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Archive for the ‘dos múltiplos’ Category

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Para uma pessoa que gosta de viver perigosamente, como eu, uma campanha eleitoral – sobretudo uma disputa acirrada e cheia de altos e baixos – tem uma série de efeitos colaterais para além das emoções da campanha em si.
Um deles é entorpecer temporariamente os sentidos para quaisquer outras grandes questões de natureza pessoal capazes de mobilizar a mente, o coração ou a alma dessa criatura, ocupados que estão com a disputa.
É como se uma grande e densa nuvem estacionasse diante do Sol que ilumina suas carências, desejos, ilusões, temores. Magnetizado pela nuvem que sabe transitória, o sujeito se entrega, então, ao obscurecimento, quase como quem toma um porre para esquecer uma desilusão. Sabe que, amanhã ou depois, a grande nuvem será levada pelo vento das urnas e, passada a ressaca da vitória ou da derrota, o Sol voltará a reinar, impiedoso, sobre suas misérias.
Mas nada disso é escolha. Nem a nuvem, nem o Sol. Vença ou seja derrotado, uma se vai, o outro vem. Resolvidas – ou não – as grandes questões da Humanidade e da Pátria que estão em suas mãos, a miséria ou esplendor daquela criatura irremediavelmente só sobre a Terra voltará a resplandecer sobre tudo e sobre todos.
É assim que eu me encontro, ainda de ressaca, depois da contagem dos votos: com um sol imenso sobre minha cabeça, jogando sua luz impiedosa sobre todas as frestas, os becos, as rachaduras do meu ser. Um sol que me cega mas também me desperta. Que me revela míope, pobre, tosca – porém viva.
À vida, então!

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Me assustei no meio da tarde com um alvoroço na cozinha. Era Donana, de visita por aqui, que acabava de acordar da siesta e atacava sem dó nem piedade o bolo de chocolate que ainda restava na geladeira.

Ela já ia para a segunda fatia tamanho GG quando resolvi intervir. Conheço muito bem a compulsão de minha amiga por sabotar as dietas.

Que pasa, Donana?

Hambre, mujer!

– Mas não é possível, Donana. Almoçamos não faz nem duas horas!

Yo que sé? Acordei com fome. De chocolate.

Donana estava mais que estranha. Engolia pedaços inteiros de bolo, entre um gole e outro de café requentado no micro-ondas. Parecia ter acordado de um pesadelo. Ou estar querendo acordar dele.

Fui com calma.

– Saudade de casa, será?

Depois de tantas idas e vindas, Donana já conhece o significado dessa palavrinha.

– Não me fale em saudade. Do passado quero distância!

O ar está denso. As palavras de Donana ficam ricocheteando feito projéteis à procura de alvo. Não me atrevo a qualquer movimento.

Olhos fixos no nada, Donana pousa o garfo na beirada do prato, onde resta meia fatia de bolo. Bebe o último gole de café frio.

– Sabia que chocolate dá quatro vezes mais prazer que um beijo?

Resolvo entrar no jogo.

– Será, Donana? De onde você tirou isso?

– Comprovado pela ciência! E tem mais: faz os olhos brilharem.

– Chocolate engorda, Donana – provoco, mas ela nem aí. Está completamente absorta, flutuando entre o passado que ricocheteia e a fatia de bolo que a espera.

– Todo mundo na vida um dia vai cair num divã – sentencia. Ninguém escapa!

– Explica melhor, Donana. Ninguém escapa do quê?

– Dos próprios fantasmas. E fantasmas, você sabe, sempre voltam.

Ah, bom! O pesadelo não tinha sido a siesta, mas a sessão de análise antes do almoço.

– E o pior é que eu me deito no divã voluntariamente! – minha amiga está dolorosamente compenetrada, mas resoluta. – O problema é que, para consertar a máquina, é preciso desmontá-la, e até botar tudo no lugar de novo a gente fica uma confusão dos diabos.

