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Archive for the ‘das lições’ Category

Portrait of Woman, Picasso, 1936

Portrait of Woman, Pablo Picasso, 1936

Você já escorregou num tobogã? Era um dos meus brinquedos preferidos na infância, e foi até a adolescência. Bom, para ser sincera, sincera mesmo, peguei carona na infância do meu filho e continuei escorregando no tobogã da Nicolândia até bem adulta.

A vertigem de deslocar-se tanto, entre céu e terra, em tão poucos segundos me fazia, naquele átimo de tempo, tirar as quatro patas que sempre tive cravadas no chão da realidade. Era um jeito de voar. Mais, de sair do ar. Muito mais que um deslocamento no espaço. Era um deslocamento do “lugar” que eu ocupava no mundo. Naqueles míseros e fantásticos segundos a realidade não existia, tudo ficava em suspenso, tudo podia acontecer.

Naquela época eu ainda não conhecia o tobogã emocional. Ou talvez já conhecesse, mas não tinha tempo para me preocupar com ele. Aqueles momentos – raros – na vida em que descemos do céu ao chão, ou ao inferno, em poucos segundos. Ainda bem que não acontece sempre. Mas acontece.

A gente primeiro fica sem chão. Em queda livre, olha para baixo e só enxerga – enxerga? – um poço escuro e sem fundo. Tenta tatear as paredes, encontrar uma raiz de árvore para se agarrar. Podem se passar horas, dias, anos… e de repente, opa, um galho seco interrompe a queda. Sempre tem um, ou quase sempre. Você respira. Ufa. Olha para cima procurando um rastro de luz para guiar a volta.

Mas a volta é lenta, trabalhosa, e você vai tropeçando em caixas de memórias, fantasmas, retalhos de uma vida inteira, como se todo o seu baú tivesse sido despejado enquanto você caía.

Entre arranhões, você vai escalando o arsenal da sua história. Às vezes precisa mesmo amputar um pedaço, que já nem sabia morto, para passar pelo funil da subida. E também, pelo caminho, recolhe uns retalhos que preferia não ter perdido ou esquecido no fundo do baú. Então você sopra a poeira, encontra um novo lugar para eles, remenda. E vai em frente, à tona, devagar e sempre.

As crises tem isso de bom: a gente se redimensiona.

Dia desses, chuvoso e cinzento por dentro, eu ainda meio tonta da queda, dei de cara com meu baú espalhado na memória do computador. Quase que por inércia, comecei a faxina: poesias numa pasta, outras na lixeira; crônicas aqui, cartas ali, meninices acolá, filosofias bêbadas noutro canto.

No meio de uma antiga correspondência, um trecho de e-mail me deixou atônita. Conferi a data várias vezes. Busquei os originais na caixa de mensagens. Não é possível! Como posso ter escrito isso há tantos anos? Ou melhor: como posso ter esquecido isso por tantos anos? Estava lá, em novembro de 2003, a síntese perfeita, o extrato límpido e depurado do que eu só agora, 12 anos depois, finalmente assumo como a minha bagagem de volta à vida.

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O que me dá prazer de verdade: ter que me superar para enfrentar alguns desafios; descobrir novos lugares e pessoas; conversar com amigos de verdade; dançar quando estou cheia de energia; fazer amor com quem eu amo; ver meu filho virar um homem. E escrever. Sempre, e cada vez mais, sabendo que quanto mais escrevo, mais tenho a escrever, e aprender, e descobrir para ser escrito.

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E pensar que eu poderia seguir pela eternidade sem encontrar esse retalho…

Tem coisas que só mesmo um tobogã.

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– Posso perguntar uma coisa? Como você economiza água na sua casa?

A menina tem uns 9 anos e me aborda com total firmeza na saída do Parque Olhos D’Água, onde eu e Teca acabamos de fazer nosso percurso matinal.

Penso um pouco e, meio envergonhada, conto para ela duas ou três medidas domésticas para evitar o desperdício.

