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Archive for the ‘de Brasília’ Category

Se você leu o post de ontem, esqueça tudo o que eu disse sobre ficar zen. Na terceira tentativa de completar a via crucis para obter um carimbo do Itamaraty em meu diploma de Jornalismo, acabei recorrendo ao que tenho de melhor: a contundência. Endureci. E quase perdi a ternura.

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10h30 – Fila do Protocolo da UnB – aquele que ontem estava fechado por causa da greve dos servidores. Formulário preenchido.

10h45 – Minha vez. Senhora, falta o comprovante de pagamento da taxa. Querida, fui informada ontem no balcão ali de baixo que a taxa poderia ser paga DEPOIS de dar entrada no pedido. Porque tenho urgência no pedido. Não, senhora, precisamos do comprovante original do depósito. Tudo bem, eu posso fazer o depósito online agora mesmo e mandar o comprovante por email. Pode ser? Não senhora, tem que ser em papel. OK, me dê então o papel que preciso pagar, eu corro lá no banco e volto antes das 12h. Ah, a senhora precisa pegar isso no balcão ali de baixo. What? No balcão ali de baixo me disseram ontem que eu apenas deveria fazer uma transferência! Estou aqui seguindo estritamente as orientações deles! A atendente chama o superior. Que chega com uma cópia do Diário Oficial. Veja bem, senhora. Esta Portaria foi publicada em junho de 2015. E diz blábláblábláblá. Mas antes já havia outra portaria blábláblá… Interrompo. Acredito em você. Apenas quero que você me dê o papel que preciso pagar. Estou há dias tentando resolver isso, e tenho urgência. Senhora, não tem papel. A senhora volte lá no outro balcão e resolva com eles. Me exalto. Mas eles não tem cópia desta Portaria? Vocês não combinaram os procedimentos? Eu vou perder mais um dia nessa via crucis? Não posso fazer nada, senhora. É o que diz a Portaria. E, a senhora sabe, estamos em greve, não temos prazo para entregar seu documento.

10h55 – Balcão de baixo. Querida, você pode me dar o papel que eu tenho que pagar para blábláblábláblá? Não tem papel, senhora. Como não tem papel? Se me pedem um papel, tem que ter papel! Não, a senhora tem que fazer blábláblábláblá. Perco de vez a paciência. Escuta, minha filha. Vocês já me fizeram perder váaaaarios dias. Me deram mandaram para o cartório errado. Me obrigaram a entrar com um pedido de segunda via do diploma. E agora não me deixam entrar com o pedido por causa de um papel que não existe!!! Não tenho mais tempo!!! A fila atrás se agita. A moça se irrita, vai lá dentro, e em 30 segundos volta cuspindo o endereço de um novo cartório. TEM CERTEZA? Tenho.

11h05 – Vou em casa buscar o diploma original para tentar o novo cartório. Paro no posto para comprar cigarros. Respiro fundo para tentar me desfazer da ideia de voltar ao balcão de baixo com uma bomba acesa caso o novo cartório não me dê o carimbo.

11h20 – Entro no cartório. Senha. Fila. Carimbo. Fila para pagar. Saio de lá com o carimbo.

11h35 – Entro no carro e acelero para chegar ao Itamaraty antes das 11h45, hora em que se encerra a entrega de senhas.

11h43 – Estacionamento do Itamaraty lotado. Desisto. Só amanhã. Meia-volta para casa. Na saída, um milagre: uma vaga do lado oposto do Eixo. Pista vazia. Faço uma gambiarra, marcha-a-ré na contramão, estaciono. Respiro fundo e miro meu alvo. Dou a partida nas panturrilhas. Atravesso correndo as seis faixas do Eixo (botinha de salto baixo, ufa!). Atravesso correndo o passeio dos jardins de Burle Marx. Passo por dois guardinhas que me olham curiosos. Contorno correndo o prédio de Niemeyer. Chego sem fôlego ao anexo. Entro correndo na saleta, preparada para seduzir o guardinha. Não preciso. São 11h46. A porta se fecha atrás de mim.