Ela fita o fundo vazio da xícara.

– Sabe quando você passa a vida inteira tentando lidar com um tumor invisível, e depois de milhares de exames você acredita que ele está alojado no canto esquerdo do seu fígado, e então começa a tomar remédios e mais remédios para o fígado, sem melhorar nenhum tiquinho? Aí um dia você quebra o pé, o médico te manda escanear o pé – e o que você encontra, além do osso quebrado? O tumor! Ele estava lá o tempo todo, e você tratando o fígado!

– Você tem um tumor no pé, Donana?

Ela ri, finalmente.

– Deixa de tonterias, mujer! Estou falando de doenças da alma!

Rimos as duas. Minha artimanha funcionou.

– E sabe o que mais? Chega de bolo. Chocolate demais faz mal ao fígado! – ela empurra o pratinho com cara de enjoo.

Antes de encerrar a conversa, eu convenço Donana a dividir com os mortais a receita do bolo. Afinal, até Freud, aquele que criou a teoria do Princípio do Prazer, era louco por chocolate. Diz a lenda, inclusive, que ele era frequentador assíduo do Café Landtmann, em Viena, onde saboreava sem restrições a famosa Torta Sacher, iguaria vienense à base de (muito) chocolate e geleia de damasco.

A receita da Sacher eu não pedi a Donana, nem pretendo, porque já me disseram que é chatésima de fazer. Mas a do bolo taí. Deleitem-se!

Bolo Peteleco

BOLO PETELECO

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Misture levemente numa vasilha, começando pelos secos:

•         3 xícaras rasas de farinha de trigo (peneirada)

•         2 xícaras de açúcar refinado (peneirado)

•         1 xícara de chocolate ou cacau em pó (não use achocolatado)

•         1 colher (chá) de fermento em pó

•         1 colher (chá) de bicarbonato de sódio

•         ½ colher (chá) de sal

•         1 xícara de óleo

•         2 ovos inteiros

Acrescente à mistura duas xícaras de água fervente (fica ótimo de substituir a água por café bem forte, sem açúcar). Misture tudo muito bem com colher de pau, sem bater.

Despeje em tabuleiro médio, untado previamente com óleo e polvilhado com farinha de trigo.

Leve ao forno pré-aquecido, a 220 graus, por 20 minutos ou até que o palito saia seco ao ser espetado na massa.

Importante: não abra o forno nem o deixe exposto a golpe de ar antes de 15 minutos, para o bolo não “solar”.

Cobertura

Enquanto o bolo assa, leve ao fogo numa panela de fundo grosso, mexendo sempre com colher de pau:

•         1 ½ xícara de açúcar refinado (não use açúcar cristal)

•         2 colheres (sopa) de margarina ou manteiga

•         2 colheres (sopa) de chocolate ou cacau em pó

•         3 colheres (sopa) de água

Dissolva bem, mexendo no fogo baixo por alguns minutos.

Opcional: adicionar um cálice ou dois de licor de café depois de pronta.

Despeje ainda quente sobre o bolo assim que tirá-lo do forno. Ao esfriar, juntamente com a massa, a cobertura ficará levemente crocante.

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verdade

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Verdade

Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava

só conseguia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade

voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia os seus fogos.

Era dividida em duas metades

diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era perfeitamente bela.

E era preciso optar. Cada um optou

conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

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Não foi por acaso que me fixei no Cerrado. Aqui minha alma encontrou respaldo, um espelho na natureza. Aprender e compreender os ciclos do Cerrado foi aprender e compreender meus próprios ciclos.

