o de menos, só o que me faltava era uma greve!

Próxima pendência do dia: Detran.

Ligo antes e a moça me diz que posso obter o documento que procuro em qualquer agência. Sigo para o Na Hora da Rodoviária. Estaciono no Conic às 15h45, atravesso a rodoviária lotada, pego uma ligeira fila – ok, por isso eu já esperava. Mas sou informada de que só a agência do Detran no Shopping Popular pode fornecer tal documento – A senhora sabe qual é o shopping? Aquele que fica ao lado da antiga Rodoferroviária. Ok, vamos lá, meu humor ainda resiste. Atravesso de volta a rodoviária lotada, pego o carro no Conic, faço uma gambiarra no trânsito ali no estacionamento do Teatro Nacional e subo para o Shopping Popular. Yes, I can!

Shoppping Popular

Atravesso corredores fantasmas repletos de quiosques fechados na segunda-feira e encontro a agência do Detran láaaaaaa no fundão. Formulários. Senha. Olho no painel e constato: tem mais de 200 números na minha frente! Respiiiiiira, Ana! Olho para a multidão em busca de uma cadeira vaga. Garrafinha de água ok. Internet ok. Eu sobreviverei. Uma hora e meia depois, bateria no vermelho, chega a minha vez. Falta uma cópia, senhora. Uai, que cópia? Da identidade. Preciso de duas. Pergunto se ele pode fazer. Não. Saio pelos corredores vazios em busca de uma xerox. Já está fechando. Volto correndo, porque o Detran também já está fechando. Entrego a cópia, assino a papelada e saio com duas guias de pagamento. Respiro aliviada quando ele me diz que o documento será entregue pelos Correios. Ufa! Por hoje acabou.

Acabou?

A burocracia sim, mas… e o trânsito? São seis e pouco e a saída do Shopping Popular me joga di-re-ta-men-te na Estrutural. Sem alternativas. E sem chance de retorno – a esta hora, as duas pistas seguem rumo a Taguatinga. Mas eu quero voltar para a Asa Norte! Bom, vamos lá. Eu consigo. Respira fundo, Ana. Acende um cigarro. Toma um gole d’água. Relaaaaaxa. Eu relaxo. Traço um plano B para não ter que cair em Taguá. Entro na Cidade do Automóvel. Engarrafamento. Quinze minutos depois consigo atravessar para o SIA. Mais engarrafamento. Pego um atalho e vou serpenteando até a Feira do Paraguai para tentar cair na EPIA, direção Sobradinho. Engarrafamento. Mas pelo menos estou no rumo de casa. Estaciono no meu bloco às 19h.

Lar, doce lar!

Tiro o sapato, surpresa por não ter dado um ataque até o momento, e começo a traçar uma estratégia para amanhã. Preciso convencer um servidor da UnB em greve a expedir a segunda via do meu diploma em prazo recorde! Haja oxigênio. Haja charme. E depois disso ainda faltarão todos os passos lá de cima.

Yes, I can!

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Portrait of Woman, Picasso, 1936

Portrait of Woman, Pablo Picasso, 1936

Você já escorregou num tobogã? Era um dos meus brinquedos preferidos na infância, e foi até a adolescência. Bom, para ser sincera, sincera mesmo, peguei carona na infância do meu filho e continuei escorregando no tobogã da Nicolândia até bem adulta.

A vertigem de deslocar-se tanto, entre céu e terra, em tão poucos segundos me fazia, naquele átimo de tempo, tirar as quatro patas que sempre tive cravadas no chão da realidade. Era um jeito de voar. Mais, de sair do ar. Muito mais que um deslocamento no espaço. Era um deslocamento do “lugar” que eu ocupava no mundo. Naqueles míseros e fantásticos segundos a realidade não existia, tudo ficava em suspenso, tudo podia acontecer.

Naquela época eu ainda não conhecia o tobogã emocional. Ou talvez já conhecesse, mas não tinha tempo para me preocupar com ele. Aqueles momentos – raros – na vida em que descemos do céu ao chão, ou ao inferno, em poucos segundos. Ainda bem que não acontece sempre. Mas acontece.

A gente primeiro fica sem chão. Em queda livre, olha para baixo e só enxerga – enxerga? – um poço escuro e sem fundo. Tenta tatear as paredes, encontrar uma raiz de árvore para se agarrar. Podem se passar horas, dias, anos… e de repente, opa, um galho seco interrompe a queda. Sempre tem um, ou quase sempre. Você respira. Ufa. Olha para cima procurando um rastro de luz para guiar a volta.

Mas a volta é lenta, trabalhosa, e você vai tropeçando em caixas de memórias, fantasmas, retalhos de uma vida inteira, como se todo o seu baú tivesse sido despejado enquanto você caía.

Entre arranhões, você vai escalando o arsenal da sua história. Às vezes precisa mesmo amputar um pedaço, que já nem sabia morto, para passar pelo funil da subida. E também, pelo caminho, recolhe uns retalhos que preferia não ter perdido ou esquecido no fundo do baú. Então você sopra a poeira, encontra um novo lugar para eles, remenda. E vai em frente, à tona, devagar e sempre.

