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Archive for the ‘da estrada’ Category

Foto: Anamaria Rossi

Uma porta para o infinito (Miradoiro da Peneda, Galícia, Espanha). Foto: Anamaria Rossi

Tem gente que viaja para fazer compras, outros para se divertir loucamente, visitar amigos, conhecer novos lugares, provar novas comidas, e outros ainda para colecionar fotos e carimbos no passaporte.

Eu viajo para ser livre.

Ser livre para mim é poder ser quem eu quiser, ser tudo o que sou e até o que não sou. Sem nenhum olhar condenatório ou ameaçador. E a melhor maneira que encontrei para experimentar esta liberdade, a liberdade que eu preciso e quero, foi viajando.

Viajar é um jeito de ser estrangeiro mesmo em seu próprio país. Melhor ainda – para os efeitos em questão – se for em outro país, porque aí você será estrangeiro de fato, não apenas simbólico. Ser estrangeiro é ser estranho à rotina, à cultura, ao jeito de pensar, agir e – sobretudo – julgar daquele povo. É não conhecer nem se filiar por obrigação aos seus valores morais, à sua visão de mundo, aos seus códigos, mas ir entendendo e aderindo a tais códigos na medida em que eles fazem sentido pra você.

O estrangeiro quase sempre tem passe livre para ser “estranho”, diferente, exótico. Pode experimentar ser o que quiser sem que isso choque ou desaponte a vizinhança. Pode pensar diferente, vestir-se diferente, ser mais atirado ou mais calado, ninguém vai lhe condenar. Do estrangeiro, só o que se espera é que ele seja diferente, que surpreenda, que traga um novo olhar. Nada das expectativas dirigidas aos nascidos e criados ali. Tudo o que um estrangeiro precisa fazer é… ser estrangeiro – e nisso reside sua liberdade. Também mora aí o perigo da solidão, mas este é o preço a pagar, e às vezes nem é tão alto quanto a solidão e outros tributos que pagamos por conduzir nossas vidas de forma a caber no quadrado que nos foi desenhado.

Para quem viaja assim, o mundo é redondo. E vai ficando cada vez menor. A cada dia você pode encontrar, em qualquer lugar, mais e mais gente da sua tribo de estrangeiros soltos no mundo. É quase um mundo paralelo o desta tribo.

Eu me encontro nela. É a minha tribo.

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Fotos: Anamaria Rossi

Carrer de la Montcada, Passeig del Born e Carrer de la Vidrieria – Fotos: Anamaria Rossi

Barcelona é um pouco como eu, demora a se revelar aos olhos forasteiros. Demora mais ainda a se entregar. E um belo dia, quando menos se espera, ela se abre em sol, flores, amores e alamedas verdejantes para você. Se revela nas mínimas nuances. Se desnuda sem pudores. Se entrega de corpo e alma. De repente, ela é sua, toda sua.

Faz um mês que nos reencontramos, depois de quase cinco anos fingindo que não estávamos nem aí uma para a outra. Um mês de idas e vindas, piscadelas diurnas e vadiagens noturnas, trabalho pesado, batendo em pedra dura, mergulhando em água fria, capinando uma nova trilha para entrar no coração da cidade.

A dois dias da minha partida, quando eu, exausta, já mirava em outras direções, Barcelona se insinuou num sorriso, sol a pino e flores na janela, peraí Ana, fica mais um pouquinho…

Plaza del Pi

Plaza del Pi, Bairro Gótico

Com meus sapatos vermelhos e um decote nada discreto, saí então pela cidade, caminhante sedutora, na esperança de resgatar o que ela ainda ocultava de mim. Deslizei suave por ruas e ruelas, ramblas, avenidas, túneis de metrô, praças, vagões, igrejas, sentindo cada batida do coração barcelonês, medindo a temperatura das ruas, mergulhando nos olhares, viajando nas portas e paredes grafitadas, sorvendo o pólen e a fumaça, fundindo meus pés ao chão de pedras sujas. Um reencontro desses demorados, cheio de preliminares, chamegos e beijinhos no pescoço.

Pátio no Bairro Gótico

Pátio no Bairro Gótico

Como em todas as histórias de amor, mudamos um pouco, eu e ela – e como é bom saber que, mesmo diferentes, ainda podemos ser amantes!

