Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘da simplicidade’ Category

Farofa_talos-005

Toda quarta-feira tem uma feirinha orgânica aqui perto de casa, e também aos sábados. Aproveito para comprar beterraba miúda com a folhagem, dá uma salada maravilhosa com bastante cebola e temperinhos. Mas eu sempre me perguntava o que fazer com os talos vermelhinhos, lindos, da beterraba. E na semana passada resolvi experimentar. Juntei com os talos da couve e fiz uma farofa deliciosa, linda e colorida. Gostamos tanto aqui em casa que resolvi compartilhar com vocês a receita. Para quem não tem intimidade com a cozinha, segue um passo a passo.

Farofa_talos-001

FAROFA DE TALOS DE BETERRABA E COUVE

Ingredientes

  • 1/2 cebola picada em lâminas finas
  • 2 xícaras de talos de couve e beterraba picadinhos
  • 1 colher (sopa) de manteiga de leite
  • 1 xícara de farinha de mandioca ou de milho
  • Sal a gosto

Refogue a cebola na manteiga em uma frigideira ou panela de fundo grosso, em fogo baixo, até dourar a cebola.

Farofa_talos

Junte os talos picadinhos e refogue por três minutos.

Farofa_talos-002

Acrescente 1/2 copo de água, sal a gosto, tampe e deixe cozinhar um pouco. Se necessário, junte mais água.

Farofa_talos-003

Com o refogado ainda molhadinho e os talos crocantes, junte a farinha, misture suavemente, corrija o sal e desligue.

Farofa_talos-004

A farofa está pronta e vai muito bem como acompanhamento de qualquer outra delícia!

Variações: Já fiz esta mesma farofa com talos de beterraba e mostarda e folhas de espinafre rasgadas. Neste caso, o espinafre é adicionado quando os talos já estão cozidos, deixando o refogado apenas mais dois minutos no fogo antes de juntar a farinha. Enfim, aproveite a receita para usar a sua criatividade!

Farofa de espinafre com talos de beterraba e mostarda

Farofa de espinafre com talos de beterraba e mostarda

Read Full Post »