As crises tem isso de bom: a gente se redimensiona.

Dia desses, chuvoso e cinzento por dentro, eu ainda meio tonta da queda, dei de cara com meu baú espalhado na memória do computador. Quase que por inércia, comecei a faxina: poesias numa pasta, outras na lixeira; crônicas aqui, cartas ali, meninices acolá, filosofias bêbadas noutro canto.

No meio de uma antiga correspondência, um trecho de e-mail me deixou atônita. Conferi a data várias vezes. Busquei os originais na caixa de mensagens. Não é possível! Como posso ter escrito isso há tantos anos? Ou melhor: como posso ter esquecido isso por tantos anos? Estava lá, em novembro de 2003, a síntese perfeita, o extrato límpido e depurado do que eu só agora, 12 anos depois, finalmente assumo como a minha bagagem de volta à vida.

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O que me dá prazer de verdade: ter que me superar para enfrentar alguns desafios; descobrir novos lugares e pessoas; conversar com amigos de verdade; dançar quando estou cheia de energia; fazer amor com quem eu amo; ver meu filho virar um homem. E escrever. Sempre, e cada vez mais, sabendo que quanto mais escrevo, mais tenho a escrever, e aprender, e descobrir para ser escrito.

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E pensar que eu poderia seguir pela eternidade sem encontrar esse retalho…

Tem coisas que só mesmo um tobogã.

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Eu envelheço, tu envelheces, ele envelhece. Mas só o espelho sabe disso. O espelho e os outros.

Dentro de mim mora aquela menina de 15 anos que, dia sim, dia não, passava o pano de chão no assoalho de madeira da grande sala da família ouvindo no rádio as canções que a transportavam para um mundo onde a única coisa que re-al-men-te importava era o amor. O amor sem fim.

Era uma garota gordinha e romântica de olhar profundo, que ligava para a rádio pedindo a sua música preferida e deixava a fita K-7 no ponto para gravar quando tocasse, para depois repetir à exaustão, mesmo sem entender quase nada da letra da canção, que era em inglês, e as aulas de inglês não faziam parte do universo daquela menina de classe média-baixa do interior de São Paulo, e ela só sabia que Black Stream era o nome da sua cidade em inglês porque também era o nome do principal hotel de Ribeirão Preto.

Uma garota que naquele ano de 1982 sonhou com uma valsa de 15 anos e chamou o garoto bonito amigo dos seus amigos feiosos para a contradança, mesmo que fosse para esquecer o nome e o rosto dele no dia seguinte e voltar a se apaixonar pelos feiosos, e que depois da valsa ligou a luz negra e botou o globo para girar na sala de assoalho de madeira e soltou o roquenrol para a turma dançar, que a valsa era meio sem graça.

A mesma garota que reunia a turma do colegial e do grupo jovem para panfletar toda noite pelas ruas do bairro, subindo a rua de um lado e descendo do outro, até acabarem os santinhos jogados em todas as casas com a cara do Seu Atílio para vereador e a do Lula para governador de São Paulo. E que cantava canções de protesto na roda de viola que se formava depois da panfletagem no alpendre da casa, com bolo e limonada.

E era também essa garota quem lavava a calçada com a mangueira no dia em que passou a perua da rádio FM perguntando qual era a rádio ela estava ouvindo a todo volume, ela disse o nome da emissora e ganhou um brinde que guarda até hoje na gaveta dos bolachões, um disco de Roberto & Erasmo, para alegria do seu coração de menina.

Uma garota que nas férias tinha ímpetos de cidade grande e pegava o Cometa para São Paulo de mãos dadas com a irmã mais nova, descia no Tietê e seguia de metrô até o Tatuapé, de lá as duas iam de ônibus até a Vila Formosa para encontrar os primos e os amigos dos primos e perambular pelas tardes de mil perigos na Sé e na República e pelas noites de mil encantos nos meandros da Zona Leste, aprendendo a beijar na boca na escadaria da igreja ou na pracinha.

Essa menina de rosto redondo e olhos inquisidores dividida entre o amor e a luta, que sonhava com um amor sem fim e com uma vida de mulher independente e quiçá jornalista, chegou de mansinho esta tarde para me levar ao tempo da inocência. Entrou pelos ouvidos quando liguei o iPod no vôo que me trouxe de volta da São Paulo de ontem e de hoje. E a música que tocou no modo aleatório foi a mesma que aquela garota de 15 anos em 1982 arranhava junto com Lionel Richie and Diana Ross na fita K-7 já gasta de tanto rodar.

Envelhecer é quase não envelhecer.

