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Archive for the ‘dos imprevistos’ Category

Jorge Amado por Otto Stupakoff, Salvador, 1978

Estávamos em julho de 1996 e fazia frio em Salvador. Eu e meu companheiro de viagem, o fotógrafo Carlos Moura, vínhamos de uma semana no Quilombo do Rio das Rãs, um afluente do São Francisco na vizinhança de Bom Jesus da Lapa. O combinado era isso: uma semana no Quilombo, onde Carlos continuaria sua cruzada de documentação fotográfica das comunidades quilombolas pelo País; e depois uma semana em Salvador, batendo perna e lavando corpo e alma da poeira da estrada, que estávamos de férias e ninguém é de ferro.

A parte da lavagem do corpo, confesso, ficou um tanto sacrificada, pelo menos no que diz respeito à água do mar. O céu cinzento e a temperatura abaixo dos 22 graus não nos animavam a explorar o litoral. Daí que, entre uma visita rápida a Arembepe e outra mais rápida ainda à Praia do Forte, acabamos numa manhã sem sol no Pelourinho, e quando nos demos conta estávamos em frente à Fundação Casa de Jorge Amado, no Largo do Pelô.

Jornalista é assim, sai de férias sem muitos planos, à espera do que possa acontecer – e sempre acontece. Novidade é pasto quando se anda de olhos abertos.

Foi assim que aconteceu. Lá de dentro do casarão, uma folia colorida nos chamava. Entramos. E fomos logo subindo a escadaria, seguindo a pequena multidão que se formava em fila. Carlos com sua câmera, eu com minha cara de pau, entramos na festa como se convidados fôssemos, e logo entendemos quem era a anfitriã. Zélia Gattai autografava um livro.

À janela, sentado no peitoril com uma camisa branca de linho semelhante a uma guayabera cubana, Jorge Amado contemplava o Largo e apertava as mãos dos que vinham cumprimentá-lo, mantendo-se humildemente no lugar de coadjuvante que lhe cabia na festa.

Driblando uma timidez que eu nem sabia que tinha, fui até ele. Esperei que voltasse os olhos para dentro da sala, interrompendo sua viagem contemplativa. Pedi licença meio desajeitada, estendendo a mão.

– Eu só queria lhe dizer que adoro seus livros, venho devorando todos desde menina.

Ele pegou minha mão, abriu um sorriso e a beijou como um legítimo cavalheiro.

– Mas você ainda é uma menina!

Baixei a cabeça para esconder o rubor que me levou de volta à adolescência. Olhei para os lados e vi Carlos, perplexo, contemplando a cena. Saí de fininho sem ao menos descobrir qual era o livro que Zélia autografava. Só muito depois, lá fora, recuperado o fôlego, é que atinei: por que diabos Carlos não fotografou a cena???

Não precisava. Como a menina que ainda trago, ela não sai de mim nunca mais.

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Foto Anamaria Rossi

Donana andava sumida, e me apareceu aqui hoje pelas 7 da noite bem pior que a capa do Batman.

– Tá parecendo o pano de prato do Alfred, Donana! – a piada eu peguei emprestada de Nico, o Bonvaki.

– Cansada, cansadíssima! – ela adora superlativos, em todos os idiomas. – Mortinha da Silva, mas feliz.

Nem precisava dizer, estava estampado em seus olhinhos acesos de Donana.

Sucede que minha amiga passou o dia todo na cozinha. Ceasa às oito da manhã, Mercado Municipal às nove e quinze, Pão de Açúcar às dez, e vinte minutos depois estava ela vestindo seu dólmã velho de guerra e amarrando o avental na cintura, as facas amoladíssimas à espera. Indiana, a guerreira da pia, já estava a postos. E Rodrigo, o Rodrigão, dali a pouco também chegaria para se fantasiar de cozinheiro.

Faca vai, panelão vem, peneira voa, batata assa – entre um CD do Rappa e outro dos Titãs, fizeram uma porção de delícias para a entrega do final da tarde. Contando piadas, trocando conselhos amorosos, viajando no tempo e na imaginação, o dia foi fluindo no ritmo da marinada, mais intenso e saboroso a cada minuto.