Taipu de Fora, Península de Maraú, Bahia, Brasil

2015/01/img_3677.jpg
Aqui no Brasil Profundo as coisas funcionam de um jeito diferente.
As dificuldades são muitas; as facilidades, imensas.
Vamos aos fatos.
Você precisa comprar um peixe para o jantar de amanhã, e no seu povoado não tem peixaria. Aliás, no seu povoado não tem padaria, não tem açougue e não tem farmácia. Também falta escola e posto de saúde. Tudo isso está no vilarejo do lado, que também carece de asfalto e até de ruas planas e de terra firme, mas tem um pequeno comércio e até uma modesta “broadway” para o “footing” noturno da turma do veraneio.
Então você pega o carro e vai até o vilarejo tentar comprar peixe, tomate, cebola, cheiro verde – opa, cheiro verde não tem, nem pimentão. Bom, se tiver peixe você se vira.
São oito quilômetros de areia solta perdida na buraqueira. Engata uma segunda, passa para a terceira, não, em terceira não dá, volta para a segunda, e vambora.
– Moço, sabe onde fica a peixaria do Rominho?
– Sei sim. Vira na rua do posto, vai até o Coutinho e entra à esquerda – informa o rapaz da banca de frutas e verduras, já na xepa da xepa.
– Tá certo. Obrigada.
– A casa dele é a terceira depois – diz o rapaz.
– Casa? Pra que preciso saber onde ele mora?
– A senhora bate lá que ele abre a peixaria, a essa hora tá fechada.
Verdade. São quase oito da noite e o dia do pescador começou ainda escuro. Mas bater na casa dele a esta hora pra comprar peixe? Onde no mundo? Bom, não temos opção. Vestimos a cara de pau e vamos lá.
Encontramos Rominho, um homem forte de uns 40 e tantos, sentado na varanda, sem camisa, o barrigão reluzindo a sol, tomando a fresca na cadeira de palha. A luz fraca que vem lá de dentro deixa ver a mulher, metade da idade dele, morena bonita, brejeira, vendo tevê na sala.
Por cima da mureta, Rominho convida para entrar, mas preferimos ficar por ali. Ele explica que o dia foi bom, vendeu todo o peixe que tinha, a senhora volte amanhã.
– Vai chegar cedo, pode vir às oito horas.
– Vai chegar o quê?
– Cavala. Muita.
Rominho alisa o barrigão enquanto fazemos as contas: voltar amanhã cedo significa perder a praia; melhor tentar um plano B.
Nos despedimos e pegamos o rumo do mercadinho, que também faz as vezes de peixaria. Damos sorte. O plano B se revela uma bela surpresa.
Já na entrada o rapaz avisa:
– Acabou de chegar peixe, podem ir direto lá pro fundo.
O fundo é um terreiro que fica depois da portinhola no final do mercadinho, um pátio de terra batida, rodeado de árvores e pequenos casebres. Quase todo escuro, lá no fundo brilha a luz forte que vem do galpão onde os pescadores separam os peixes.
A primeira visão é de tirar o fôlego: os rapazes acabam de encher uma caixa enorme de isopor com centenas de lagostas miúdas. Quando chegamos eles ainda estão ajeitando as últimas.
Meus olhos faíscam.
– Lagostas!!!
A única que tive a chance de conhecer ao vivo – e ainda viva – foi a que assassinamos em Llançà, na Costa Brava, ao norte de Barcelona, no verão de 2010. Do mar para a geladeira, para anestesiar a bichinha, depois um golpe certeiro para matar sem dor, e direto pro forno. Tudo obra do Chiquinho, assassinato e tempero, eu ali só de comensal. Meus olhos, pois, são só faísca e felicidade quando dou de cara com aquela montanha de lagostinhas vermelhas e lindas no quintal da peixaria.
Mas nem dá tempo de sonhar. A morena nativa de short e camiseta que vigia de perto as lagostas vai logo avisando com um sorrisão triunfante:
– Nem adianta olhar. Estas aqui já tem dona. Acabei de comprar tudo.
– Mas o que você vai fazer com tanta lagosta?
– Vou cozinhar, ora!
– Mas tudo isso?
Tudo aquilo e mais, se houvesse.
A morena brava e decidida é a Rô, dona do Bar da Rô, restaurante badalado, entre o rio e o mar da Baía de Camamu, onde a galera vai ver o por do sol e comer sua lagosta na manteiga de sálvia com arroz negro.
– Ela é poderosa!, avisa Marina.
Poder assim como o da Rô eu respeito. E já vou tirando o meu time de campo, mas o pescador me apresenta uma outra lagosta. A grande.
– Esta aqui ela não vai levar, a senhora quer?
Me assusto de cara. Um lagostão. Dois quilos e meio. Recém saída do mar, praticamente ainda mexendo as patinhas. Não estava nos planos, mas e daí? Arrematamos na hora. Ainda não sei o que fazer com ela, mas isso é o de menos.