11h47 – Senha. Formulário. Sento para me recompor. Respiiiira, Ana! Lembro que o atendente me disse, semana passada, para pegar o carimbo no cartório e voltar direto ao seu guichê. Lá vou eu. Ele não me reconhece, claro. Mas quer se livrar de mim para ir almoçar. Bate o carimbo e assina sem sequer conferir o carimbo do cartório. Me devolve. Pergunto: E o que faço com este formulário? Ele pega o dito-cujo, amassa e joga na lixeira, me olhando e rindo. Não precisa mais, tudo resolvido.

11h58 – Saio do Itamaraty com os dois primeiros carimbos. Atravesso devagarinho os jardins de Burle Marx, saboreando a vitória. Sorrio para os guardinhas. Contemplo o lindo dia de céu azul. Ufa! Por hoje é só, pessoal. Reservo a tarde para meditar. Preciso estar preparada. Amanhã começa a segunda etapa.

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Hoje eu tive um sinal claro de que ainda é possível, neste mundo de Deus, tornar-me uma pessoa, digamos, quase calma. Seria um grande passo para, quem sabe na próxima encarnação, ou na seguinte, atingir o Nirvana Zen.

Estou falando de burocracia, essa instituição kafkiana, insana e irracional sem a qual nossos dias seriam mais longos e felizes.

Tudo começou na semana passada, quando dei início à peregrinação para ter meu diploma de Jornalismo reconhecido pela Embaixada da Espanha.

  • Passo 1: Buscar uns carimbos no Itamaraty.
  • Passo 2: Mandar traduzir para o Espanhol (por um tradutor juramentado)
  • Passo 3: Buscar mais uns carimbos na Embaixada da Espanha no Brasil.
  • Passo 4: Buscar novos carimbos no Ministério da Educação da Espanha ou algo que o valha. Em Madri.

Vamos por partes. Itamaraty.

Estaciono lá na PQP. Caminho de salto no asfalto quente. Senha. Uma hora de fila. O expediente termina e pularam meu número. Reclamo. Alguém que já ia sair para almoçar me atende de má vontade. Olha meu diploma e diz: tem que reconhecer estas firmas aqui. No cartório. Depois voltar aqui para buscar os carimbos. Mas já vou avisando: se o diploma for de outra cidade, vai ser difícil. Menos mal: o diploma é de Brasília.

Próximo passo: Cartório.

O maior da cidade, para ter alguma chance de acertar. No balcão, a primeira dificuldade é decifrar as assinaturas, que não estão acompanhadas dos respectivos nomes por extenso. Google: Quem era o reitor da UnB em outubro de 1990? (SIM, o diploma é de outubro de 1990!!!). Quem era o Diretor Acadêmico? Vinte e cinco links visitados, ufa!, tenho os nomes. Volto ao balcão. Nenhum dos dois tem firma registrada naquele cartório. O maior da cidade. Por onde começar? Google de novo: telefones da UnB. A lista é infinita. Começo pelos principais. Ninguém agende. Cinco ligações, zero resposta.

Pausa para o almoço.

Nova tentativa de falar na UnB. Zero sucesso. Vasculho a lista de telefones e descubro o nome de um conhecido na Secom. Bingo! Ligo e peço a gentileza de me ajudar a localizar o setor que pode me informar onde os ilustres signatários do meu diploma tem firma registrada. Ele me passa um telefone. Que, milagrosamente, é atendido! Explico para a moça do outro lado qual é a questão. Um momentinho. Cinco minutos: A senhora pode repetir os nomes? Repito. Mais um momentinho. Cinco minutos e ela pede para eu repetir DE NOVO os nomes. Ao final de mais cinco minutos a moça me dá o endereço do cartório onde tudo será resolvido: o mesmo onde eu já havia estado.

Estaca zero. Pausa para o fim de semana. Res-pi-ra, Ana.

Segunda tentativa.

Decido pedir à UnB que emita um novo diploma, com assinaturas atuais, que possam ser comprovadas em cartório. Chego na repartição indicada às 15h de hoje, segunda-feira, dia internacional de resolver pendências burocráticas. Entrego as cópias xerox e recebo um formulário para preencher. A senhora tem que levar o pedido no Protocolo, pagar a taxa no banco e esperar que avisem quando ficar pronto. Mas isso é quando? Ah, leva de 30 a 60 dias. Mas eu preciso pra ontem! Então peça urgência, mas não garanto prazo. Subo as escadas para o Protocolo. São 15h30 e a portinha está fechada, com um cartaz vermelho onde se lê: Servidores da UnB em Greve! Em letras miúdas, informa que atendimento externo durante a greve só pela manhã. Eu rio. Voltar amanhã cedo é o de menos, só o que me faltava era uma greve!