– Mas você não usa um copinho para escovar os dentes? – ela pergunta e ao mesmo tempo me dá uma bronca.

– Não, mas deveria. Vou melhorar nisso. Obrigada pelo toque.

A turma da terceira série da Escola Classe 415 Norte está em passeata em defesa da água, e naquele momento cerca o vendedor de coco, que fica meio atônito com tantos pedidos.

Ainda tentamos entender o que se passa quando somos abordadas com novas perguntas por outra garota, Maia, a idealizadora da campanha. Séria, compenetrada, ela nos conta sobre o que a turma fará com as informações coletadas em suas entrevistas pela rua.

– Vamos fazer um site chamado gotinhafeliz.com.www! – assim mesmo, com os “w” no final.

A professora Nailda pede a Maia para falar sobre o personagem que ela criou. Maia explica e mostra o desenho da Gotinha Feliz no cartaz, uma gota azul com pernas e braços, e com um belo “muque” em sinal de sua força.

– Eu tive a ideia do personagem e da campanha e a turma gostou. Daí a gente começou.

Não resisto e peço para fazer uma foto. A professora, orgulhosa de seus rebentos, tenta reunir a meninada, mas a essa altura está difícil.

Maia consegue juntar alguns colegas com cartazes para o registro. O sol e o céu azul de Brasília fazem a sua parte, e aí está.

Turma da 3a série da Escola Classe 415 Norte em passeata contra o desperdício de água.

Turma da terceira série da Escola Classe 415 Norte em passeata contra o desperdício de água.

Salve Salve, criançada! Salve Salve, professora!

A grande lição tem nome, e se aprende (também) na escola: Cidadania.

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Ódio de classe

Imagem da BBC

Imagem da BBC Brasil

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Inspirada na civilidade e no caráter democrático das manifestações pró-impeachment, pró-ditadura militar e contra-tudo-isso-que-está-aí, confesso: estou com ódio de classe. Da minha classe, a classe média, mediana, medíocre, hipócrita e segregadora. A classe dos que se acham o ó do borogodó.

A cena que azedou de vez meu humor aconteceu hoje logo cedo, na aula de pilates (sim, classe média faz pilates, eu inclusive). O sujeito de uns 50 anos, morador da Asa Norte, chegou comemorando o sucesso da empreitada militar-democrática de ontem. Entusiasmadíssimo.

– Vocês viram que maravilha? Todo mundo na rua contra a Dilma, heim?

Ao que a distinta senhora ao meu lado, que viaja duas vezes por ano para a Europa, emendou:

– Eu fui! Acho isso muito importante, a gente tem que aprender a se expressar.

No que eu concordo com ela, mas preferi não me expressar ali, porque meu sangue já começava a ferver.

O sujeito continuou.

– O único problema foi a falta de estrutura para atender aos manifestantes. Total falta de conhecimento do público alvo! – Ele falava dos vendedores ambulantes. – Imagina que tinha um casal com um isopor enorme perto da gente, e fomos lá ver se eles estavam vendendo água. A mulher respondeu: Não senhor, só temos marmitex.

Uma gargalhada geral ocupou a sala de pilates. Marmitex? Ainda se fosse um food truck, mas mar-mi-tex? Sem noção esses ambulantes, com quem eles pensam que estão lidando?

– Acho que a senhora está na manifestação errada! – foi o que disse o sujeitinho para a vendedora de marmitex.

Fico imaginando o que pode ter passado pela cabeça da pobre vendedora, que acordou cedo, preparou paneladas de comida caseira para faturar algum no domingo de manifestação, e deve ter voltado para casa com o isopor cheio e um prejuízo enorme. Acho que ela nunca tinha visto tanto manifestante de panela cheia, e cheia de alguma coisa tão, mas tãããão sensacional, tão diferenciada que até se achava no direito de zombar do seu marmitex.

Ódio de classe. Da minha.

marmitex

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 manteiga

– O mundo gira e a Lusitana roda!

Donana dava as caras depois de um longo e inexplicado sumiço.