E quanto ao peixe? Bom, o peixe é outra história, vamos a ela.
– Tenho badejo, vermelho e cioba – anuncia Zóião, o negro retinto que parece ser o chefe dos pescadores, depois de serrar nossa lagosta ao meio.
Ele me leva até a geladeira no meio do quintal onde dezenas de peixes ainda pulsam, cobertos de gelo. Escolho um lindo badejo de dois quilos e meio.
Com a destreza de quem manipula o facão há décadas sem deixá-lo cair nos pés mal protegidos pelas havaianas, Zóião parte para limpar e filetear o badejo. E eu reafirmo a minha crença de que nem tudo – ou quase nada – se aprende na escola.
Esqueça tudo o que você já viu e ouviu sobre abrir o peixe pela barriga, tirar a barrigada, dividir ao meio pela espinha, de dentro para fora, e depois retirar a pele para fazer os filés.
Zóião começa pela pele. De fora para dentro. Risca o contorno do badejo com a ponta da faca amoladíssima e vai levantando o couro, milímetro por milímetro, com a ajuda da faca, até a carne daquela metade ficar nua. Solta a carne do espinhaço com toda a delicadeza, a partir das costas, limpa as gordurinhas da barriga e exibe o primeiro filé. Vira o peixe e repete o ritual do outro lado, deixando apenas o cabeção do badejo preso a um espinhaço limpinho, e lá na ponta o rabo. E – o que é mais impressionante! – ele faz tudo isso sem abrir ou sequer perfurar a barrigada do peixe, que permanece intacta! Nada como aprender com quem entende do riscado. A técnica do Zóião é a mais eficiente que já vi no preparo de filé de peixe, sem desperdício, sem sangue e sem sujeira.

Lagosta serrada, badejo no filé, surge a pergunta, abusada:
– Zóião, a gente pode deixar os pescados aqui na sua geladeira e passar mais tarde para pegar? Com esse calorão…
Zóião dá só uma risadinha:
– Pode não. Porque agora eu vou passar uma água, botar uma roupa limpa e sair pra tomar umas cachaças, que ajuda a pegar no sono.
Dificuldade? Muita.
Facilidade? Imensa.

2015/01/img_3650.jpg

Read Full Post »

Eu sei, eu sei: esse papo de ‘gourmet’ já está ficando chatíssimo. É tanto palavrório vão para nomear o básico, tanta glamurização do cozinhar cotidiano que a gente começa a desconfiar até de uma simples receita de legumes ao forno.

Primeiro, preciso avisar: eu sou contra o uso indiscriminado de palavras como gastronomia, gourmet, chef, cozinha de autor, cozinha isso e aquilo. Sou contra a adjetivação exagerada de ingredientes e pratos. Sou to-tal-men-te contra inventar nomes cheios de firulas para preparações mais antigas que nossas avós.

Aprendi com Donana que cozinha se chama cozinha, e não sei-lá-o-quê-gourmet. Quem cozinha é cozinheiro; chef é quem comanda uma brigada de cozinha – e quando eu digo brigada, é brigada mesmo. Aqui em casa, comida se chama comida, tem cara de comida e gosto de comida. E que fique bem claro: não sou contra inovação, sou contra frescura.

Dito isso – e eu prometo não usar na receita qualquer neologismo de ocasião -, é preciso estabelecer a diferença entre uma cozinha com técnica e uma cozinha sem técnica. Via de regra, as receitas que encontramos nos livros e na rede passam de raspão na explicação das técnicas a serem aplicadas, de modo a se obter o melhor dos ingredientes e da combinação deles. Mas é exatamente o emprego da técnica o que diferencia o bom do mau resultado a partir da mesma receita. Donana é categórica – e eu concordo com ela: “Uma boa técnica vale por mil receitas!”

legumes1

A essa altura você está se perguntando: por que diabos esse papo todo?

Explico.

A receita que vai aí embaixo parece absurdamente simples. Tão simples que você vai dizer que nem precisa de receita. E eu digo: o diabo mora nos detalhes.

Os legumes assados são algo que eu faço rotineiramente desde que voltei de Barcelona. Originalmente, os catalães preparam os legumes diretamente na boca do fogão, ou numa grelha sobre brasas, que é como nasceu a escalivada pelas mãos dos camponeses. Quando eu tenho tempo, faço na boca do fogão, mas no dia-a-dia faço como os catalães modernos: forno doméstico em temperatura máxima.

