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Archive for the ‘da fotografia’ Category

Seu Atílio com suas pequenas aventureiras. Foto: Norien Rossi.

Seu Atílio com suas pequenas aventureiras. Foto: Norien Rossi.

Descascam tangerinas no gramado do parque. Ele, cabelos gris e leve protuberância abdominal. Ela, 6 anos e um par de chiquinhas azuis.

Ele a convida a conhecer o novo sensor meteorológico, que ajuda as pessoas a saberem como anda o clima. Ela o convida a caminhar pela trilha no cerrado.

– Na volta, então? – ele insiste.

Ela, charmosa:

– Na volta. Agora quero ver todas as árvores, fotografar todas. Eu sou a fotografeira…

Ele corrige: Fotógrafa.

– Tá bom. Vamos, então?

Ela vasculha a mochila em busca da pequena câmera.

– Eu sou a fotógrafa aventureira. – Olha para ele: E você, quem é?

– Eu? – ele pensa um pouco, antes de responder, orgulhoso: Eu sou seu guia.

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claroescuro_anarossi

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Fotos Anamaria Rossi

Senti um calafrio e uma tristeza profunda quando Felipe me chamou, agora há pouco, para ver a notícia:  o fogo destruiu a Estação Brasileira Comandante Ferraz, na Antártica, matando dois militares.

Estive lá há exatos cinco anos, em viagem de trabalho. Contei esta aventura num post originalmente publicado no site Pictura Pixel, do qual fui colaboradora. E hoje peço licença ao meu amigo Cláudio Versiani, editor da Pictura Pixel, para republicá-lo aqui, com o coração apertado.

Lá, como aqui, estávamos em meados de março, e o navio Ary Rongel preparava-se para cumprir a etapa final da Missão Antártica Brasileira iniciada na primavera de 2006, retornando ao Rio de Janeiro para reparos de rotina. O Ary Rongel fazia as vezes de uma base flutuante de apoio à missão brasileira, levando e trazendo gente, equipamentos e suprimentos entre a Base Chilena, onde pousam os Hércules C-130 da FAB, e a Estação Brasileira Comandante Ferraz, na Ilha Rei George.

De carona nas comemorações do Ano Polar Internacional, os Correios lançariam um selo em homenagem ao Programa Antártico Brasileiro. E lá fomos nós para a festa de lançamento, num “ameno” final de verão antártico – jornalistas, convidados, representantes do governo e patrocinadores do programa.

A certa altura da festa, a jornalista Tereza Cruvinel, na época colunista de O Globo, decidiu que mandaria dali mesmo, da biblioteca multimídia da Estação, um post para o seu blog no site do jornal. Eu, como não tinha blog e já estava ligeiramente bêbada depois de uma maratona de vôos, discursos e drinques, entrei na cabine vizinha, coloquei o copo ao lado do teclado e mandei a seguinte mensagem para minha lista de amigos:

POST AVULSO DE UM BLOG INEXISTENTE

Queridos e queridas,

Como não tenho blog, vou registrar este momento incrível num e-mail coletivo. Escrevo esta mensagem da ANTÁRTICA – não, não é a cervejaria, é o Continente Gelado, o Pólo Sul, essa montanha de pedra recoberta por camadas e camadas de gelo polar, cujos pedriscos neste momento dão charme e antiguidade de dois mil anos ao scotch que eu bebo. Um legítimo uísque 2012 anos!

Pois é, eu espero que todo mundo possa um dia ver isso aqui de perto. Não só pela grandiosidade, mas pela prova concreta que é a Antártica da possibilidade de um mundo sem fronteiras, da colaboração entre os povos, da convivência pacífica – mais do que isso, harmoniosa, complementar, rica – entre os diferentes. É bom ver de perto. É fundamental poder acreditar nisso.

Mas quem quiser vir aqui, prepare-se. São muitas e muitas horas de vôo num avião militar, um Hércules C-130, feito para transportar soldados em guerra, mantimentos às toneladas e até trator, mas jamais pensado para levar turistas com um mínimo de conforto. Ou seja, muuuuuito legal!!!

