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Toda quarta-feira tem uma feirinha orgânica aqui perto de casa, e também aos sábados. Aproveito para comprar beterraba miúda com a folhagem, dá uma salada maravilhosa com bastante cebola e temperinhos. Mas eu sempre me perguntava o que fazer com os talos vermelhinhos, lindos, da beterraba. E na semana passada resolvi experimentar. Juntei com os talos da couve e fiz uma farofa deliciosa, linda e colorida. Gostamos tanto aqui em casa que resolvi compartilhar com vocês a receita. Para quem não tem intimidade com a cozinha, segue um passo a passo.

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FAROFA DE TALOS DE BETERRABA E COUVE

Ingredientes

  • 1/2 cebola picada em lâminas finas
  • 2 xícaras de talos de couve e beterraba picadinhos
  • 1 colher (sopa) de manteiga de leite
  • 1 xícara de farinha de mandioca ou de milho
  • Sal a gosto

Refogue a cebola na manteiga em uma frigideira ou panela de fundo grosso, em fogo baixo, até dourar a cebola.

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Junte os talos picadinhos e refogue por três minutos.

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Acrescente 1/2 copo de água, sal a gosto, tampe e deixe cozinhar um pouco. Se necessário, junte mais água.

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Com o refogado ainda molhadinho e os talos crocantes, junte a farinha, misture suavemente, corrija o sal e desligue.

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A farofa está pronta e vai muito bem como acompanhamento de qualquer outra delícia!

Variações: Já fiz esta mesma farofa com talos de beterraba e mostarda e folhas de espinafre rasgadas. Neste caso, o espinafre é adicionado quando os talos já estão cozidos, deixando o refogado apenas mais dois minutos no fogo antes de juntar a farinha. Enfim, aproveite a receita para usar a sua criatividade!

Farofa de espinafre com talos de beterraba e mostarda

Farofa de espinafre com talos de beterraba e mostarda

Pai e filha

Seu Atílio com suas pequenas aventureiras. Foto: Norien Rossi.

Seu Atílio com suas pequenas aventureiras. Foto: Norien Rossi.

Descascam tangerinas no gramado do parque. Ele, cabelos gris e leve protuberância abdominal. Ela, 6 anos e um par de chiquinhas azuis.

Ele a convida a conhecer o novo sensor meteorológico, que ajuda as pessoas a saberem como anda o clima. Ela o convida a caminhar pela trilha no cerrado.

– Na volta, então? – ele insiste.

Ela, charmosa:

– Na volta. Agora quero ver todas as árvores, fotografar todas. Eu sou a fotografeira…

Ele corrige: Fotógrafa.

– Tá bom. Vamos, então?

Ela vasculha a mochila em busca da pequena câmera.

– Eu sou a fotógrafa aventureira. – Olha para ele: E você, quem é?

– Eu? – ele pensa um pouco, antes de responder, orgulhoso: Eu sou seu guia.

Se você leu o post de ontem, esqueça tudo o que eu disse sobre ficar zen. Na terceira tentativa de completar a via crucis para obter um carimbo do Itamaraty em meu diploma de Jornalismo, acabei recorrendo ao que tenho de melhor: a contundência. Endureci. E quase perdi a ternura.

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10h30 – Fila do Protocolo da UnB – aquele que ontem estava fechado por causa da greve dos servidores. Formulário preenchido.

10h45 – Minha vez. Senhora, falta o comprovante de pagamento da taxa. Querida, fui informada ontem no balcão ali de baixo que a taxa poderia ser paga DEPOIS de dar entrada no pedido. Porque tenho urgência no pedido. Não, senhora, precisamos do comprovante original do depósito. Tudo bem, eu posso fazer o depósito online agora mesmo e mandar o comprovante por email. Pode ser? Não senhora, tem que ser em papel. OK, me dê então o papel que preciso pagar, eu corro lá no banco e volto antes das 12h. Ah, a senhora precisa pegar isso no balcão ali de baixo. What? No balcão ali de baixo me disseram ontem que eu apenas deveria fazer uma transferência! Estou aqui seguindo estritamente as orientações deles! A atendente chama o superior. Que chega com uma cópia do Diário Oficial. Veja bem, senhora. Esta Portaria foi publicada em junho de 2015. E diz blábláblábláblá. Mas antes já havia outra portaria blábláblá… Interrompo. Acredito em você. Apenas quero que você me dê o papel que preciso pagar. Estou há dias tentando resolver isso, e tenho urgência. Senhora, não tem papel. A senhora volte lá no outro balcão e resolva com eles. Me exalto. Mas eles não tem cópia desta Portaria? Vocês não combinaram os procedimentos? Eu vou perder mais um dia nessa via crucis? Não posso fazer nada, senhora. É o que diz a Portaria. E, a senhora sabe, estamos em greve, não temos prazo para entregar seu documento.