Coloquei a receita no papel a pedido de dois amigos. Um deles me ligou ontem, dizendo que fez tudo direitinho e o resultado ficou ótemo! O outro me ligou hoje para contar que, finalmente, acertou, já na segunda tentativa. Na primeira, ele mudou toda a receita sem qualquer preocupação em respeitar a técnica e a natureza dos ingredientes.

Quando ele me contou, logo depois do fracasso, lembrei de um fotógrafo que dizia: “Leia o manual da câmera, faz bem para as fotos!” Sugeri ao meu amigo, com aquele tom imperativo que aprendi com Donana: siga a receita, ela foi bem pensada!

Ele seguiu. E deu certo.

legumes2

LEGUMES AO FORNO À MODA DE DONANA

Você vai precisar de: forno, tabuleiro e papel alumínio.

  • 1 berinjela grande
  • 1 abobrinha italiana do mesmo tamanho
  • 1 pimentão vermelho ou amarelo grande
  • 1 cebola grande ou 2 pequenas
  • 1 cabeça de alho inteira
  • azeite de oliva extra-virgem
  • sal grosso
  • ramos de alecrim fresco
  • pimenta dedo de moça (opcional)
  • sal refinado para finalizar
  1. Pré-Aqueça o forno na temperatura máxima.
  2. Lave bem a berinjela e a abobrinha. Sem tirar a casca, corte em tiras grossas, de até 1 cm de espessura, no sentido do comprimento. Distribua-as, intercaladas, numa assadeira grande.
  3. Lave o pimentão, tire as sementes e as partes brancas, corte em tiras largas e distribua na forma.
  4. Descasque a cebola sem tirar o pedúnculo, senão ela desmanchará. Corte em quatro ou oito “gomos”, no sentido do comprimento, e distribua na forma.
  5. Limpe a cabeça de alho com papel toalha molhado, sem tirar a casca. Corte uma tampinha na base do pedúnculo, deixando os dentes de alho abertos para receber o azeite. Ajeite a cabeça inteira no centro da forma, cercada
    pelos legumes, e regue com azeite, enchendo bem entre os dentes de alho.
  6. Distribua sobre os legumes a pimenta dedo de moça sem sementes e cortada em tirinhas, uma colher (sopa) de sal grosso e três ou quatro ramos de alecrim fresco. Regue fartamente com azeite e leve ao forno, que deve estar muito quente. Deixe por 30 a 40 minutos, dependendo da potência do forno. Os legumes devem estar quase no ponto, ou seja, al dente.
  7. Retire do forno, separe a cabeça de alho e abafe os legumes por 10 minutos, cobrindo a forma com papel alumínio. Deixe repousar fora do forno.
  8. Enquanto isso, embrulhe o alho em papel alumínio e coloque novamente no forno – já desligado, mas ainda quente. Deixe por 10 minutos, para que termine de cozinhar no calor residual.
  9. Destampe a assadeira, ajeite os legumes numa vasilha, polvilhe sal, se necessário, e um pouco mais de azeite e alecrim fresco. Distribua os dentes de alho inteiros (com ou sem casca) e sirva imediatamente.
  10. Pode ser servido quente ou frio – neste caso, retire da geladeira 10 minutos antes de servir, para o azeite não ficar “cremoso”.
  11. É perfeito para acompanhar grelhados e assados. Também vai bem em um lanche à espanhola, com pão, jamón, azeite e tomates maduros ralados.
  12. Pode ser mantido em geladeira por dois a três dias, em potes herméticos.

DICA TÉCNICA

Para se obter o resultado esperado, é preciso respeitar as técnicas embutidas na receita:

– cortar os legumes em fatias grossas

– assar o alho dentro da casca

– jamais usar sal refinado ou desidratar os legumes antes de assá-los

– jamais cobrir o tabuleiro ou abafar os legumes antes de assá-los

Com atenção à técnica, você terá legumes crocantes, com seu sabor natural preservado e ligeiramente defumados.

Delícia!