Da varanda do meu antigo apartamento, ela me seduz com flores vermelhas em vasinhos de barro. Já não se vê, dali, a loja de chocolates que tanta alegria e prazer me proporcionou, mas se eu olhar para a esquerda posso ver aquele guapo portenho que antes me servia Fernet no café El Born, e agora é o novo dono do bar de coquetéis no térreo.

Caminho pelo Passeig del Born e o café ainda está lá, encantadoramente demodê e jovial, com o mesmo balcão instalado sobre os compartimentos onde os antigos donos salgavam bacalhau para o armazém de secos e molhados.

Santa María del Mar

Catedral de Santa María del Mar, Born

É reconfortante ver que algumas coisas ainda estão em seus lugares. Como a imagem iluminada de Santa Maria Del Mar, a virgem que dá nome à catedral não oficial cidade, construída pedra por pedra pelas levas de artesãos que dão nome às ruas do Born – Carrer de la Vidrieria, de la Formatgeria, de la Argenteria… História, aliás, contada num livro de tirar o fôlego, A Catedral do Mar (Ildefonso Falcones), e cuja magia tão particular atrai devotos e curiosos do mundo todo.

Olhando assim de supetão, tem muita coisa no mesmo lugar… A agitada xampanyeria da rua Montcada (e o Museu Picasso logo adiante), a colorida lojinha de câmeras lomo, o arco sob o qual o imigrante africano desenhava suas casas de sonho, a pracinha onde me deixei embriagar de vermut por um catalão.

Mercado de la Boquería

Mercado de la Boquería

Desapareceram as estátuas humanas das Ramblas, mas as bancas de suvenirs continuam lá, e também o meu preferido de todos os tempos, o Mercado da Boquería, com as mesmas lojas que me seduzem desde sempre com seu sortimento de cores, aromas, sabores.

Os grafitis, ah, os grafitis! Estes sim mudam, mas continuam ali, contando a história que os livros não contam, revelando detalhes lúdicos e sórdidos da alma da cidade e de quem a habita. Quanto saberiam de Barcelona os turistas se parassem para “ler” os grafitis!

Bairro Gótico

Bairro Gótico

Se já é sedutora no resto do ano, Barcelona na Primavera é absolutamente irresistível. A começar pelas frutas vermelhas e carnudas se oferecendo em todas as esquinas – cerejas, framboesas, mirtilos, morangos. Sem falar nas floridas alcachofras, nos suculentos aspargos, no pão sempre quentinho e crocante nas vitrines das forns de pá, nos queijos que se multiplicam em tons, odores e sabores, nos embutidos – ah!, toda uma enciclopédia erótica de embutidos se descortinando a seus olhos…

embutidos

E como se não bastasse seu já conhecido poder de sedução, Barcelona agora me envolve em uma nova teia…

Novos lugares onde desenho meus pés no mapa da cidade…

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Novos rostos, vozes e mãos a imprimirem em mim sua ternura…

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Taller de Tapioca e Pão de Queijo na casa da Patu – Foto: Ieri

Vinhos que eu não conhecia (e são tantos…); a noite, a rua, a vida pulsando em infinitas possibilidades.

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Selfie com Anna e Olga

E foi assim, entre aquele antigo e macio lençol de algodão e um novo jeito de cheirar meu cangote, que Barcelona me reconquistou. Numa tarde de sol de Primavera, com seu impulso de vida, me atirou pelo ar rodeada de florzinhas miúdas, me fez ver estrelas onde antes só a noite escura, me esquentou por dentro. Me acendeu.

– E agora, Barcelona? O que eu faço com tudo isso?

Ela me responde: Não tenho a menor idéia!

Eu tenho. Algumas.

Conto depois.

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Um porto é um porto é um porto é um porto.

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Eu sou o tipo de pessoa capaz de encontrar a felicidade em um prato de comida. Hoje ela estava escondida na paella especial do Envalira, um restaurante pequeno, familiar e nada turístico em Grácia. Os melhores arroces de Barcelona. Só tem três. Já provei dois. De joelhos.

Não sei se o vinho me ajuda a falar melhor o espanhol, ou se ele apenas me faz acreditar que estou falando melhor. Só sei que, na hora de pedir a sobremesa, duas taças de Albarinho después, eu falei com o garçon com a intimidade de quem nasceu trocando o v pelo b e assobiando nos esses e zês.