– Hora do check list, Rodrigão!

Eram seis em ponto quando se despediram da Indi e seguiram para fazer a entrega. Meia hora depois, quando se despediu de Rodrigo, Donana nem imaginava que o melhor ainda estava por vir.

– O melhor a gente nunca espera, Donana.

Na verdade, ela só entendeu mesmo depois de deixar a casa da amiga que fez a encomenda. Uma amiga muito querida, embora elas se encontrem pouco e tenham ficado alguns anos quase sem contato.

Nesses anos, a amiga teve uma filha, linda e doce, mas dividiu a alegria desse presente com a dor da perda de outro filho. E, depois de quase dois anos de luto, decidiu que era hora de sair da toca e festejar seu aniversário como se deve, celebrando a vida com os amigos.

Donana pensava no luto, no da amiga e no seu, enquanto dirigia de volta para casa. Sua perda nem de longe se comparava à da amiga, e ela sabia disso. Mas há mortes que não são palpáveis, e elas também doem e enlutam. Donana tinha visto seu sonho agonizar. E achava mesmo que ele estivesse morto.

E não foi justamente o pedido daquela amiga para que fizesse as delícias de sua festa de volta à vida o que havia trazido de volta a Donana uma faísca do seu sonho? Depois de tanto tempo longe da sua cozinha, não foi justamente aquela festa – que Donana nem sabia que seria uma festa de volta à vida – o que a fez mais uma vez acordar cedo, escolher verduras frescas no Ceasa e passar novamente um dia feliz entre facas, panelas e amigos na cozinha de seu sonho?

Donana nem lembrou que estava dirigindo. Pegou o telefone e ligou para a amiga.

– Só agora entendi o quanto este momento é especial. Um recomeço para você e para mim.

Ainda bem que Donana Manteiga Derretida não estava usando rímel, senão tinha borrado tudo. E quando ela chegou aqui em casa e me pediu para encher a banheira com água quente e sais relaxantes, fui eu que entendi. Há muito tempo eu não via minha amiga tão feliz. Mortinha da Silva, mas feliz.

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Fotos Anamaria Rossi

Senti um calafrio e uma tristeza profunda quando Felipe me chamou, agora há pouco, para ver a notícia:  o fogo destruiu a Estação Brasileira Comandante Ferraz, na Antártica, matando dois militares.

Estive lá há exatos cinco anos, em viagem de trabalho. Contei esta aventura num post originalmente publicado no site Pictura Pixel, do qual fui colaboradora. E hoje peço licença ao meu amigo Cláudio Versiani, editor da Pictura Pixel, para republicá-lo aqui, com o coração apertado.

Lá, como aqui, estávamos em meados de março, e o navio Ary Rongel preparava-se para cumprir a etapa final da Missão Antártica Brasileira iniciada na primavera de 2006, retornando ao Rio de Janeiro para reparos de rotina. O Ary Rongel fazia as vezes de uma base flutuante de apoio à missão brasileira, levando e trazendo gente, equipamentos e suprimentos entre a Base Chilena, onde pousam os Hércules C-130 da FAB, e a Estação Brasileira Comandante Ferraz, na Ilha Rei George.

De carona nas comemorações do Ano Polar Internacional, os Correios lançariam um selo em homenagem ao Programa Antártico Brasileiro. E lá fomos nós para a festa de lançamento, num “ameno” final de verão antártico – jornalistas, convidados, representantes do governo e patrocinadores do programa.

A certa altura da festa, a jornalista Tereza Cruvinel, na época colunista de O Globo, decidiu que mandaria dali mesmo, da biblioteca multimídia da Estação, um post para o seu blog no site do jornal. Eu, como não tinha blog e já estava ligeiramente bêbada depois de uma maratona de vôos, discursos e drinques, entrei na cabine vizinha, coloquei o copo ao lado do teclado e mandei a seguinte mensagem para minha lista de amigos:

POST AVULSO DE UM BLOG INEXISTENTE

Queridos e queridas,

Como não tenho blog, vou registrar este momento incrível num e-mail coletivo. Escrevo esta mensagem da ANTÁRTICA – não, não é a cervejaria, é o Continente Gelado, o Pólo Sul, essa montanha de pedra recoberta por camadas e camadas de gelo polar, cujos pedriscos neste momento dão charme e antiguidade de dois mil anos ao scotch que eu bebo. Um legítimo uísque 2012 anos!