Read Full Post »

A primeira vez que comi berinjela recheada foi em Sampa, na Festa de Nossa Senhora Achiropita, padroeira do Bixiga. Meados dos anos 80. Eu tinha uns 18 anos e perambulava por lá com uma turma da UnB. Tínhamos ido para um evento do movimento estudantil e estávamos todos amontoados na casa do tio Waldemar, em colchões espalhados pela sala. Tio Waldemar e Tia Célia, aliás, sempre tiveram as portas abertas para nós e nossas turmas lá no Tatuapé.

Fui guiada pelo cheiro até a barraca da melanzana al forno. Me apaixonei perdidamente. E, já na época curiosa pelos sabores, fiquei tentando entender, pelo paladar, como e com que ingredientes era feita. E é claro que, ao chegar em casa, corri ao fogão.

Durante muitos anos fiz a receita que imaginei ser a original naquela época, recheando as berinjelas com carne moída refogada em temperos, batata amassada e a polpa da própria berinjela. Lembrem-se que na época não havia internet nem google, o jeito era inventar. E deu certo.

Hoje, visitando o site da Festa, descobri que, ao invés de batata, a receita original leva ovos cozidos para dar liga à carne do recheio. E azeitonas. Vou tentar na próxima.

Mas hoje eu queria rechear as mini berinjelas que comprei no Ceasa de um jeito diferente. Bateu saudade dos sabores da Espanha. Pensei em juntar minhas duas cozinhas da memória num só prato.

Eu ainda tinha na geladeira uns cogumelos Paris frescos (também do Ceasa, baratíssimos, um pacotão por 6,99!), um pedaço de queijo de cabra tipo brie (Ceasa!) e filezinhos de anchova em conserva. Tomate, cebola, batata, cheiro verde e azeite… pronto! Vamos ao trabalho.

Aqui elas estão prontas para ir ao forno

Aqui elas estão prontas para ir ao forno

MINI BERINJELAS RECHEADAS DE DONANA

Ingredientes

  • 10 mini berinjelas
  • 1 batata média
  • 4 filezinhos de anchova em conserva
  • 6 cogumelos Paris
  • 1 tomate
  • 1/2 cebola
  • 2 dentes de alho
  • Sal, azeite, salsa e cebolinha
  • 1 pedaço pequeno de queijo de cabra

Preparo

  1. Lavar as berinjelas, partir ao meio no comprimento e colocar em uma panela com água fervente de boca para baixo. Dividir em duas ou três partes de forma a cobrir a superfície da água sem se amontoarem.
  2. Retirar, escorrer numa peneira e retirar cuidadosamente o miolo da berinjela com o auxílio de uma faquinha ou uma colher, sem danificar as cascas. Reservar.
  3. Cozinhar a batata em cubos.
  4. Triturar rapidamente no mixer o miolo da berinjela, a anchovinha e a batata cozida. Ao final, juntar um fio de azeite e provar o sal. Se necessário, ajustar. Reservar.
  5. Limpar os cogumelos, tirar os cabinhos e fatiar. Os pedaços não podem ser grandes.
  6. Cortar o tomate em cubinhos.
  7. Picar a cebola, o alho e os cheiros bem miudinhos.
  8. Refogar a cebola e o alho em azeite até corar. Juntar os cogumelos, saltear rapidamente. Juntar o tomate e temperar com sal e cheiro verde. Cozinhar em fogo alto, mexendo, até amolecer o tomate. Reservar.

Montagem

  • Ajeitar as berinjelas numa forma em que não sobre espaço.
  • Distribuir o creme do recheio sem encher totalmente as berinjelas.
  • Completar o recheio com o salteado de tomates e cogumelos.
  • Distribuir pedacinhos de queijo de cabra sobre as berinjelas.
  • Regar com azeite e levar ao forno quente por 15 minutos.

.

Confesso que ainda não provei o resultado: elas serão assadas para o almoço de amanhã 😉

Mas eu volto para contar.