Próxima pendência do dia: Detran.

Ligo antes e a moça me diz que posso obter o documento que procuro em qualquer agência. Sigo para o Na Hora da Rodoviária. Estaciono no Conic às 15h45, atravesso a rodoviária lotada, pego uma ligeira fila – ok, por isso eu já esperava. Mas sou informada de que só a agência do Detran no Shopping Popular pode fornecer tal documento – A senhora sabe qual é o shopping? Aquele que fica ao lado da antiga Rodoferroviária. Ok, vamos lá, meu humor ainda resiste. Atravesso de volta a rodoviária lotada, pego o carro no Conic, faço uma gambiarra no trânsito ali no estacionamento do Teatro Nacional e subo para o Shopping Popular. Yes, I can!

Shoppping Popular

Atravesso corredores fantasmas repletos de quiosques fechados na segunda-feira e encontro a agência do Detran láaaaaaa no fundão. Formulários. Senha. Olho no painel e constato: tem mais de 200 números na minha frente! Respiiiiiira, Ana! Olho para a multidão em busca de uma cadeira vaga. Garrafinha de água ok. Internet ok. Eu sobreviverei. Uma hora e meia depois, bateria no vermelho, chega a minha vez. Falta uma cópia, senhora. Uai, que cópia? Da identidade. Preciso de duas. Pergunto se ele pode fazer. Não. Saio pelos corredores vazios em busca de uma xerox. Já está fechando. Volto correndo, porque o Detran também já está fechando. Entrego a cópia, assino a papelada e saio com duas guias de pagamento. Respiro aliviada quando ele me diz que o documento será entregue pelos Correios. Ufa! Por hoje acabou.

Acabou?

A burocracia sim, mas… e o trânsito? São seis e pouco e a saída do Shopping Popular me joga di-re-ta-men-te na Estrutural. Sem alternativas. E sem chance de retorno – a esta hora, as duas pistas seguem rumo a Taguatinga. Mas eu quero voltar para a Asa Norte! Bom, vamos lá. Eu consigo. Respira fundo, Ana. Acende um cigarro. Toma um gole d’água. Relaaaaaxa. Eu relaxo. Traço um plano B para não ter que cair em Taguá. Entro na Cidade do Automóvel. Engarrafamento. Quinze minutos depois consigo atravessar para o SIA. Mais engarrafamento. Pego um atalho e vou serpenteando até a Feira do Paraguai para tentar cair na EPIA, direção Sobradinho. Engarrafamento. Mas pelo menos estou no rumo de casa. Estaciono no meu bloco às 19h.

Lar, doce lar!

Tiro o sapato, surpresa por não ter dado um ataque até o momento, e começo a traçar uma estratégia para amanhã. Preciso convencer um servidor da UnB em greve a expedir a segunda via do meu diploma em prazo recorde! Haja oxigênio. Haja charme. E depois disso ainda faltarão todos os passos lá de cima.

Yes, I can!

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– Posso perguntar uma coisa? Como você economiza água na sua casa?

A menina tem uns 9 anos e me aborda com total firmeza na saída do Parque Olhos D’Água, onde eu e Teca acabamos de fazer nosso percurso matinal.

Penso um pouco e, meio envergonhada, conto para ela duas ou três medidas domésticas para evitar o desperdício.

– Mas você não usa um copinho para escovar os dentes? – ela pergunta e ao mesmo tempo me dá uma bronca.

– Não, mas deveria. Vou melhorar nisso. Obrigada pelo toque.

A turma da terceira série da Escola Classe 415 Norte está em passeata em defesa da água, e naquele momento cerca o vendedor de coco, que fica meio atônito com tantos pedidos.

Ainda tentamos entender o que se passa quando somos abordadas com novas perguntas por outra garota, Maia, a idealizadora da campanha. Séria, compenetrada, ela nos conta sobre o que a turma fará com as informações coletadas em suas entrevistas pela rua.