Pois é, eu espero que todo mundo possa um dia ver isso aqui de perto. Não só pela grandiosidade, mas pela prova concreta que é a Antártica da possibilidade de um mundo sem fronteiras, da colaboração entre os povos, da convivência pacífica – mais do que isso, harmoniosa, complementar, rica – entre os diferentes. É bom ver de perto. É fundamental poder acreditar nisso.

Mas quem quiser vir aqui, prepare-se. São muitas e muitas horas de vôo num avião militar, um Hércules C-130, feito para transportar soldados em guerra, mantimentos às toneladas e até trator, mas jamais pensado para levar turistas com um mínimo de conforto. Ou seja, muuuuuito legal!!!

A saída é no Galeão Velho, terminal de passageiros do Correio Aéreo Nacional, na Ilha do Governador. Primeira parada, Pelotas. E comi uma deliciosa pizza a metro, feita por um uruguaio de tirar o chapéu!

De lá seguimos para Punta Arenas, no extremo sul do Chile, Patagônia, em SEIS horas de Hércules. Vocês não imaginam o que seja isso. Joelho encaixando em joelho, coluna vertebral em ângulo de 90 graus. Mas com uma inacreditável comissária de bordo, dona Alice, 78 anos, 118 viagens à Antártica, voluntária, com um megafone de prontidão para botar ordem na confusão de militares, operários, pesquisadores e convidados VIPs que viajam democraticamente juntos.

Uma noite na gelada e quase antártica Punta Arenas, onde comemos congro rosa e centolla, e seguimos para a base chilena no Continente Antártico – mais três horas de Hércules.

É claro que a abusada aqui pediu ao comandante para ver o pouso da cabine, e logo que o Hércules furou a manta de nuvens eu quase morri de emoção ao ver os primeiros icebergs e as primeiras ilhas antárticas cobertas de gelo. Aqui é final de verão, como aí, e isso permitiu um bom pouso, sem gelo na pista, e depois uma travessia razoavelmente tranqüila de navio até a Estação Comandante Ferraz, brasileira.

Chegamos à estação, onde escrevo agora, já de noitinha. O navio ancorou lançando 48 metros de corda. Só então pude sentir o que é uma aventura de verdade: percorremos dois quilômetros de mar GELADO, cheio de blocos gigantes de gelo e alguns icebergs flutuando, no meio da noite, em um singelo bote salda-vidas, com vento de 10 graus negativos na cara e água hipergelada espirrando para todo lado, que tal?

Eu olhava para os lados e só via montanhas e montanhas de pedra e gelo. Inimaginável. Sensacional. Único! E agora estou aqui, na Estação, tomando o drinque mais badalado do Continente Antártico: uísque 12 anos com gelo de 2 mil anos! Uísque Polar! Chiquérrimo!

Amanhã cedo vamos voltar. Não dá para descrever essa aventura, só mesmo fazendo. De longe, vi alguns pingüins nadando, focas brincando entre icebergs e uma baleia esguichando água. Espero que amanhã o tempo esteja bom e eu possa percorrer os arredores da estação em um quadriciclo, até a pingüineira. Prometo levar fotos, só não garanto a qualidade. E desejo, de verdade, que vocês possam vir aqui um dia. Pelo menos os que não têm medo do frio.

Beijão,
Ana.