 

Read Full Post »

Último sábado antes do Natal, acordei pensando nos presentes que faltava comprar. Meio sonolenta, ainda de camisola, eu me arrastava até a cozinha, para passar o café e aquela tapioquinha matinal, quando ouvi um canto suave de passarinho. Tão perto, mas tão perto que parecia estar dentro de casa.

Tirei os chinelos e fui em passo de índio, leve e silencioso, até a varanda. Mal botei a cara pela fresta da porta de vidro e ela saiu voando. A Mãe Passarinha.

Fotos Anamaria Rossi

Fotos Anamaria Rossi

O ninho estava lá há três ou quatro dias, diminuto, de uma delicadeza absoluta, se equilibrando entre os galhos finos de um pequeno arbusto no canto da varanda. Foi ali, na mais antiga e resistente das plantas da nossa casa, que ela encontrou seu cantinho para dar à luz.

Foi Valdete quem me mostrou dia desses, olhinhos acesos.

– Óia! Vem ver, Anamaria! Vem ver o que tem aqui!

E em seguida me deu ordens expressas para não ficar saindo toda hora para a varanda, senão atrapalhava a passarinha.

Mas a passarinha mesmo só Valdete tinha visto, ela nunca dava o ar da graça quando eu estava em casa. E hoje não foi ela quem deu, fui eu – e acabei assustando a bichinha.

Mas não há nada que uma boa corte não resolva. Passei a manhã toda ensaiando um ritmo de aproximação e a distância perfeita para ver e fotografar a nova moradora da casa, pendurada nos galhos do brinco-de-princesa, a meio metro do ninho.

ninhofb1

Um passo de cada vez, movimentos mínimos; ela me observando e fugindo, depois ficando por ali um pouco mais; eu recuando e avançando aos poucos, testando a tolerância de Mãe Passarinha.

Horas e horas nessa dança do acasalamento, finalmente ficamos as duas frente a frente, sem que ela fugisse. Ela, observando cada movimento meu. Eu, tentando ser invisível com a porta de vidro entre nós.

Ufa! Agora ela confia (um pouco) em mim!

maepassarinha2

Peguei a Nikon e regulei a luz e o zoom. Enrolei e prendi a cortina, arrastei devagarinho móveis e plantas da sala, até conseguir um bom e quieto ponto de observação. E fiquei ali, de tocaia, à espera do momento em que ela saltaria dos galhos do brinco-de-princesa para o ninho, onde havia dois diminutos ovinhos.

Mas a danada não saltou. Ficou de galho em galho no brinco-de-princesa, cantando, chamando por seu parceiro, que só mais tarde apareceu. E eu ali, ridícula, brincando de estátua com a Nikon na mão, o zoom no máximo, trepada na cadeira da sala, de tocaia.

ninho

Uma eternidade se passou, e nada de Mãe Passarinha pular para o ninho e me dar aquela foto. Desisti. Fui até o telefone liguei para Valdete, que estava na Feira dos Goianos comprando presentes.

– Val, adivinha o que aconteceu? A passarinha veio hoje. Ela está bem ali na varanda. E tem dois ovinhos no ninho!

Valdete soltou uma exclamação demorada.

– Ah! Não a-cre-di-to! Mesmo? Dois? Então são duas passarinhas?

– Não, Val, é uma só, mas ela botou dois ovinhos.

– Que coisa! – e pensou um pouco antes de soltar a ordem. – Mas, Anamaria, então não pode sair pra varanda não, senão ela não consegue chocar!

Ok, ok, ordens de Valdete e da natureza se cumprem. Fechei a porta e a cortina, e me recolhi à minha insignificância. Feliz da vida com o presente divino que a natureza me deu nesta véspera de Natal.

ninhofb2

Read Full Post »

RI-RI-004

Domingo bom é domingo com amigos. E foi só por isso que Donana não brigou quando Andréa a acordou às 8h30 da manhã com um torpedo convidando para a caminhada.