– Vamos fazer um site chamado gotinhafeliz.com.www! – assim mesmo, com os “w” no final.

A professora Nailda pede a Maia para falar sobre o personagem que ela criou. Maia explica e mostra o desenho da Gotinha Feliz no cartaz, uma gota azul com pernas e braços, e com um belo “muque” em sinal de sua força.

– Eu tive a ideia do personagem e da campanha e a turma gostou. Daí a gente começou.

Não resisto e peço para fazer uma foto. A professora, orgulhosa de seus rebentos, tenta reunir a meninada, mas a essa altura está difícil.

Maia consegue juntar alguns colegas com cartazes para o registro. O sol e o céu azul de Brasília fazem a sua parte, e aí está.

Turma da 3a série da Escola Classe 415 Norte em passeata contra o desperdício de água.

Turma da terceira série da Escola Classe 415 Norte em passeata contra o desperdício de água.

Salve Salve, criançada! Salve Salve, professora!

A grande lição tem nome, e se aprende (também) na escola: Cidadania.

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Se tem uma coisa que me deixa furiosa é gente folgada e sem noção do espaço público. Não é só falta de educação, no sentido formal da palavra, é falta de SIMANCOL, é individualismo puro!
Pois a Balofa Feiosa já tinha jogado uma PET no Lago não fazia nem dois minutos. Assim, com a maior naturalidade. O menino mostrava a ela, todo feliz, os três peixinhos que havia capturado, mas ela não quis nem saber, arrancou o “aquário” da mão dele e atirou sem nenhum pudor no Lago Paranoá, onde dezenas de pessoas ainda brincavam – nos pedalinhos, nos caiaques, nadando.
Minha vontade era dar umas bolachas nela, nem sei como me contive (será porque ela dava DUAS de mim?). Além de porca, má! Ao menino, franzino, só restou chorar e espernear na beirada do píer, praguejando.
Dali a pouco, quando a Balofa Feiosa tirou todas as PETs de dentro do isopor e virou a caixa sobre o Lago, cruzei os dedos para que não tivesse nada lá dentro, eu juro que ia voar no pescoço dela.
Só tinha gelo. Ufa!

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Bom, aí ela começou a arrumar as tralhas e colocar as garrafas de volta no isopor. Pensei: pronto, tudo resolvido. Ela vai embora e leva suas PETs.
Mas não! No meio da arrumação, a Feiosa simplesmente chacoalhou uma caixa de suco, viu que estava vazia e – vupt, jogou a caixa no Lago, como se atirasse uma roupa suja no canto do quarto.
– Nãããão! – Fez-se um coro, eu e duas mulheres que estavam mais adiante, atrás de mim, também vendo tudo.
– O Lago não é lata de lixo! – eu, furiosa.
– Que coisa feia! – minha vizinha, tentando manter a linha.
– Foi sem querer! – a cara de pau nem assume a porcaria!
– Sem querer coisa nenhuma! – avancei. – Você fez isso DUAS vezes. Será que não consegue carregar seu lixo até a lata de lixo? Tá tão pesado assim? Esse espaço é de todo mundo, é PÚBLICO, não é a sua casa!
As outras duas se juntaram e começou aquele bate-boca.
A essa altura, meu sangue italiano fervente já me fazia levantar e ir saindo dali para não ver mais nada, ainda espumando e falando impropérios contra a Balofa Feiosa, um ser da menor qualidade que conseguiu acinzentar o lindo fim de tarde no Calçadão da Asa Norte.

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Até aquele momento eu estava ali me divertindo horrores vendo a molecada brincando, e comemorando por dentro a ocupação daquele espaço classe-média-do-Plano-Piloto pela nova-classe-média-da-periferia, que transformou o píer numa verdadeira praia, com direito a biquíni, pescaria e churrasquinho. (Este post, aliás, seria sobre isso). Mas esqueci tudo e fui embora rapidinho, torcendo para a Balofa espetar o pé numa farpa bem grande, ou pisar numa lata de cerveja jogada no chão.
Desconfio que ideias assim também passaram pela cabeça do menino que ficou sem seus peixinhos. E, pior, teve que voltar para casa com a Feiosa.