10h55 – Balcão de baixo. Querida, você pode me dar o papel que eu tenho que pagar para blábláblábláblá? Não tem papel, senhora. Como não tem papel? Se me pedem um papel, tem que ter papel! Não, a senhora tem que fazer blábláblábláblá. Perco de vez a paciência. Escuta, minha filha. Vocês já me fizeram perder váaaaarios dias. Me deram mandaram para o cartório errado. Me obrigaram a entrar com um pedido de segunda via do diploma. E agora não me deixam entrar com o pedido por causa de um papel que não existe!!! Não tenho mais tempo!!! A fila atrás se agita. A moça se irrita, vai lá dentro, e em 30 segundos volta cuspindo o endereço de um novo cartório. TEM CERTEZA? Tenho.

11h05 – Vou em casa buscar o diploma original para tentar o novo cartório. Paro no posto para comprar cigarros. Respiro fundo para tentar me desfazer da ideia de voltar ao balcão de baixo com uma bomba acesa caso o novo cartório não me dê o carimbo.

11h20 – Entro no cartório. Senha. Fila. Carimbo. Fila para pagar. Saio de lá com o carimbo.

11h35 – Entro no carro e acelero para chegar ao Itamaraty antes das 11h45, hora em que se encerra a entrega de senhas.

11h43 – Estacionamento do Itamaraty lotado. Desisto. Só amanhã. Meia-volta para casa. Na saída, um milagre: uma vaga do lado oposto do Eixo. Pista vazia. Faço uma gambiarra, marcha-a-ré na contramão, estaciono. Respiro fundo e miro meu alvo. Dou a partida nas panturrilhas. Atravesso correndo as seis faixas do Eixo (botinha de salto baixo, ufa!). Atravesso correndo o passeio dos jardins de Burle Marx. Passo por dois guardinhas que me olham curiosos. Contorno correndo o prédio de Niemeyer. Chego sem fôlego ao anexo. Entro correndo na saleta, preparada para seduzir o guardinha. Não preciso. São 11h46. A porta se fecha atrás de mim.

11h47 – Senha. Formulário. Sento para me recompor. Respiiiira, Ana! Lembro que o atendente me disse, semana passada, para pegar o carimbo no cartório e voltar direto ao seu guichê. Lá vou eu. Ele não me reconhece, claro. Mas quer se livrar de mim para ir almoçar. Bate o carimbo e assina sem sequer conferir o carimbo do cartório. Me devolve. Pergunto: E o que faço com este formulário? Ele pega o dito-cujo, amassa e joga na lixeira, me olhando e rindo. Não precisa mais, tudo resolvido.

11h58 – Saio do Itamaraty com os dois primeiros carimbos. Atravesso devagarinho os jardins de Burle Marx, saboreando a vitória. Sorrio para os guardinhas. Contemplo o lindo dia de céu azul. Ufa! Por hoje é só, pessoal. Reservo a tarde para meditar. Preciso estar preparada. Amanhã começa a segunda etapa.

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Yes, I can!

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Hoje eu tive um sinal claro de que ainda é possível, neste mundo de Deus, tornar-me uma pessoa, digamos, quase calma. Seria um grande passo para, quem sabe na próxima encarnação, ou na seguinte, atingir o Nirvana Zen.

Estou falando de burocracia, essa instituição kafkiana, insana e irracional sem a qual nossos dias seriam mais longos e felizes.

Tudo começou na semana passada, quando dei início à peregrinação para ter meu diploma de Jornalismo reconhecido pela Embaixada da Espanha.

  • Passo 1: Buscar uns carimbos no Itamaraty.
  • Passo 2: Mandar traduzir para o Espanhol (por um tradutor juramentado)
  • Passo 3: Buscar mais uns carimbos na Embaixada da Espanha no Brasil.
  • Passo 4: Buscar novos carimbos no Ministério da Educação da Espanha ou algo que o valha. Em Madri.

Vamos por partes. Itamaraty.

