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Archive for the ‘dos causos’ Category

Taipu de Fora, Península de Maraú, Bahia, Brasil

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Aqui no Brasil Profundo as coisas funcionam de um jeito diferente.
As dificuldades são muitas; as facilidades, imensas.
Vamos aos fatos.
Você precisa comprar um peixe para o jantar de amanhã, e no seu povoado não tem peixaria. Aliás, no seu povoado não tem padaria, não tem açougue e não tem farmácia. Também falta escola e posto de saúde. Tudo isso está no vilarejo do lado, que também carece de asfalto e até de ruas planas e de terra firme, mas tem um pequeno comércio e até uma modesta “broadway” para o “footing” noturno da turma do veraneio.
Então você pega o carro e vai até o vilarejo tentar comprar peixe, tomate, cebola, cheiro verde – opa, cheiro verde não tem, nem pimentão. Bom, se tiver peixe você se vira.
São oito quilômetros de areia solta perdida na buraqueira. Engata uma segunda, passa para a terceira, não, em terceira não dá, volta para a segunda, e vambora.
– Moço, sabe onde fica a peixaria do Rominho?
– Sei sim. Vira na rua do posto, vai até o Coutinho e entra à esquerda – informa o rapaz da banca de frutas e verduras, já na xepa da xepa.
– Tá certo. Obrigada.
– A casa dele é a terceira depois – diz o rapaz.
– Casa? Pra que preciso saber onde ele mora?
– A senhora bate lá que ele abre a peixaria, a essa hora tá fechada.
Verdade. São quase oito da noite e o dia do pescador começou ainda escuro. Mas bater na casa dele a esta hora pra comprar peixe? Onde no mundo? Bom, não temos opção. Vestimos a cara de pau e vamos lá.
Encontramos Rominho, um homem forte de uns 40 e tantos, sentado na varanda, sem camisa, o barrigão reluzindo a sol, tomando a fresca na cadeira de palha. A luz fraca que vem lá de dentro deixa ver a mulher, metade da idade dele, morena bonita, brejeira, vendo tevê na sala.
Por cima da mureta, Rominho convida para entrar, mas preferimos ficar por ali. Ele explica que o dia foi bom, vendeu todo o peixe que tinha, a senhora volte amanhã.
– Vai chegar cedo, pode vir às oito horas.
– Vai chegar o quê?
– Cavala. Muita.
Rominho alisa o barrigão enquanto fazemos as contas: voltar amanhã cedo significa perder a praia; melhor tentar um plano B.
Nos despedimos e pegamos o rumo do mercadinho, que também faz as vezes de peixaria. Damos sorte. O plano B se revela uma bela surpresa.
Já na entrada o rapaz avisa:
– Acabou de chegar peixe, podem ir direto lá pro fundo.
O fundo é um terreiro que fica depois da portinhola no final do mercadinho, um pátio de terra batida, rodeado de árvores e pequenos casebres. Quase todo escuro, lá no fundo brilha a luz forte que vem do galpão onde os pescadores separam os peixes.
A primeira visão é de tirar o fôlego: os rapazes acabam de encher uma caixa enorme de isopor com centenas de lagostas miúdas. Quando chegamos eles ainda estão ajeitando as últimas.
Meus olhos faíscam.
– Lagostas!!!
A única que tive a chance de conhecer ao vivo – e ainda viva – foi a que assassinamos em Llançà, na Costa Brava, ao norte de Barcelona, no verão de 2010. Do mar para a geladeira, para anestesiar a bichinha, depois um golpe certeiro para matar sem dor, e direto pro forno. Tudo obra do Chiquinho, assassinato e tempero, eu ali só de comensal. Meus olhos, pois, são só faísca e felicidade quando dou de cara com aquela montanha de lagostinhas vermelhas e lindas no quintal da peixaria.
Mas nem dá tempo de sonhar. A morena nativa de short e camiseta que vigia de perto as lagostas vai logo avisando com um sorrisão triunfante:
– Nem adianta olhar. Estas aqui já tem dona. Acabei de comprar tudo.
– Mas o que você vai fazer com tanta lagosta?
– Vou cozinhar, ora!
– Mas tudo isso?
Tudo aquilo e mais, se houvesse.
A morena brava e decidida é a Rô, dona do Bar da Rô, restaurante badalado, entre o rio e o mar da Baía de Camamu, onde a galera vai ver o por do sol e comer sua lagosta na manteiga de sálvia com arroz negro.
– Ela é poderosa!, avisa Marina.
Poder assim como o da Rô eu respeito. E já vou tirando o meu time de campo, mas o pescador me apresenta uma outra lagosta. A grande.
– Esta aqui ela não vai levar, a senhora quer?
Me assusto de cara. Um lagostão. Dois quilos e meio. Recém saída do mar, praticamente ainda mexendo as patinhas. Não estava nos planos, mas e daí? Arrematamos na hora. Ainda não sei o que fazer com ela, mas isso é o de menos.