Vantagens do vinho sobre a maconha:

– Faz levitar sem paranóia

– É legal

– Não dá larica

Vantagem da maconha sobre o vinho: só uma: não dá ressaca.

A felicidade pode custar apenas 30,58 euros.

O que falta na minha vida é…

…vinho.

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Taipu de Fora, Península de Maraú, Bahia, Brasil

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Aqui no Brasil Profundo as coisas funcionam de um jeito diferente.
As dificuldades são muitas; as facilidades, imensas.
Vamos aos fatos.
Você precisa comprar um peixe para o jantar de amanhã, e no seu povoado não tem peixaria. Aliás, no seu povoado não tem padaria, não tem açougue e não tem farmácia. Também falta escola e posto de saúde. Tudo isso está no vilarejo do lado, que também carece de asfalto e até de ruas planas e de terra firme, mas tem um pequeno comércio e até uma modesta “broadway” para o “footing” noturno da turma do veraneio.
Então você pega o carro e vai até o vilarejo tentar comprar peixe, tomate, cebola, cheiro verde – opa, cheiro verde não tem, nem pimentão. Bom, se tiver peixe você se vira.
São oito quilômetros de areia solta perdida na buraqueira. Engata uma segunda, passa para a terceira, não, em terceira não dá, volta para a segunda, e vambora.
– Moço, sabe onde fica a peixaria do Rominho?
– Sei sim. Vira na rua do posto, vai até o Coutinho e entra à esquerda – informa o rapaz da banca de frutas e verduras, já na xepa da xepa.
– Tá certo. Obrigada.
– A casa dele é a terceira depois – diz o rapaz.
– Casa? Pra que preciso saber onde ele mora?
– A senhora bate lá que ele abre a peixaria, a essa hora tá fechada.
Verdade. São quase oito da noite e o dia do pescador começou ainda escuro. Mas bater na casa dele a esta hora pra comprar peixe? Onde no mundo? Bom, não temos opção. Vestimos a cara de pau e vamos lá.
Encontramos Rominho, um homem forte de uns 40 e tantos, sentado na varanda, sem camisa, o barrigão reluzindo a sol, tomando a fresca na cadeira de palha. A luz fraca que vem lá de dentro deixa ver a mulher, metade da idade dele, morena bonita, brejeira, vendo tevê na sala.
Por cima da mureta, Rominho convida para entrar, mas preferimos ficar por ali. Ele explica que o dia foi bom, vendeu todo o peixe que tinha, a senhora volte amanhã.
– Vai chegar cedo, pode vir às oito horas.
– Vai chegar o quê?
– Cavala. Muita.
Rominho alisa o barrigão enquanto fazemos as contas: voltar amanhã cedo significa perder a praia; melhor tentar um plano B.
Nos despedimos e pegamos o rumo do mercadinho, que também faz as vezes de peixaria. Damos sorte. O plano B se revela uma bela surpresa.
Já na entrada o rapaz avisa:
– Acabou de chegar peixe, podem ir direto lá pro fundo.
O fundo é um terreiro que fica depois da portinhola no final do mercadinho, um pátio de terra batida, rodeado de árvores e pequenos casebres. Quase todo escuro, lá no fundo brilha a luz forte que vem do galpão onde os pescadores separam os peixes.
A primeira visão é de tirar o fôlego: os rapazes acabam de encher uma caixa enorme de isopor com centenas de lagostas miúdas. Quando chegamos eles ainda estão ajeitando as últimas.
Meus olhos faíscam.
– Lagostas!!!
A única que tive a chance de conhecer ao vivo – e ainda viva – foi a que assassinamos em Llançà, na Costa Brava, ao norte de Barcelona, no verão de 2010. Do mar para a geladeira, para anestesiar a bichinha, depois um golpe certeiro para matar sem dor, e direto pro forno. Tudo obra do Chiquinho, assassinato e tempero, eu ali só de comensal. Meus olhos, pois, são só faísca e felicidade quando dou de cara com aquela montanha de lagostinhas vermelhas e lindas no quintal da peixaria.
Mas nem dá tempo de sonhar. A morena nativa de short e camiseta que vigia de perto as lagostas vai logo avisando com um sorrisão triunfante:
– Nem adianta olhar. Estas aqui já tem dona. Acabei de comprar tudo.
– Mas o que você vai fazer com tanta lagosta?
– Vou cozinhar, ora!
– Mas tudo isso?
Tudo aquilo e mais, se houvesse.
A morena brava e decidida é a Rô, dona do Bar da Rô, restaurante badalado, entre o rio e o mar da Baía de Camamu, onde a galera vai ver o por do sol e comer sua lagosta na manteiga de sálvia com arroz negro.
– Ela é poderosa!, avisa Marina.
Poder assim como o da Rô eu respeito. E já vou tirando o meu time de campo, mas o pescador me apresenta uma outra lagosta. A grande.
– Esta aqui ela não vai levar, a senhora quer?
Me assusto de cara. Um lagostão. Dois quilos e meio. Recém saída do mar, praticamente ainda mexendo as patinhas. Não estava nos planos, mas e daí? Arrematamos na hora. Ainda não sei o que fazer com ela, mas isso é o de menos.