Estaciono lá na PQP. Caminho de salto no asfalto quente. Senha. Uma hora de fila. O expediente termina e pularam meu número. Reclamo. Alguém que já ia sair para almoçar me atende de má vontade. Olha meu diploma e diz: tem que reconhecer estas firmas aqui. No cartório. Depois voltar aqui para buscar os carimbos. Mas já vou avisando: se o diploma for de outra cidade, vai ser difícil. Menos mal: o diploma é de Brasília.

Próximo passo: Cartório.

O maior da cidade, para ter alguma chance de acertar. No balcão, a primeira dificuldade é decifrar as assinaturas, que não estão acompanhadas dos respectivos nomes por extenso. Google: Quem era o reitor da UnB em outubro de 1990? (SIM, o diploma é de outubro de 1990!!!). Quem era o Diretor Acadêmico? Vinte e cinco links visitados, ufa!, tenho os nomes. Volto ao balcão. Nenhum dos dois tem firma registrada naquele cartório. O maior da cidade. Por onde começar? Google de novo: telefones da UnB. A lista é infinita. Começo pelos principais. Ninguém agende. Cinco ligações, zero resposta.

Pausa para o almoço.

Nova tentativa de falar na UnB. Zero sucesso. Vasculho a lista de telefones e descubro o nome de um conhecido na Secom. Bingo! Ligo e peço a gentileza de me ajudar a localizar o setor que pode me informar onde os ilustres signatários do meu diploma tem firma registrada. Ele me passa um telefone. Que, milagrosamente, é atendido! Explico para a moça do outro lado qual é a questão. Um momentinho. Cinco minutos: A senhora pode repetir os nomes? Repito. Mais um momentinho. Cinco minutos e ela pede para eu repetir DE NOVO os nomes. Ao final de mais cinco minutos a moça me dá o endereço do cartório onde tudo será resolvido: o mesmo onde eu já havia estado.

Estaca zero. Pausa para o fim de semana. Res-pi-ra, Ana.

Segunda tentativa.

Decido pedir à UnB que emita um novo diploma, com assinaturas atuais, que possam ser comprovadas em cartório. Chego na repartição indicada às 15h de hoje, segunda-feira, dia internacional de resolver pendências burocráticas. Entrego as cópias xerox e recebo um formulário para preencher. A senhora tem que levar o pedido no Protocolo, pagar a taxa no banco e esperar que avisem quando ficar pronto. Mas isso é quando? Ah, leva de 30 a 60 dias. Mas eu preciso pra ontem! Então peça urgência, mas não garanto prazo. Subo as escadas para o Protocolo. São 15h30 e a portinha está fechada, com um cartaz vermelho onde se lê: Servidores da UnB em Greve! Em letras miúdas, informa que atendimento externo durante a greve só pela manhã. Eu rio. Voltar amanhã cedo é o de menos, só o que me faltava era uma greve!

Próxima pendência do dia: Detran.

Ligo antes e a moça me diz que posso obter o documento que procuro em qualquer agência. Sigo para o Na Hora da Rodoviária. Estaciono no Conic às 15h45, atravesso a rodoviária lotada, pego uma ligeira fila – ok, por isso eu já esperava. Mas sou informada de que só a agência do Detran no Shopping Popular pode fornecer tal documento – A senhora sabe qual é o shopping? Aquele que fica ao lado da antiga Rodoferroviária. Ok, vamos lá, meu humor ainda resiste. Atravesso de volta a rodoviária lotada, pego o carro no Conic, faço uma gambiarra no trânsito ali no estacionamento do Teatro Nacional e subo para o Shopping Popular. Yes, I can!

Shoppping Popular

Atravesso corredores fantasmas repletos de quiosques fechados na segunda-feira e encontro a agência do Detran láaaaaaa no fundão. Formulários. Senha. Olho no painel e constato: tem mais de 200 números na minha frente! Respiiiiiira, Ana! Olho para a multidão em busca de uma cadeira vaga. Garrafinha de água ok. Internet ok. Eu sobreviverei. Uma hora e meia depois, bateria no vermelho, chega a minha vez. Falta uma cópia, senhora. Uai, que cópia? Da identidade. Preciso de duas. Pergunto se ele pode fazer. Não. Saio pelos corredores vazios em busca de uma xerox. Já está fechando. Volto correndo, porque o Detran também já está fechando. Entrego a cópia, assino a papelada e saio com duas guias de pagamento. Respiro aliviada quando ele me diz que o documento será entregue pelos Correios. Ufa! Por hoje acabou.

Acabou?