(Estação Comandante Ferraz, Ilha Rei George, Antártica, 12 de março de 2007)

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Odeio ser comedida. Previsível. Controlada. Reprimida (por mim mesma) em meus mais básicos instintos. Odeio dieta, dose certa, restrição. Odeio cabelo arrumado, roupa da moda, frase feita. Tenho medo do caos, mas gosto dele. Gosto do que me surpreende, me desorganiza, me desloca. Pago para entrar numa briga boa, daquelas que me fazem revolver toda a lama lá do fundo para encontrar força e seguir adiante.

Acho que é por isso que minha vida anda chata. Voltei a andar na linha. A fazer o que eu já sei. A percorrer todo dia o mesmo caminho, na ida e na volta. A falar (quase sempre) o que esperam ouvir, e a ouvir (quase sempre) o que já não me causa estranheza. Voltei a ser o que já não sou – ou a palavra mais adequada seria estar?

Ser ou estar é o dilema essencial do estrangeiro, segundo minha interpretação livre das observações sobre o que é um estrangeiro feitas pelo rabino Nilton Bonder em A Alma Imoral (escrevi sobre isso no yo que sé? quando era de fato uma estrangeira em Barcelona). Não interessa qual seja o seu lugar: você sempre pode ser um estrangeiro se for simplesmente o que você é, sem grandes concessões ao ambiente.

E como quase sempre é isso o que fazemos – nos moldamos um pouco ao mundo à nossa volta -, eu advogo, em causa própria e de quem mais se interessar, que todo ser humano tem direito a três vícios. Desde que não sejam desses de efeito letal sobre si mesmo ou sobre o próximo. Três vícios que te façam sair um pouco de si mesmo, sabe como? Sair do estar e aproximar-se, com sorte, do ser.

Um dos vícios que escolhi para mim foi o amor. Amor apaixonado, não amor universal. Este é bom também, mas com ele ainda não consegui o mesmo efeito. A paixão é o que me faz tirar as quatro patas do chão, ou pelo menos duas delas.

Sempre fui do tipo que se apaixona loucamente, mesmo sabendo que vai se esborrachar. Sabe quando o check list dá zero e seus amigos vivem te lembrando de que não há nada na vítima que justifique aquela comichão que te consome? Aí é que esse tipo – tipo eu – mergulha mesmo de cabeça, para desorganizar de vez a vida. É quase uma compulsão. Na verdade, é um vício. Viver em estado permanente de paixão, de encantamento – e de caos interior. Em contato direto com o que você é.

Mas sei lá porque diabos o vício me abandonou. Alguns diriam: Ufa, chegou a maturidade! Outros elogiariam o que chamam serenidade. Eu mesma, confesso, achei muito bom no começo – afinal, não estar apaixonada era a grande novidade para mim. Até que comecei a achar sem graça. A abrir o tarô e perguntar: quando, meus deuses? quando alguém vai entrar de novo por esta porta e me fazer rir, e me fazer chorar, e me fazer sentir o pulso pulsando?

Mas os deuses não respondem quando a gente quer… E às vezes nem respondem.

Sucede que hoje, um deles – talvez Mercúrio, o rei da trapaça – me trouxe um recado do passado. Uma mensagem cifrada e fugidia, escrita num bocado de chá. Um inocente bocado de chá – quente, acre-doce, provocante.

Sorvê-lo reacendeu uma parte esquecida de mim. A contraparte do que tenho sido. Não tenho ainda a mínima idéia do que fazer com essa inebriante sensação. Mas vou segurar bem firme a xícara para não deixar nenhuma gota do calor escapar!

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Fotos Anamaria Rossi

A dor talvez seja uma das sensações que mais evidenciam a solidão. Falo da dor física, contundente, aguda, aquela que te faz chorar mesmo com o coração em stand by, que te faz ter medo do fim, da escuridão, fisicamente (e não metafisicamente) falando.

E é incrível como um dia leve e até alegre pode se transformar num pequeno inferno doloroso em poucos minutos. Não mais que cinco minutos, o tempo que levei para picar as malaguetas, segurando-as entre os dedos da mão esquerda, com a tesourinha na mão direita.

As malaguetas, vermelhas como unhas de perua, descansavam na geladeira há várias semanas, e na empolgação de um sábado de sol resolvi fazer delas um xarope para usar mais adiante em meu laboratório de geléias.