E quanto ao peixe? Bom, o peixe é outra história, vamos a ela.
– Tenho badejo, vermelho e cioba – anuncia Zóião, o negro retinto que parece ser o chefe dos pescadores, depois de serrar nossa lagosta ao meio.
Ele me leva até a geladeira no meio do quintal onde dezenas de peixes ainda pulsam, cobertos de gelo. Escolho um lindo badejo de dois quilos e meio.
Com a destreza de quem manipula o facão há décadas sem deixá-lo cair nos pés mal protegidos pelas havaianas, Zóião parte para limpar e filetear o badejo. E eu reafirmo a minha crença de que nem tudo – ou quase nada – se aprende na escola.
Esqueça tudo o que você já viu e ouviu sobre abrir o peixe pela barriga, tirar a barrigada, dividir ao meio pela espinha, de dentro para fora, e depois retirar a pele para fazer os filés.
Zóião começa pela pele. De fora para dentro. Risca o contorno do badejo com a ponta da faca amoladíssima e vai levantando o couro, milímetro por milímetro, com a ajuda da faca, até a carne daquela metade ficar nua. Solta a carne do espinhaço com toda a delicadeza, a partir das costas, limpa as gordurinhas da barriga e exibe o primeiro filé. Vira o peixe e repete o ritual do outro lado, deixando apenas o cabeção do badejo preso a um espinhaço limpinho, e lá na ponta o rabo. E – o que é mais impressionante! – ele faz tudo isso sem abrir ou sequer perfurar a barrigada do peixe, que permanece intacta! Nada como aprender com quem entende do riscado. A técnica do Zóião é a mais eficiente que já vi no preparo de filé de peixe, sem desperdício, sem sangue e sem sujeira.

Lagosta serrada, badejo no filé, surge a pergunta, abusada:
– Zóião, a gente pode deixar os pescados aqui na sua geladeira e passar mais tarde para pegar? Com esse calorão…
Zóião dá só uma risadinha:
– Pode não. Porque agora eu vou passar uma água, botar uma roupa limpa e sair pra tomar umas cachaças, que ajuda a pegar no sono.
Dificuldade? Muita.
Facilidade? Imensa.

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Jorge Amado por Otto Stupakoff, Salvador, 1978

Estávamos em julho de 1996 e fazia frio em Salvador. Eu e meu companheiro de viagem, o fotógrafo Carlos Moura, vínhamos de uma semana no Quilombo do Rio das Rãs, um afluente do São Francisco na vizinhança de Bom Jesus da Lapa. O combinado era isso: uma semana no Quilombo, onde Carlos continuaria sua cruzada de documentação fotográfica das comunidades quilombolas pelo País; e depois uma semana em Salvador, batendo perna e lavando corpo e alma da poeira da estrada, que estávamos de férias e ninguém é de ferro.

A parte da lavagem do corpo, confesso, ficou um tanto sacrificada, pelo menos no que diz respeito à água do mar. O céu cinzento e a temperatura abaixo dos 22 graus não nos animavam a explorar o litoral. Daí que, entre uma visita rápida a Arembepe e outra mais rápida ainda à Praia do Forte, acabamos numa manhã sem sol no Pelourinho, e quando nos demos conta estávamos em frente à Fundação Casa de Jorge Amado, no Largo do Pelô.