E quanto ao peixe? Bom, o peixe é outra história, vamos a ela.
– Tenho badejo, vermelho e cioba – anuncia Zóião, o negro retinto que parece ser o chefe dos pescadores, depois de serrar nossa lagosta ao meio.
Ele me leva até a geladeira no meio do quintal onde dezenas de peixes ainda pulsam, cobertos de gelo. Escolho um lindo badejo de dois quilos e meio.
Com a destreza de quem manipula o facão há décadas sem deixá-lo cair nos pés mal protegidos pelas havaianas, Zóião parte para limpar e filetear o badejo. E eu reafirmo a minha crença de que nem tudo – ou quase nada – se aprende na escola.
Esqueça tudo o que você já viu e ouviu sobre abrir o peixe pela barriga, tirar a barrigada, dividir ao meio pela espinha, de dentro para fora, e depois retirar a pele para fazer os filés.
Zóião começa pela pele. De fora para dentro. Risca o contorno do badejo com a ponta da faca amoladíssima e vai levantando o couro, milímetro por milímetro, com a ajuda da faca, até a carne daquela metade ficar nua. Solta a carne do espinhaço com toda a delicadeza, a partir das costas, limpa as gordurinhas da barriga e exibe o primeiro filé. Vira o peixe e repete o ritual do outro lado, deixando apenas o cabeção do badejo preso a um espinhaço limpinho, e lá na ponta o rabo. E – o que é mais impressionante! – ele faz tudo isso sem abrir ou sequer perfurar a barrigada do peixe, que permanece intacta! Nada como aprender com quem entende do riscado. A técnica do Zóião é a mais eficiente que já vi no preparo de filé de peixe, sem desperdício, sem sangue e sem sujeira.

Lagosta serrada, badejo no filé, surge a pergunta, abusada:
– Zóião, a gente pode deixar os pescados aqui na sua geladeira e passar mais tarde para pegar? Com esse calorão…
Zóião dá só uma risadinha:
– Pode não. Porque agora eu vou passar uma água, botar uma roupa limpa e sair pra tomar umas cachaças, que ajuda a pegar no sono.
Dificuldade? Muita.
Facilidade? Imensa.

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Se tem uma coisa que me deixa furiosa é gente folgada e sem noção do espaço público. Não é só falta de educação, no sentido formal da palavra, é falta de SIMANCOL, é individualismo puro!
Pois a Balofa Feiosa já tinha jogado uma PET no Lago não fazia nem dois minutos. Assim, com a maior naturalidade. O menino mostrava a ela, todo feliz, os três peixinhos que havia capturado, mas ela não quis nem saber, arrancou o “aquário” da mão dele e atirou sem nenhum pudor no Lago Paranoá, onde dezenas de pessoas ainda brincavam – nos pedalinhos, nos caiaques, nadando.
Minha vontade era dar umas bolachas nela, nem sei como me contive (será porque ela dava DUAS de mim?). Além de porca, má! Ao menino, franzino, só restou chorar e espernear na beirada do píer, praguejando.
Dali a pouco, quando a Balofa Feiosa tirou todas as PETs de dentro do isopor e virou a caixa sobre o Lago, cruzei os dedos para que não tivesse nada lá dentro, eu juro que ia voar no pescoço dela.
Só tinha gelo. Ufa!

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Bom, aí ela começou a arrumar as tralhas e colocar as garrafas de volta no isopor. Pensei: pronto, tudo resolvido. Ela vai embora e leva suas PETs.
Mas não! No meio da arrumação, a Feiosa simplesmente chacoalhou uma caixa de suco, viu que estava vazia e – vupt, jogou a caixa no Lago, como se atirasse uma roupa suja no canto do quarto.
– Nãããão! – Fez-se um coro, eu e duas mulheres que estavam mais adiante, atrás de mim, também vendo tudo.
– O Lago não é lata de lixo! – eu, furiosa.
– Que coisa feia! – minha vizinha, tentando manter a linha.
– Foi sem querer! – a cara de pau nem assume a porcaria!
– Sem querer coisa nenhuma! – avancei. – Você fez isso DUAS vezes. Será que não consegue carregar seu lixo até a lata de lixo? Tá tão pesado assim? Esse espaço é de todo mundo, é PÚBLICO, não é a sua casa!
As outras duas se juntaram e começou aquele bate-boca.
A essa altura, meu sangue italiano fervente já me fazia levantar e ir saindo dali para não ver mais nada, ainda espumando e falando impropérios contra a Balofa Feiosa, um ser da menor qualidade que conseguiu acinzentar o lindo fim de tarde no Calçadão da Asa Norte.

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Até aquele momento eu estava ali me divertindo horrores vendo a molecada brincando, e comemorando por dentro a ocupação daquele espaço classe-média-do-Plano-Piloto pela nova-classe-média-da-periferia, que transformou o píer numa verdadeira praia, com direito a biquíni, pescaria e churrasquinho. (Este post, aliás, seria sobre isso). Mas esqueci tudo e fui embora rapidinho, torcendo para a Balofa espetar o pé numa farpa bem grande, ou pisar numa lata de cerveja jogada no chão.
Desconfio que ideias assim também passaram pela cabeça do menino que ficou sem seus peixinhos. E, pior, teve que voltar para casa com a Feiosa.