Tirei cuidadosamente os cabinhos, separei as que estavam ainda frescas e as escaldei em água fervente antes de picá-las. Enquanto isso, uma calda fina de açúcar se fazia em fogo baixo, ao meu lado.

Mal despejei as malaguetas picadas na calda, senti uma ardência incomum nas pontas dos dedos, e corri a lavá-los. O alívio foi pura ilusão. Quando terminei de encher o pote com o xarope já rosado e no ponto, não só os dedos estavam em chamas, mas também metade da palma da mão esquerda.

Recorri a um remédio caseiro para assaduras de bebê: fiz uma pasta de maisena com água fria e lambuzei a mão, enquanto com a direita ligava para a farmácia mais próxima.

Quinze minutos depois, quando o rapaz chegou com a pomada, a pasta de maisena já não fazia efeito, e ele me encontrou com a mão mergulhada numa vasilha de água fria completamente turva de maisena.

Lavei as mãos com cuidado – a direita, pelo menos, estava a salvo – e besuntei a esquerda de pomada. Uma camada, duas, três, quase meio tubo, e a ardência só aumentava.

Na tevê, Brasil e Holanda empatados. Segui a dica de um blog que consegui acessar sujando o iPad de maisena e tomei um comprimido para dor. Lavei a mão até tirar toda a pomada e voltei a lambuzá-la com pasta de maisena, agora com água gelada. Um pouco aliviada, adormeci no sofá ouvindo de longe o chato do Galvão.

Meia hora depois, despertei certa de que minha mão havia se convertido numa bola de fogo. A pele sob a maisena seca era vermelha e havia um coração pulsando disparado na ponta de cada dedo.

Nem sei quanto tempo passei com a mão dentro de uma bacia com água gelada. Era a única maneira de conseguir pensar. E, pensando, resolvi fazer um bolo, uma espécie de bombocado espanhol, com queijo fresco. Com uma mão mexendo a massa e a outra debaixo da torneira aberta.

É claro que o bolo ficou imprestável. Só não pior que a minha mão depois de duas horas de atuação intensa da capsaicina. E o pior é que eu nem tinha coragem de jogar no lixo o tubo de xarope de malagueta que teimava em me encarar do canto da pia!

Resolvi pedir ajuda aos universitários. Liguei para todos os médicos da minha agenda, e nada. Recorri ao São Google mais uma vez, e cheguei a um site de dermatologia que explicava em detalhes todos os graus de queimadura e indicava, para a minha, uma pomada à base de corticóide.

A essa altura já era noite e não consegui nenhuma farmácia que me trouxesse alívio em menos de meia hora. Eu não tinha a menor condição de dirigir, nem de ir a pé até a farmácia, a não ser que levasse comigo a bacia de água gelada com a mão dentro. Então, o jeito era pedir socorro.

Teca tinha acabado de sentar para jantar num restaurante da vizinhança, mas deixou tudo e chegou aqui em dez minutos com a pomada. Sem corticóide, mas pelo menos era uma pomada para queimaduras, não aquele hidratante para bunda de nenê que tinham me mandado mais cedo (acho que o rapaz da farmácia não tem a menor idéia do que seja uma malagueta!).

Quatro horas de suplício já haviam se passado quando besuntei a mão com o milagroso Paraqueimol. A primeira sensação foi de alívio, mas dez minutos depois as chamas se reavivaram sob a minha pele já vermelha e pintada de pequenas bolhas. Só senti uma dor parecida quando meu antebraço foi lambido por uma água viva, décadas atrás, em Ubatuba. Horror e pânico!

Meti a mão com pomada e tudo na bacia de água, caprichei no gelo, abri um pacote de biscoito e desabei no sofá, chorando feito criança. Nem as barbaridades do JN puderam me salvar. Quando começou a novela (sou viciada em drogas pesadas) eu já não sabia se a queimação era por causa da pimenta ou do gelo. Decerto era graças ao gelo, porque dali a pouco a mão estava anestesiada, e pude enfim anestesiar minha mente com as barbaridades que nascem da imaginação do Gilberto Braga.