– São 8h30, mujer! Dá para esperar eu acordar? Além do mais, eu estou com o pé torcido!

Quem conhece Donana sabe que isso é uma bronca leve, grau 4 na escala Richter. Andréa, sabendo que tinha escapado de uma verdadeira explosão de fúria, respondeu com um singelo “rs…” e só apareceu às 11h, anunciando:

– Produçãããão!

RI-RI-005

Saiu dali uma hora depois, com o peixe temperado, a mandioca descascada e a salada pron-ti-nha. Mas não sem antes tentar mudar a receita da tradicional Salada Caprese de Donana:

– Acho que eu vou deixar as endívias numa travessa e o resto na outra.

Minha amiga, com toda a paciência que tem adquirido no divã, pegou uma barquinha de endívia, colocou duas metades de tomatinho, dois pedacinhos de queijo de cabra e umas folhinhas de manjericão. Polvilhou sal e regou com azeite antes de meter a barquinha goela abaixo da abusada. E de ouvir um “huuummm…”

– Entendeu agora???

O argumento palatável foi tão convincente que Andréa logo pegou a travessa e começou a montar as barquinhas. Pena que ela não ficou para o que seria a verdadeira experiência do dia.

RI-RI-006

A história começa umas semanas antes, com Kakau oferecendo um pacu que tinha chegado do Mato Grosso do Sul. Adriana, que adora uma novidade, correu ao Google em busca de um acompanhamento original. Encontrou. O ri-ri.

Pero que conho é ri-ri? – Donana, relutante, admitiu sua ignorância.

Ninguém sabia direito, e foi o Google quem salvou minha amiga. No dia seguinte ela já sabia que era uma trouxinha de massa de mandioca cozida na folha de bananeira, com variações mil e até uma receita totalmente desfigurada no site da Ana Maria Braga.

– Ora essa! Os índios criam uma iguaria e a metida da Ana Maria Braga muda tudo e mete um caldo knorr? Nem pensar!!!

RI-RI-001

Quando Kakau e Adriana chegam a mandioca já está prontinha para ser ralada e espremida. Ralo fino, espreme, espreme, separa o leite e tempera com pouco sal e uma colher de manteiga derretida (a receita original não tem sal nem manteiga, é só mandioca mesmo).

O leite, decantado e escorrido, deixa na vasilha a goma que depois vai virar uma bela tapioca. Mas o que importa aqui é o ri-ri, então a essa altura Donana e suas ajudantes já estão lavando e cortando as folhas de bananeira, que serão escaldadas no caldo de legumes na-tu-ral onde já foram cozidas as bananas da terra.

RI-RI-002

Em formação de brigada, Donana vai escaldando os quadradinhos de folha de bananeira e enrolando as porções de massa que Kakau boleia como se manipular a mandioca estivesse em seu DNA. Adriana finaliza com delicados lacinhos de barbante.

– Isso é ri-ri de menina!

RI-RI

A essa altura Sérgio já chegou, mas está mais interessado em ler os jornais do dia que em cortar barbante ou encher os copos das meninas. No máximo, como não havia outro braço masculino no recinto, ele ajuda a espremer a massa de mandioca.

Hombres! Bahhh!!!

ririri

Mesa posta, é hora de levar as costelas de pacu ao forno e cozinhar os ri-ris no caldo fervente, o que demora uns 30 minutos mais ou menos.

RI-RI-003

Na hora de servir, vai bem um pratinho extra para colocar as cascas de banana, barbantes e folhas de bananeira – nada que incomode em um almoço legitimamente mato-grossense e no melhor estilo rústico. Para acompanhar, uma tigelinha de chips de banana diretamente da feira do Ceasa. E um vinho branco geladíssimo, que ninguém é de ferro.

Voilà!

RI-RI-007

PS: Cynara pediu, e perguntei a Donana como ela preparou o pacu.