– Mas rodou mesmo essa Lusitana, heim, Donana! Por onde a senhorita andou esse tempo todo?

– Pelaí, milha filha, que o mundo é vasto. Vastíssimo!

Donana adora um superlativo.

– E essa carrinha de quem comeu e gostou?

– Ah, mas gostei muito – ela disse isso e seus olhinhos sapecas brilharam.

– Vai me contar ou não vai?

Ela contou.

Mas antes fez uma rápida viagem ao passado para lembrar três episódios marcantes de sua passagem pelo curso de Cocina em Barcelona – dois retumbantes fracassos e um sucesso ocasional.

– Lembra do molho de tomate com farinha de trigo que ficou uma nhaca? E do tagliatelle assassinado em 90 segundos na água fervente? Pois hoje eu me sinto totalmente redimida. Quatro anos depois!

Continuei não entendendo.

– Detalhes, Donana, por favor.

– Calma, que ainda tem o causo do nhoque. A-que-le que finalmente fez o chefe basco-catalão de meia pataca entender com quem ele estava falando. A-que-le que só saiu per-fei-to porque esta que vos fala não seguiu a receita espanhola. Bah! Como se os espanhóis entendessem alguma coisa de pasta!

A essa altura, minha amiga já começava a se animar. E eu confesso que estava perdida.

– Qual foi mesmo a sua subversão no caso do nhoque, Donana?

– Ah, minha filha, eu fiz o que minha memória italiana mandou: botei uma boa colherada de manteiga na massa.

– Uai, mas na receita espanhola não tinha manteiga?

– Nem ovo! Imagina se podia dar certo.

Eu continuava perdida.

– Mas por que lembrar disso agora, Donana?

– Porque eu fui finalmente salva por um chef italiano.

– Salva? Como assim?

E foi aí que ela começou a contar o causo do Paladar. Ou, melhor dizendo, do Nhoque da Redenção.

Tudo o que Donana precisava era de um chef italiano para consertar a receita que ela havia trazido da Espanha – e provar, com todas as estrelas possíveis, que a sua receita legítima e hereditariamente italiana é que estava certa.

O nome do seu salvador é Salvatore Loi. Foi com ele a primeira oficina de cozinha que Donana fez no fim de semana em São Paulo, no 8º Paladar Estadão, evento que reuniu chefs de todo o Brasil para ensinar alguns truques para leigos, curiosos e profissionais da cozinha.

O chef executou, demonstrou e explicou três receitas de nhoque. E, para felicidade auditiva, olfativa e palatável de minha amiga, todas elas levavam uma boa colherada de… manteiga!

Salvatore Loi_manteiga

– Nenhuma sem manteiga, Donana?

– Nem umazinha!

– E o chef explicou o motivo?

– Ora, e você acha que eu não sei? Sem a gordura da manteiga – ou de uma bela gema de ovo, como a minha mãe sempre fez – como é que os sabores e as texturas da batata, da farinha e do queijo vão se amalgamar em deliciosas bolinhas que deslizam na boca feito néctar dos deuses?

Ok, faz sentido, mas…

– O chef da sua escola lá em Barcelona não sabia disso, Donana?

– Saber ele sabia, mas deve ter esquecido, porque fez uma cara muito estranha quando eu disse que ia colocar manteiga no meu nhoque. Bem diferente da cara de gozo no momento em que ele provou meu nhoque. Aposto que ele lembrou na hora da teoria da gordura emulsionando os sabores! – e minha amiga se abriu numa gargalhada.

Eu bem que pedi, praticamente implorei, mas Donana nada de me dar a receita do nhoque redentor de Salvatore Loi.

– Nem o da Dona Nô?

– Segredo de família.

O jeito vai ser esperar o dia em que Donana resolver deixar a Lusitana rodando sozinha e finalmente botar a mão na massa. Bem lambuzada de manteiga.