Criei coragem e resolvi encarar o chuveiro, morno, quase frio, para não piorar as coisas, mas mesmo mantendo a mão esquerda bem longe da água, ao final do banho ela estava de novo vermelha e ardente.

Renovei a pomada – pra quê? Quase desmaiei de dor. Se eu tivesse uma machadinha acho que teria decepado a mão naquele momento!

Numa hora dessas, só mesmo a mãe para ajudar a gente a resgatar um mínimo de sanidade, mas quem disse que Dona Nô estava em casa?

O jeito foi tentar dormir, o que só consegui depois de meia hora chorando sozinha na cama, com a mão mergulhada numa jarra de água fria instalada entre o colchão e o criado-mudo, sonhando com um domingo sem dor, sem solidão e, principalmente, sem pimenta.

Mas o pior mesmo foi acordar e constatar que o xarope de malagueta estava totalmente cristalizado. Oh, céus, quanta dor uma criatura é capaz de causar a si mesma – em vão!!!

Fiz com o torrão de malagueta o que eu deveria fazer com tudo o que me faz chorar: joguei no lixo com pote e tudo.

Lá fora o céu estava azul e o sol morno me fez lembrar as manhãs de outono em Barcelona. Um bom domingo para recomeçar.

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Aí você chega em casa no fim do dia se sentindo pior que carne moída, toma aquela chuveirada para se recompor, veste uma camiseta beeem larga e beeem comprida, pega o rumo da cozinha e abre a geladeira.

– O que tem lá dentro? – pergunta você.

– Nada! – respondo eu.

Bom, digamos que quase nada.

Então vamos lá. Considerando:

1) Que o almoço entre um vôo e outro foi num restaurante de comida mineira em Minas, e você devorou um frango ao molho pardo com polenta e quiabo, além de provar o frango com ora-pro-nobis e o purê de cará com molho de rapadura, e para completar enterrou a dieta num sortimento de doces e compotas que só os mineiros tem;

2) Que seu estômago se ressente da orgia e declara jejum por tempo indeterminado;

3) Que você sabe que vai desobedecer seu estômago mesmo sem ter quase nada na geladeira; e

4) Que o quase nada na geladeira inclui: duas mandioquinhas, uma cenoura e um punhado de folhas de hortelã…

Você decide, decreta, homologa e publica:

– Creme de mandioquinha com cenoura e chá gelado de hortelã!

Ok, não é exatamente um manjar dos deuses, mas e se você dourar ligeiramente uma cebola, trocar o sal do creme de mandioquinha por meio tablete de caldo de galinha, adicionar um punhado de folhas de estragão e finalizar com uma pitada de sementes de aipo antes que elas percam a validade? Eu disse que a geladeira estava vazia, não a prateleira de temperos!

Feliz por ter solucionado o problema do jantar, você deixa o ensopado cozinhando no fogo mínimo e corre até o computador em busca da receita de scones de gengibre com coalhada, está doida para ficar livre daquele potinho de iogurte natural que se destaca como um iceberg no vazio da prateleira.

Aí descobre que está sem internet, perde um tempão tentando resolver, resolve, conecta seu laptop jurássico, dá um google, localiza o site, encontra a receita, pega papel e lápis para anotar e…

– De onde vem esse cheiro de… QUEIMADO?

É você a caminho da cozinha, segundos antes de resgatar a panela com uns torrões no fundo, jogar na pia, abrir a torneira e ficar olhando a fumaça que se levanta do que seria o seu delicioso, perfumado e frugal creme de mandioquinha com cenoura, estragão e sementes de aipo.

Salvou-se o chá de hortelã, companhia mais que digna às preguiçosas torradas que meu humor foi capaz de produzir.

Fotos Anamaria Rossi (faminta)

Os scones de gengibre e coalhada terão que esperar pela próxima.

Hoje, para esquecer o desastre, fico por aqui tentando lembrar a ordem das sobremesas mineiras…

PS: Aceito um timer de presente 😉

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