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A primeira vez que comi berinjela recheada foi em Sampa, na Festa de Nossa Senhora Achiropita, padroeira do Bixiga. Meados dos anos 80. Eu tinha uns 18 anos e perambulava por lá com uma turma da UnB. Tínhamos ido para um evento do movimento estudantil e estávamos todos amontoados na casa do tio Waldemar, em colchões espalhados pela sala. Tio Waldemar e Tia Célia, aliás, sempre tiveram as portas abertas para nós e nossas turmas lá no Tatuapé.

Fui guiada pelo cheiro até a barraca da melanzana al forno. Me apaixonei perdidamente. E, já na época curiosa pelos sabores, fiquei tentando entender, pelo paladar, como e com que ingredientes era feita. E é claro que, ao chegar em casa, corri ao fogão.

Durante muitos anos fiz a receita que imaginei ser a original naquela época, recheando as berinjelas com carne moída refogada em temperos, batata amassada e a polpa da própria berinjela. Lembrem-se que na época não havia internet nem google, o jeito era inventar. E deu certo.

Hoje, visitando o site da Festa, descobri que, ao invés de batata, a receita original leva ovos cozidos para dar liga à carne do recheio. E azeitonas. Vou tentar na próxima.

Mas hoje eu queria rechear as mini berinjelas que comprei no Ceasa de um jeito diferente. Bateu saudade dos sabores da Espanha. Pensei em juntar minhas duas cozinhas da memória num só prato.

Eu ainda tinha na geladeira uns cogumelos Paris frescos (também do Ceasa, baratíssimos, um pacotão por 6,99!), um pedaço de queijo de cabra tipo brie (Ceasa!) e filezinhos de anchova em conserva. Tomate, cebola, batata, cheiro verde e azeite… pronto! Vamos ao trabalho.

Aqui elas estão prontas para ir ao forno

Aqui elas estão prontas para ir ao forno

MINI BERINJELAS RECHEADAS DE DONANA

Ingredientes

  • 10 mini berinjelas
  • 1 batata média
  • 4 filezinhos de anchova em conserva
  • 6 cogumelos Paris
  • 1 tomate
  • 1/2 cebola
  • 2 dentes de alho
  • Sal, azeite, salsa e cebolinha
  • 1 pedaço pequeno de queijo de cabra

Preparo

  1. Lavar as berinjelas, partir ao meio no comprimento e colocar em uma panela com água fervente de boca para baixo. Dividir em duas ou três partes de forma a cobrir a superfície da água sem se amontoarem.
  2. Retirar, escorrer numa peneira e retirar cuidadosamente o miolo da berinjela com o auxílio de uma faquinha ou uma colher, sem danificar as cascas. Reservar.
  3. Cozinhar a batata em cubos.
  4. Triturar rapidamente no mixer o miolo da berinjela, a anchovinha e a batata cozida. Ao final, juntar um fio de azeite e provar o sal. Se necessário, ajustar. Reservar.
  5. Limpar os cogumelos, tirar os cabinhos e fatiar. Os pedaços não podem ser grandes.
  6. Cortar o tomate em cubinhos.
  7. Picar a cebola, o alho e os cheiros bem miudinhos.
  8. Refogar a cebola e o alho em azeite até corar. Juntar os cogumelos, saltear rapidamente. Juntar o tomate e temperar com sal e cheiro verde. Cozinhar em fogo alto, mexendo, até amolecer o tomate. Reservar.

Montagem

  • Ajeitar as berinjelas numa forma em que não sobre espaço.
  • Distribuir o creme do recheio sem encher totalmente as berinjelas.
  • Completar o recheio com o salteado de tomates e cogumelos.
  • Distribuir pedacinhos de queijo de cabra sobre as berinjelas.
  • Regar com azeite e levar ao forno quente por 15 minutos.

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Confesso que ainda não provei o resultado: elas serão assadas para o almoço de amanhã 😉

Mas eu volto para contar.

 

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Fazia muito tempo que meu coração não ficava apertado assim, desse jeito que você conhece bem, desse jeito que me deixa pequenininha, vulnerável, carente nem sei de quê. E com um nó na garganta ameaçando destampar em choro a todo instante.

Fico inventando louça para lavar, armário para arrumar, bolo para fazer, qualquer coisa para esquecer o filminho que fica se repetindo desde que acordei. No sonho, você voltava e tomava conta da minha vida de novo. Da vida, eu digo, da alegria, das horas felizes, do bater forte do coração, do vibrar do corpo todo. Algo de que ando esquecida nas histórias de amor (ou quase). Mas depois você desaparecia – deixava uma maleta, uma pasta cheia de tralhas, mas desaparecia com aquele seu jeito ímpar de desaparecer. Eu sabia que voltaria, mas acordei antes que isso acontecesse, e o resultado foi esse: um aperto no peito a me cercar o dia.

Umas lágrimas chegaram a escapar quando ouvi no rádio a música que abre o primeiro dos muitos CDs lindos que você gravou pra mim. “Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer. Devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer.”

Corri pra cá, para escrever esta carta de saudade. Um jeito de chorar sem perceber.

A vida dá cada tranco na gente…

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