Sou regida pelas águas, mãe e filha dos lençóis subterrâneos, e como eles minha seiva se recolhe na seca. Tempo de deixar a luz estourar nos olhos enquanto o rio subterrâneo corre em murmúrios que nem sempre escuto. Sinto. Devagar, quase em silêncio, as águas lá de dentro se armam em redemoinhos de revolver certezas e arrastar pedreiras. Sobre a terra reina o nada, amarelecido pelo sol de agosto, acinzentado pelo fogo de setembro. Nem uma nesga de vida. Tempo de vida correndo dentro, brandindo gritos surdos nas profundezas, revolvendo as sepulturas invisíveis, cutucando assombrações.

E, antes que setembro finde, explode a revolução. As primeiras chuvas fecundam a terra, chamando para o baile da vida as águas profundas de mim. Tudo ganha contorno sobre a terra que verdeja, seu ventre parindo aleluias, seu oco lapidando a ladainha das cigarras. E dentro de mim a água jorra, nascida da terra em enxurradas, rasgando meu ventre, parindo alegrias mal formadas, trazendo à luz medos, sonhos, fantasmas, amores. Fecundada pelas águas profundas, ardo, líquida, de desejo. Tempo de andar descalça e soltar os cabelos, florir com as sibipirunas e os flamboyants, catar besouros, acordar com o sabiá. Tempo de renascer. Tempo de semear.

Foto Anamaria Rossi

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Minha alma às vezes sorri quando tudo o que se espera dela é tristeza.
Minha alma me engana. Trapaceia. Confunde.
É da alma das almas driblar o entendimento.
Se eu pudesse decifrar o que se passa nos horizontes cá de dentro… ah, como seria tudo mais simples e luminoso.
Mas sou analfabeta, miserável analfabeta na leitura de mim mesma.
E assim vivo em estado de perpétuo espanto, ruminando o estranhamento entre o que sou – e o que sou.

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Foto Anamaria Rossi

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UM

 .

Prego palavras no papel como quem pendura gafanhotos num varal.

Nada faz sentido.

Palavras, imagens, tudo dentro de mim se desfazendo liquidamente

feito parede de areia em temporal.

Sobreposições, fusões

impressões desfeitas de um inconsciente à flor da pele.

Saudade do tempo em que dialogávamos.

Ainda que fosse apenas para ouvir o som de minha voz aguda

estourando contra a parede da caverna

e se desfazendo em estilhaços, reverberações.

.

EU                SOU                  SEU              ECO

          M     E     U                         A       M      O      R

.

Éramos.

Hoje somos dois silêncios tristes.

……………………………………

DOIS

.

Quero vomitar as imagens que congestionam minha insônia.

– Ela meteu o dedo na garganta e saiu um filme!!!

Esvaziar a mente, relegar à tela do infinito

a memória de sonhos inclassificáveis, intraduzíveis, impalpáveis.

Figuras que se refazem em rios de areia

nuvens            poeira

sombras sobrepostas.

Vomitar as imagens e, no mosaico de restos ruminados,

plantar uma orquídea. Púrpura.

Catar as pérolas no lixo de mim.

Lapidar… Polir… Lapidar… Polir…

Esgotar o poço até de manhã.

Exausta, enfim, dormir.

 …………………….

PRECE

.

Senhor

Já que eu não tenho epocler

me mande o Anjo do Bom Humor.

 …………………….. 

TRÊS

 .

.…………………………………………………………………..

QUATRO

 .

Todas as suas portas estão fechadas para mim.

Se eu fosse uma imagem, você me captaria com suas lentes.

Preto e branco.

Luz e sombra.

Mas sou de carne e sangue

e esta realidade pesa demais para você.

Não se culpe, não me culpo.

Assim é. Assim somos.

Ossos. Lente. Sombras.

……………………

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Por que me olhas

como se me soubesses?

Mistério é meu dom.

Texto e foto: Anamaria Rossi

Pensas saber-me

em todos os esses,

na lua, no sol?

Sabes pensar-me

tal qual eu fosses?

Mutante é o que sou.

Abre-te as veias,

os olhos, as preces,

sente o meu som:

vida que vinga,

flor que amanhece,

mar, viração.

.

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