A saída é no Galeão Velho, terminal de passageiros do Correio Aéreo Nacional, na Ilha do Governador. Primeira parada, Pelotas. E comi uma deliciosa pizza a metro, feita por um uruguaio de tirar o chapéu!

De lá seguimos para Punta Arenas, no extremo sul do Chile, Patagônia, em SEIS horas de Hércules. Vocês não imaginam o que seja isso. Joelho encaixando em joelho, coluna vertebral em ângulo de 90 graus. Mas com uma inacreditável comissária de bordo, dona Alice, 78 anos, 118 viagens à Antártica, voluntária, com um megafone de prontidão para botar ordem na confusão de militares, operários, pesquisadores e convidados VIPs que viajam democraticamente juntos.

Uma noite na gelada e quase antártica Punta Arenas, onde comemos congro rosa e centolla, e seguimos para a base chilena no Continente Antártico – mais três horas de Hércules.

É claro que a abusada aqui pediu ao comandante para ver o pouso da cabine, e logo que o Hércules furou a manta de nuvens eu quase morri de emoção ao ver os primeiros icebergs e as primeiras ilhas antárticas cobertas de gelo. Aqui é final de verão, como aí, e isso permitiu um bom pouso, sem gelo na pista, e depois uma travessia razoavelmente tranqüila de navio até a Estação Comandante Ferraz, brasileira.

Chegamos à estação, onde escrevo agora, já de noitinha. O navio ancorou lançando 48 metros de corda. Só então pude sentir o que é uma aventura de verdade: percorremos dois quilômetros de mar GELADO, cheio de blocos gigantes de gelo e alguns icebergs flutuando, no meio da noite, em um singelo bote salda-vidas, com vento de 10 graus negativos na cara e água hipergelada espirrando para todo lado, que tal?

Eu olhava para os lados e só via montanhas e montanhas de pedra e gelo. Inimaginável. Sensacional. Único! E agora estou aqui, na Estação, tomando o drinque mais badalado do Continente Antártico: uísque 12 anos com gelo de 2 mil anos! Uísque Polar! Chiquérrimo!

Amanhã cedo vamos voltar. Não dá para descrever essa aventura, só mesmo fazendo. De longe, vi alguns pingüins nadando, focas brincando entre icebergs e uma baleia esguichando água. Espero que amanhã o tempo esteja bom e eu possa percorrer os arredores da estação em um quadriciclo, até a pingüineira. Prometo levar fotos, só não garanto a qualidade. E desejo, de verdade, que vocês possam vir aqui um dia. Pelo menos os que não têm medo do frio.

Beijão,
Ana.

(Estação Comandante Ferraz, Ilha Rei George, Antártica, 12 de março de 2007)

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Foto de Ike Bittencourt (@ikebitten) publicada no instagram

O LEITOR

Quem me vê assim sentado, cabisbaixo, em silêncio, pensa: eis um homem cansado. Engano. Apenas um homem quieto. Recluso.

Sempre gostei da penumbra, das sombras. Melhor dizendo, da luz que só se pode ver na sombra. Por isso, vez ou outra escolho um canto como este, quieto, escuro, e arrasto meu banquinho até aquela nesga de luz para fazer o que mais gosto.

Abro um desses livros pesados de encadernação antiga e empoeirada e, com as pontas dos dedos molhadas na saliva, vou passando as páginas manchadas bem devagarinho, saboreando, com a poeira dos dedos e os farelos de papel, cada letra, cada palavra que me leva ao mundo iluminado do sonho.

Cansado? Não, eu nunca me canso. Porque se agora eu sou um velho sapateiro medieval sujo e maltrapilho, com as mãos cheirando a cola, algumas páginas adiante posso ser o mocinho da história, e calçar minhas botas de couro de carneiro, vestir minha capa de tecido negro, empunhar minha espada de justiceiro e, do alto do meu cavalo branco e da minha juventude, vencer o tempo e a escuridão.