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Durante quase dois anos, eu viajei com uma maquininha fotográfica dessas de bolso, minha nikonzinha, gravando imagens de decolagens e aterrissagens em minhas paradas.

Hoje, pensando em uma forma de homenagear esta cidade que escolhi para ser minha, que eu vi crescer junto comigo nos últimos 29 anos, lembrei de um videozinho que eu curto muito, porque registra as luzes que mais amo em minha Brasília: o azul quase escuro do fim da tarde/começo da noite e as luzes da cidade, que se multiplicam na proporção do meu amor pelo Planalto Central.

Pensei em dividir com vocês, e para que a experiência de chegar em Brasília fosse completa, escolhi uma música do querido Pecê Souza, Brasília, Poesia, que fala um pouco desse amor que faz a gente escolher Brasília para viver.

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Não me lembro se estávamos em 1997 ou se já tínhamos entrado em 1998, ano em que a direita se reagruparia, como de costume, para evitar a reeleição do petista Cristovam Buarque ao Governo do Distrito Federal. Eu estava à frente da recém-criada coluna Metrópole no Correio Braziliense, uma tentativa de abordar os bastidores da política local em notas curtas, frescas e ácidas, o que deu certo por algum tempo durante a gestão de Ricardo Noblat.

Deputado distrital pelo PP, Luiz Estevão era então o líder da oposição a Cristovam Buarque na Câmara Legislativa do DF. Roriz havia sumido do mapa desde o segundo turno da eleição de 1994 para governador, quando abandonou seu candidato, Valmir Campelo, para facilitar a vitória de Cristovam, na certeza de que voltaria ao governo em 1999 derrotando o próprio Cristovam. Arruda, ex-secretário do metrô, cria transgênica de Roriz e eleito senador em 1994 com o apoio dele, havia rompido com o ex-governador e tentava inventar uma “terceira via” para si mesmo no eterno fla-flu  de vermelhos e azuis da política local. Resumindo, o quadro era o seguinte: Cristovam e Luiz Estevão na frente do palco, sustentando a encenação; Roriz como uma enorme sombra projetada atrás de Estevão; e Arruda no fundo do tablado, procurando uma brechinha para entrar em cena.

Fazia sol naquele final de manhã quando eu saí da redação do Correio rumo à mansão de Luiz Estevão, no Lago Sul. Ia para um almoço, a convite do próprio Estevão, que me traria na bandeja o prato mais disputado no momento: Roriz, em carne e osso, voltando ao primeiro plano da cena depois de um sumiço estratégico. O convite, na verdade, se estendia ao meu editor, que na última hora, por algum motivo que não me lembro, não pode ir. E foi assim que me vi sozinha, na varanda da mansão de Estevão, com dois dos personagens mais repugnantes que o jornalismo já colocou à minha frente.

Naquele momento, porém, eu não tinha a menor ideia do quão disgusting eles ainda se revelariam nos anos seguintes. E talvez por isso eu tenha conseguido manter a elegância e não vomitar na cena seguinte, quando ouvi de Roriz uma das frases mais reveladoras do cruzamento de coronel com senhor de engenho que estava diante de mim.

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“Futebol em Brodósqui”, Portinari, 1935

Passávamos da varanda para a sala de jantar e, ao cruzar a sala de estar, parei para observar a bela coleção de arte ali exposta, quase que totalmente modernista. Por uns minutos, me detive com interesse diante de uma tela de Portinari – se não me falha a memória, “Futebol em Brodósqui”, um retrato da infância pobre do pintor, com crianças jogando bola num campinho de terra vermelha típico daquela região, que por acaso é a minha. Um retrato, mais que da simplicidade, da pobreza.

Percebendo meu interesse pelo quadro, Roriz comentou:

– Sabe, Anamaria, eu quero te dizer uma coisa. Eu gosto muito dos pobres. Tenho muito apreço pelos pobres.

Olhei para ele à espera do que viria.

– É mesmo, governador?

Ele abriu um sorriso quase inocente antes de completar a ideia.