– Temperinho básico. Uma marinada de duas horas com uma picada bem brasileira. Meia hora de forno quente, sobre folhas de bananeira, e direto para a mesa.

– Donana, porfa, explica aos brasileiros o que é uma picada.

– É uma mistura de temperos feita no mortero (traduzindo: pilão). Amassei sementes de coentro, juntei salsa e cebolinha bem picadinhas, pimentas biquinho, dedo-de-moça e jalapenha, sal, pimenta do reino moída na hora, azeite e suco de dois limões.

– Quanta pimenta, Donana!

– Ah, mas eu tirei as sementes, minha filha, porque picada que pica é só na casa da Cynara!

Read Full Post »

20130710-223951.jpg

A homenageada

.

Caldinho de bobó de camarão

.
Receita de Donana para Solange

 

Ingredientes

  • 3 xícaras de mandioca picada, cozida e limpa, e a água do cozimento
  • 40 camarões grandes, frescos e com casca
  • 3 tomates maduros ou 1/2 xícara de polpa de tomate
  • Azeite
  • 2 colheres (sopa) de manteiga
  • 1 vidro pequeno de leite de coco
  • Sal
  • Cheiro verde (cebolinha, salsa, coentro…)
  • Pimenta calabresa
  • Pimenta do reino moída na hora
  • 1 cebola
  • 5 dentes de alho
  • 1/4 de pimentão vermelho (opcional)

.

Modo de fazer

Limpar os camarões e colocá-los em um prato cobertos com azeite, sem temperá-los. Cobrir com filme e reservar. Reservar as cascas e cabeças para o caldo.

Em uma panelinha, refogar as cascas e cabeças do camarão em 2 colheres de azeite até soltar o aroma. Cobrir com água e levar à fervura. Desligar o fogo e abafar. Depois de 5 minutos, coar e reservar.

Em uma panela grossa, refogar na manteiga a cebola e 4 dentes de alho picadinhos, em fogo baixo, mexendo, até amolecer, sem deixar escurecer.

Bater no liquidificador: a mandioca, sua água, o refogado de cebola e alho e o caldo de camarão. Voltar tudo à panela e temperar com sal, um fio de azeite e uma pitada de pimenta calabresa. Levar à fervura, retirar a espuma com escumadeira, juntar o leite de coco, baixar o fogo e cozinhar até chegar à consistência desejada, adicionando água morna quando necessário. O caldo não deve ficar ralo nem chegar a ser um creme espesso.

Enquanto o caldo chega ao ponto, prepare os camarões.

Leve ao fogo alto uma frigideira anti-aderente na qual esfregou um dente de alho aberto ao meio. Deixe-a aquecer muito bem. Ajeite na frigideira já muito quente os camarões besuntados em azeite. Depois de dois minutos, vire-os e polvilhe sal e pimenta do reino moída na hora. Deixe mais dois minutos no fogo até selar o outro lado, depois salteie os camarões por mais um ou dois minutos. Retire os camarões e reserve-os em uma vasilha que os mantenha aquecidos por alguns minutos, no próprio fogão.

Na frigideira, ainda em fogo alto, despeje o tomate picado (sem pele e sem sementes) ou a polpa de tomate. Junte o pimentão picadinho (opcional). Raspe o fundo da frigideira com uma colher de pau para recuperar o sabor do camarão, e vá adicionando água quente aos poucos. Tempere com sal, cheiro verde e uma pitada de pimenta calabresa. Cozinhe, mexendo, até engrossar.

Coloque os camarões de volta na frigideira, misturando-os ao molho grosso. Desligue o fogo e reserve.

Sirva o caldo em pratos fundos ou cumbucas, decorando com camarões e molho (dez camarões grandes para cada 2 conchas de caldo). Vai bem com uma cervejinha gelada.

Voilà!

20130710-224430.jpg

Donana por Solange

Read Full Post »

Older Posts »