A burocracia sim, mas… e o trânsito? São seis e pouco e a saída do Shopping Popular me joga di-re-ta-men-te na Estrutural. Sem alternativas. E sem chance de retorno – a esta hora, as duas pistas seguem rumo a Taguatinga. Mas eu quero voltar para a Asa Norte! Bom, vamos lá. Eu consigo. Respira fundo, Ana. Acende um cigarro. Toma um gole d’água. Relaaaaaxa. Eu relaxo. Traço um plano B para não ter que cair em Taguá. Entro na Cidade do Automóvel. Engarrafamento. Quinze minutos depois consigo atravessar para o SIA. Mais engarrafamento. Pego um atalho e vou serpenteando até a Feira do Paraguai para tentar cair na EPIA, direção Sobradinho. Engarrafamento. Mas pelo menos estou no rumo de casa. Estaciono no meu bloco às 19h.

Lar, doce lar!

Tiro o sapato, surpresa por não ter dado um ataque até o momento, e começo a traçar uma estratégia para amanhã. Preciso convencer um servidor da UnB em greve a expedir a segunda via do meu diploma em prazo recorde! Haja oxigênio. Haja charme. E depois disso ainda faltarão todos os passos lá de cima.

Yes, I can!

Queda livre

Portrait of Woman, Picasso, 1936

Portrait of Woman, Pablo Picasso, 1936

Você já escorregou num tobogã? Era um dos meus brinquedos preferidos na infância, e foi até a adolescência. Bom, para ser sincera, sincera mesmo, peguei carona na infância do meu filho e continuei escorregando no tobogã da Nicolândia até bem adulta.

A vertigem de deslocar-se tanto, entre céu e terra, em tão poucos segundos me fazia, naquele átimo de tempo, tirar as quatro patas que sempre tive cravadas no chão da realidade. Era um jeito de voar. Mais, de sair do ar. Muito mais que um deslocamento no espaço. Era um deslocamento do “lugar” que eu ocupava no mundo. Naqueles míseros e fantásticos segundos a realidade não existia, tudo ficava em suspenso, tudo podia acontecer.

Naquela época eu ainda não conhecia o tobogã emocional. Ou talvez já conhecesse, mas não tinha tempo para me preocupar com ele. Aqueles momentos – raros – na vida em que descemos do céu ao chão, ou ao inferno, em poucos segundos. Ainda bem que não acontece sempre. Mas acontece.

A gente primeiro fica sem chão. Em queda livre, olha para baixo e só enxerga – enxerga? – um poço escuro e sem fundo. Tenta tatear as paredes, encontrar uma raiz de árvore para se agarrar. Podem se passar horas, dias, anos… e de repente, opa, um galho seco interrompe a queda. Sempre tem um, ou quase sempre. Você respira. Ufa. Olha para cima procurando um rastro de luz para guiar a volta.

Mas a volta é lenta, trabalhosa, e você vai tropeçando em caixas de memórias, fantasmas, retalhos de uma vida inteira, como se todo o seu baú tivesse sido despejado enquanto você caía.

Entre arranhões, você vai escalando o arsenal da sua história. Às vezes precisa mesmo amputar um pedaço, que já nem sabia morto, para passar pelo funil da subida. E também, pelo caminho, recolhe uns retalhos que preferia não ter perdido ou esquecido no fundo do baú. Então você sopra a poeira, encontra um novo lugar para eles, remenda. E vai em frente, à tona, devagar e sempre.

As crises tem isso de bom: a gente se redimensiona.

Dia desses, chuvoso e cinzento por dentro, eu ainda meio tonta da queda, dei de cara com meu baú espalhado na memória do computador. Quase que por inércia, comecei a faxina: poesias numa pasta, outras na lixeira; crônicas aqui, cartas ali, meninices acolá, filosofias bêbadas noutro canto.

No meio de uma antiga correspondência, um trecho de e-mail me deixou atônita. Conferi a data várias vezes. Busquei os originais na caixa de mensagens. Não é possível! Como posso ter escrito isso há tantos anos? Ou melhor: como posso ter esquecido isso por tantos anos? Estava lá, em novembro de 2003, a síntese perfeita, o extrato límpido e depurado do que eu só agora, 12 anos depois, finalmente assumo como a minha bagagem de volta à vida.

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O que me dá prazer de verdade: ter que me superar para enfrentar alguns desafios; descobrir novos lugares e pessoas; conversar com amigos de verdade; dançar quando estou cheia de energia; fazer amor com quem eu amo; ver meu filho virar um homem. E escrever. Sempre, e cada vez mais, sabendo que quanto mais escrevo, mais tenho a escrever, e aprender, e descobrir para ser escrito.