Salvatore Loi-nhoque2

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Não me lembro se estávamos em 1997 ou se já tínhamos entrado em 1998, ano em que a direita se reagruparia, como de costume, para evitar a reeleição do petista Cristovam Buarque ao Governo do Distrito Federal. Eu estava à frente da recém-criada coluna Metrópole no Correio Braziliense, uma tentativa de abordar os bastidores da política local em notas curtas, frescas e ácidas, o que deu certo por algum tempo durante a gestão de Ricardo Noblat.

Deputado distrital pelo PP, Luiz Estevão era então o líder da oposição a Cristovam Buarque na Câmara Legislativa do DF. Roriz havia sumido do mapa desde o segundo turno da eleição de 1994 para governador, quando abandonou seu candidato, Valmir Campelo, para facilitar a vitória de Cristovam, na certeza de que voltaria ao governo em 1999 derrotando o próprio Cristovam. Arruda, ex-secretário do metrô, cria transgênica de Roriz e eleito senador em 1994 com o apoio dele, havia rompido com o ex-governador e tentava inventar uma “terceira via” para si mesmo no eterno fla-flu  de vermelhos e azuis da política local. Resumindo, o quadro era o seguinte: Cristovam e Luiz Estevão na frente do palco, sustentando a encenação; Roriz como uma enorme sombra projetada atrás de Estevão; e Arruda no fundo do tablado, procurando uma brechinha para entrar em cena.

Fazia sol naquele final de manhã quando eu saí da redação do Correio rumo à mansão de Luiz Estevão, no Lago Sul. Ia para um almoço, a convite do próprio Estevão, que me traria na bandeja o prato mais disputado no momento: Roriz, em carne e osso, voltando ao primeiro plano da cena depois de um sumiço estratégico. O convite, na verdade, se estendia ao meu editor, que na última hora, por algum motivo que não me lembro, não pode ir. E foi assim que me vi sozinha, na varanda da mansão de Estevão, com dois dos personagens mais repugnantes que o jornalismo já colocou à minha frente.

Naquele momento, porém, eu não tinha a menor ideia do quão disgusting eles ainda se revelariam nos anos seguintes. E talvez por isso eu tenha conseguido manter a elegância e não vomitar na cena seguinte, quando ouvi de Roriz uma das frases mais reveladoras do cruzamento de coronel com senhor de engenho que estava diante de mim.

Portinari_Futebol-em-Brodósqui_1935

“Futebol em Brodósqui”, Portinari, 1935

Passávamos da varanda para a sala de jantar e, ao cruzar a sala de estar, parei para observar a bela coleção de arte ali exposta, quase que totalmente modernista. Por uns minutos, me detive com interesse diante de uma tela de Portinari – se não me falha a memória, “Futebol em Brodósqui”, um retrato da infância pobre do pintor, com crianças jogando bola num campinho de terra vermelha típico daquela região, que por acaso é a minha. Um retrato, mais que da simplicidade, da pobreza.

Percebendo meu interesse pelo quadro, Roriz comentou:

– Sabe, Anamaria, eu quero te dizer uma coisa. Eu gosto muito dos pobres. Tenho muito apreço pelos pobres.

Olhei para ele à espera do que viria.

– É mesmo, governador?

Ele abriu um sorriso quase inocente antes de completar a ideia.

– Verdade, tenho muito apreço. Porque, você veja bem. O que seria de nós sem os pobres? Se eles não existissem, quem cozinharia? Quem limparia nossa casa? Quem trabalharia pra nós? Então… eu gosto muito, aprecio muito os pobres.

E seguiu, sorridente e magnânimo, para ser servido no salão do almoço.

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* A propósito da reportagem de Ana Maria Campos e Helena Mader publicada ontem no Correio Braziliense, sob o título “Luiz Estevão se junta a Joaquim Roriz e Arruda contra o PT nas eleições”, aberta com a seguinte frase de Estevão: “Na política, não existem inimizades incontornáveis, nem amizades definitivas.”

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Carolina

Chico Buarque

Carolina, nos seus olhos fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei que não vai dar, seu pranto não vai nada ajudar
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar

Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo pela janela, ah que lindo
Mas Carolina não viu…
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe,
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar

Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.

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