Não se deixe enganar por seus olhos. Não sou o homem que você vê, sou o homem que eu faço de mim, a cada página vivida e virada.

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No verão íamos para uma praia na Costa Brava, chamada Arenys de Mar. O nome é catalão. Todos os domingos, eu pegava minha sacolinha com um sanduíche, uma canga, uma toalha e algum livro para ler na areia. Biquíni não precisava: a praia, como muitas na região, é território livre para desembolorarmos nossas intimidades sem falsos pudores nem fios dentais hipócritas. Depois de um longo e tenebroso inverno, cobertos por camadas e mais camadas de lã, só o que nossos corpos pediam, suplicavam, imploravam, era sol. Sem restrições.

Também o Palhaço estava nu. Cabelos longos, cavanhaque bem aparado, dentes brancos, pele dourada. Vez ou outra ele amarrava a canga alaranjada na cintura, como um escocês acometido de tropicalismo, mas não precisava. E nem era por isso. O que atraía todos os olhares da praia para o Palhaço ele não podia esconder com a canga na cintura: ele tinha o mundo em suas mãos. E brincava com ele, deslizava aquele mundo vítreo e redondo pelas curvas de seu corpo bem feito, como quem faz carinho em si mesmo com uma pluma, suave, harmonioso, mágico.

No globo de vidro do Palhaço cabíamos todos: a areia, o mar, o céu, as intimidades. Tudo e todos como um só ser, roliço, deslizante sobre as curvas do Palhaço, braços, o peito aberto, o abdômen, coxas, até a curva entre o tornozelo e o peito do pé, e de lá o globo com a gente dentro alçava vôo pelo infinito dos ares até repousar de novo no côncavo acolhedor do braço do Palhaço.

Juntava gente de todo tipo ao redor do espetáculo, que nem era um espetáculo, era uma brincadeira, um prazer pessoal, um deleite do Palhaço, um deleite que ele estendia a toda Arenys de Mar. Gente de cinco anos querendo apreender o mundo nas mãos do Palhaço; gente pra lá dos oitenta, as intimidades já meio recolhidas mas ainda sem pudor; gente de óculos escuros para disfarçar a paixão repentina e arrebatadora pelo Palhaço; gente tentando decifrar a mágica de ter o mundo nas mãos como se o mundo coubesse todo naquela bola de vidro que bailava bailava na melodia do Palhaço.

No final do último verão o Palhaço montou uma tenda. Quando não estavam brincando com o mundo, suas mãos faziam mágica nos corpos dos veranistas, massageando aqui e ali. Animada com a perspectiva de sentir em meu corpo as mãos mágicas do Palhaço, prometi a mim mesma que voltaria no próximo domingo, com dinheiro suficiente para comprar alguns minutos daquelas mãos, daquela mágica, daquele mundo.

Mas o verão acabou antes do próximo domingo. A ventania levou o Palhaço sabe-se lá para que praia, que verão, que mundo mágico ou real. E antes que o outono tingisse tudo de amarelo, laranja pálido e cáqui, fui eu quem deixei Arenys de Mar, a Costa Brava, a Catalunha e aquele ano de sonho para voltar ao meu mundo muito muito real.

Mas a mágica voltou comigo. Ainda hoje, olhando para a bola de vidro nas mãos de um palhaço qualquer em alguma esquina da grande cidade de Belo Horizonte das Minas Gerais, lá estava, impávido e intocado, lindo e real como um personagem da Commedia dell’arte, o Palhaço Nu de Arenys de Mar, bailando sensual com o mundo nas mãos. Como se o mundo todo coubesse ali, em seu sonho, em seu globo de vidro, sangue e mar. E não cabe?

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Foto de Ike Bittencourt (@ikebitten), publicada no instagram

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Fotos Anamaria Rossi / da minha janela

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As fotos do post anterior, na versão instagram

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