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E pensar que eu poderia seguir pela eternidade sem encontrar esse retalho…

Tem coisas que só mesmo um tobogã.

– Posso perguntar uma coisa? Como você economiza água na sua casa?

A menina tem uns 9 anos e me aborda com total firmeza na saída do Parque Olhos D’Água, onde eu e Teca acabamos de fazer nosso percurso matinal.

Penso um pouco e, meio envergonhada, conto para ela duas ou três medidas domésticas para evitar o desperdício.

– Mas você não usa um copinho para escovar os dentes? – ela pergunta e ao mesmo tempo me dá uma bronca.

– Não, mas deveria. Vou melhorar nisso. Obrigada pelo toque.

A turma da terceira série da Escola Classe 415 Norte está em passeata em defesa da água, e naquele momento cerca o vendedor de coco, que fica meio atônito com tantos pedidos.

Ainda tentamos entender o que se passa quando somos abordadas com novas perguntas por outra garota, Maia, a idealizadora da campanha. Séria, compenetrada, ela nos conta sobre o que a turma fará com as informações coletadas em suas entrevistas pela rua.

– Vamos fazer um site chamado gotinhafeliz.com.www! – assim mesmo, com os “w” no final.

A professora Nailda pede a Maia para falar sobre o personagem que ela criou. Maia explica e mostra o desenho da Gotinha Feliz no cartaz, uma gota azul com pernas e braços, e com um belo “muque” em sinal de sua força.

– Eu tive a ideia do personagem e da campanha e a turma gostou. Daí a gente começou.

Não resisto e peço para fazer uma foto. A professora, orgulhosa de seus rebentos, tenta reunir a meninada, mas a essa altura está difícil.

Maia consegue juntar alguns colegas com cartazes para o registro. O sol e o céu azul de Brasília fazem a sua parte, e aí está.

Turma da 3a série da Escola Classe 415 Norte em passeata contra o desperdício de água.

Turma da terceira série da Escola Classe 415 Norte em passeata contra o desperdício de água.

Salve Salve, criançada! Salve Salve, professora!

A grande lição tem nome, e se aprende (também) na escola: Cidadania.

A minha tribo

Foto: Anamaria Rossi

Uma porta para o infinito (Miradoiro da Peneda, Galícia, Espanha). Foto: Anamaria Rossi

Tem gente que viaja para fazer compras, outros para se divertir loucamente, visitar amigos, conhecer novos lugares, provar novas comidas, e outros ainda para colecionar fotos e carimbos no passaporte.

Eu viajo para ser livre.

Ser livre para mim é poder ser quem eu quiser, ser tudo o que sou e até o que não sou. Sem nenhum olhar condenatório ou ameaçador. E a melhor maneira que encontrei para experimentar esta liberdade, a liberdade que eu preciso e quero, foi viajando.

Viajar é um jeito de ser estrangeiro mesmo em seu próprio país. Melhor ainda – para os efeitos em questão – se for em outro país, porque aí você será estrangeiro de fato, não apenas simbólico. Ser estrangeiro é ser estranho à rotina, à cultura, ao jeito de pensar, agir e – sobretudo – julgar daquele povo. É não conhecer nem se filiar por obrigação aos seus valores morais, à sua visão de mundo, aos seus códigos, mas ir entendendo e aderindo a tais códigos na medida em que eles fazem sentido pra você.

O estrangeiro quase sempre tem passe livre para ser “estranho”, diferente, exótico. Pode experimentar ser o que quiser sem que isso choque ou desaponte a vizinhança. Pode pensar diferente, vestir-se diferente, ser mais atirado ou mais calado, ninguém vai lhe condenar. Do estrangeiro, só o que se espera é que ele seja diferente, que surpreenda, que traga um novo olhar. Nada das expectativas dirigidas aos nascidos e criados ali. Tudo o que um estrangeiro precisa fazer é… ser estrangeiro – e nisso reside sua liberdade. Também mora aí o perigo da solidão, mas este é o preço a pagar, e às vezes nem é tão alto quanto a solidão e outros tributos que pagamos por conduzir nossas vidas de forma a caber no quadrado que nos foi desenhado.

Para quem viaja assim, o mundo é redondo. E vai ficando cada vez menor. A cada dia você pode encontrar, em qualquer lugar, mais e mais gente da sua tribo de estrangeiros soltos no mundo. É quase um mundo paralelo o desta tribo.

Eu me encontro nela. É a minha tribo.

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