– Verdade, tenho muito apreço. Porque, você veja bem. O que seria de nós sem os pobres? Se eles não existissem, quem cozinharia? Quem limparia nossa casa? Quem trabalharia pra nós? Então… eu gosto muito, aprecio muito os pobres.

E seguiu, sorridente e magnânimo, para ser servido no salão do almoço.

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* A propósito da reportagem de Ana Maria Campos e Helena Mader publicada ontem no Correio Braziliense, sob o título “Luiz Estevão se junta a Joaquim Roriz e Arruda contra o PT nas eleições”, aberta com a seguinte frase de Estevão: “Na política, não existem inimizades incontornáveis, nem amizades definitivas.”

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Último sábado antes do Natal, acordei pensando nos presentes que faltava comprar. Meio sonolenta, ainda de camisola, eu me arrastava até a cozinha, para passar o café e aquela tapioquinha matinal, quando ouvi um canto suave de passarinho. Tão perto, mas tão perto que parecia estar dentro de casa.

Tirei os chinelos e fui em passo de índio, leve e silencioso, até a varanda. Mal botei a cara pela fresta da porta de vidro e ela saiu voando. A Mãe Passarinha.

Fotos Anamaria Rossi

Fotos Anamaria Rossi

O ninho estava lá há três ou quatro dias, diminuto, de uma delicadeza absoluta, se equilibrando entre os galhos finos de um pequeno arbusto no canto da varanda. Foi ali, na mais antiga e resistente das plantas da nossa casa, que ela encontrou seu cantinho para dar à luz.

Foi Valdete quem me mostrou dia desses, olhinhos acesos.

– Óia! Vem ver, Anamaria! Vem ver o que tem aqui!

E em seguida me deu ordens expressas para não ficar saindo toda hora para a varanda, senão atrapalhava a passarinha.

Mas a passarinha mesmo só Valdete tinha visto, ela nunca dava o ar da graça quando eu estava em casa. E hoje não foi ela quem deu, fui eu – e acabei assustando a bichinha.

Mas não há nada que uma boa corte não resolva. Passei a manhã toda ensaiando um ritmo de aproximação e a distância perfeita para ver e fotografar a nova moradora da casa, pendurada nos galhos do brinco-de-princesa, a meio metro do ninho.

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Um passo de cada vez, movimentos mínimos; ela me observando e fugindo, depois ficando por ali um pouco mais; eu recuando e avançando aos poucos, testando a tolerância de Mãe Passarinha.

Horas e horas nessa dança do acasalamento, finalmente ficamos as duas frente a frente, sem que ela fugisse. Ela, observando cada movimento meu. Eu, tentando ser invisível com a porta de vidro entre nós.

Ufa! Agora ela confia (um pouco) em mim!

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Peguei a Nikon e regulei a luz e o zoom. Enrolei e prendi a cortina, arrastei devagarinho móveis e plantas da sala, até conseguir um bom e quieto ponto de observação. E fiquei ali, de tocaia, à espera do momento em que ela saltaria dos galhos do brinco-de-princesa para o ninho, onde havia dois diminutos ovinhos.

Mas a danada não saltou. Ficou de galho em galho no brinco-de-princesa, cantando, chamando por seu parceiro, que só mais tarde apareceu. E eu ali, ridícula, brincando de estátua com a Nikon na mão, o zoom no máximo, trepada na cadeira da sala, de tocaia.

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Uma eternidade se passou, e nada de Mãe Passarinha pular para o ninho e me dar aquela foto. Desisti. Fui até o telefone liguei para Valdete, que estava na Feira dos Goianos comprando presentes.

– Val, adivinha o que aconteceu? A passarinha veio hoje. Ela está bem ali na varanda. E tem dois ovinhos no ninho!

Valdete soltou uma exclamação demorada.

– Ah! Não a-cre-di-to! Mesmo? Dois? Então são duas passarinhas?

– Não, Val, é uma só, mas ela botou dois ovinhos.

– Que coisa! – e pensou um pouco antes de soltar a ordem. – Mas, Anamaria, então não pode sair pra varanda não, senão ela não consegue chocar!

Ok, ok, ordens de Valdete e da natureza se cumprem. Fechei a porta e a cortina, e me recolhi à minha insignificância. Feliz da vida com o presente divino que a natureza me deu nesta véspera de Natal.

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