Jornalista é assim, sai de férias sem muitos planos, à espera do que possa acontecer – e sempre acontece. Novidade é pasto quando se anda de olhos abertos.

Foi assim que aconteceu. Lá de dentro do casarão, uma folia colorida nos chamava. Entramos. E fomos logo subindo a escadaria, seguindo a pequena multidão que se formava em fila. Carlos com sua câmera, eu com minha cara de pau, entramos na festa como se convidados fôssemos, e logo entendemos quem era a anfitriã. Zélia Gattai autografava um livro.

À janela, sentado no peitoril com uma camisa branca de linho semelhante a uma guayabera cubana, Jorge Amado contemplava o Largo e apertava as mãos dos que vinham cumprimentá-lo, mantendo-se humildemente no lugar de coadjuvante que lhe cabia na festa.

Driblando uma timidez que eu nem sabia que tinha, fui até ele. Esperei que voltasse os olhos para dentro da sala, interrompendo sua viagem contemplativa. Pedi licença meio desajeitada, estendendo a mão.

– Eu só queria lhe dizer que adoro seus livros, venho devorando todos desde menina.

Ele pegou minha mão, abriu um sorriso e a beijou como um legítimo cavalheiro.

– Mas você ainda é uma menina!

Baixei a cabeça para esconder o rubor que me levou de volta à adolescência. Olhei para os lados e vi Carlos, perplexo, contemplando a cena. Saí de fininho sem ao menos descobrir qual era o livro que Zélia autografava. Só muito depois, lá fora, recuperado o fôlego, é que atinei: por que diabos Carlos não fotografou a cena???

Não precisava. Como a menina que ainda trago, ela não sai de mim nunca mais.

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No café da manhã do hotel, procuro uma mesa colada na janela de vidro. Quero degustar meu pãozinho de cereais olhando para o mar.
O garçon corta meu barato com um sorrisão:
– Essas daqui são mais disputadas que ingresso pro Maracanã!
É verdade. Estão todas ocupadas. A que eu mirava parecia vazia, mas logo chega um negão de responsa com o pratinho cheio de pães & guloseimas. Tinha ido reabastecer. Está sozinho na mesa para quatro, mas nem te ligo.
Me acomodo numa mesinha discreta na segunda fileira, dá até para ver uma nesga de mar se eu insistir por entre as cabeças dos jovens executivos de Hong Kong que, em trajes de sábado, curtem uma boa ressaca comendo potes de arroz empapado com shoyu e pepinos.
Na primeira fileira o negão se levanta para o terceiro round, sem se importar com o abdômem que distorce a língua dos Rolling Stones estampada na camiseta. A mesa, vazia, atrai um argentino miúdo de rabo de cavalo e olhos azuis, que rapidamente se posiciona na janelinha com uma xícara de café e uma media luna.
Distraído com a paisagem ensolarada do outro lado do vidro, o rapaz leva um choque – pesado – de realidade quando nosso Fat Black Stone desaba na cadeira ao lado, depositando seu estoque renovado de carboidratos sobre a mesa.
Sem olhar para o lado, o argentino se mexe desconfortável no pequeno espaço que lhe sobrou entre o vizinho e a janela.
Opa, penso eu na segunda fileira, isso vai dar merda. O garçon deve estar pensando a mesma coisa, pois o sorrisão foi substituído por um olhar apreensivo. Está começando a ficar divertido este breakfast.
Na primeira fila, nosso pequeno che e seu vizinho volumoso agem como se o outro não existisse. Um encolhido, olhando o mar; outro esparramado, devorando um bolo de cenoura. Até que, finda sua xícara de café, o rapaz do rabo de cavalo dá uma espreitada ao redor, certifica-se de que ninguém está olhando, afasta a cadeira com cuidado e sai com passos leves pelas costas do nosso Stone Distorcido como se ele nunca tivesse estado ali.
Espero cinco segundos e dou uma olhadinha geral pelo restaurante em busca do amigo Che. Nem sinal. Desapareceu feito fumaça. À minha frente, Big Black devora impassível uma media luna lambuzada de geleia.

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Foto Anamaria Rossi

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Náufrago de terras secas

sobrevivo com sede

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