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Não me lembro se estávamos em 1997 ou se já tínhamos entrado em 1998, ano em que a direita se reagruparia, como de costume, para evitar a reeleição do petista Cristovam Buarque ao Governo do Distrito Federal. Eu estava à frente da recém-criada coluna Metrópole no Correio Braziliense, uma tentativa de abordar os bastidores da política local em notas curtas, frescas e ácidas, o que deu certo por algum tempo durante a gestão de Ricardo Noblat.

Deputado distrital pelo PP, Luiz Estevão era então o líder da oposição a Cristovam Buarque na Câmara Legislativa do DF. Roriz havia sumido do mapa desde o segundo turno da eleição de 1994 para governador, quando abandonou seu candidato, Valmir Campelo, para facilitar a vitória de Cristovam, na certeza de que voltaria ao governo em 1999 derrotando o próprio Cristovam. Arruda, ex-secretário do metrô, cria transgênica de Roriz e eleito senador em 1994 com o apoio dele, havia rompido com o ex-governador e tentava inventar uma “terceira via” para si mesmo no eterno fla-flu  de vermelhos e azuis da política local. Resumindo, o quadro era o seguinte: Cristovam e Luiz Estevão na frente do palco, sustentando a encenação; Roriz como uma enorme sombra projetada atrás de Estevão; e Arruda no fundo do tablado, procurando uma brechinha para entrar em cena.

Fazia sol naquele final de manhã quando eu saí da redação do Correio rumo à mansão de Luiz Estevão, no Lago Sul. Ia para um almoço, a convite do próprio Estevão, que me traria na bandeja o prato mais disputado no momento: Roriz, em carne e osso, voltando ao primeiro plano da cena depois de um sumiço estratégico. O convite, na verdade, se estendia ao meu editor, que na última hora, por algum motivo que não me lembro, não pode ir. E foi assim que me vi sozinha, na varanda da mansão de Estevão, com dois dos personagens mais repugnantes que o jornalismo já colocou à minha frente.

Naquele momento, porém, eu não tinha a menor ideia do quão disgusting eles ainda se revelariam nos anos seguintes. E talvez por isso eu tenha conseguido manter a elegância e não vomitar na cena seguinte, quando ouvi de Roriz uma das frases mais reveladoras do cruzamento de coronel com senhor de engenho que estava diante de mim.

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“Futebol em Brodósqui”, Portinari, 1935

Passávamos da varanda para a sala de jantar e, ao cruzar a sala de estar, parei para observar a bela coleção de arte ali exposta, quase que totalmente modernista. Por uns minutos, me detive com interesse diante de uma tela de Portinari – se não me falha a memória, “Futebol em Brodósqui”, um retrato da infância pobre do pintor, com crianças jogando bola num campinho de terra vermelha típico daquela região, que por acaso é a minha. Um retrato, mais que da simplicidade, da pobreza.

Percebendo meu interesse pelo quadro, Roriz comentou:

– Sabe, Anamaria, eu quero te dizer uma coisa. Eu gosto muito dos pobres. Tenho muito apreço pelos pobres.

Olhei para ele à espera do que viria.

– É mesmo, governador?

Ele abriu um sorriso quase inocente antes de completar a ideia.

– Verdade, tenho muito apreço. Porque, você veja bem. O que seria de nós sem os pobres? Se eles não existissem, quem cozinharia? Quem limparia nossa casa? Quem trabalharia pra nós? Então… eu gosto muito, aprecio muito os pobres.

E seguiu, sorridente e magnânimo, para ser servido no salão do almoço.

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* A propósito da reportagem de Ana Maria Campos e Helena Mader publicada ontem no Correio Braziliense, sob o título “Luiz Estevão se junta a Joaquim Roriz e Arruda contra o PT nas eleições”, aberta com a seguinte frase de Estevão: “Na política, não existem inimizades incontornáveis, nem amizades definitivas.”

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Jorge Amado por Otto Stupakoff, Salvador, 1978

Estávamos em julho de 1996 e fazia frio em Salvador. Eu e meu companheiro de viagem, o fotógrafo Carlos Moura, vínhamos de uma semana no Quilombo do Rio das Rãs, um afluente do São Francisco na vizinhança de Bom Jesus da Lapa. O combinado era isso: uma semana no Quilombo, onde Carlos continuaria sua cruzada de documentação fotográfica das comunidades quilombolas pelo País; e depois uma semana em Salvador, batendo perna e lavando corpo e alma da poeira da estrada, que estávamos de férias e ninguém é de ferro.

A parte da lavagem do corpo, confesso, ficou um tanto sacrificada, pelo menos no que diz respeito à água do mar. O céu cinzento e a temperatura abaixo dos 22 graus não nos animavam a explorar o litoral. Daí que, entre uma visita rápida a Arembepe e outra mais rápida ainda à Praia do Forte, acabamos numa manhã sem sol no Pelourinho, e quando nos demos conta estávamos em frente à Fundação Casa de Jorge Amado, no Largo do Pelô.

Jornalista é assim, sai de férias sem muitos planos, à espera do que possa acontecer – e sempre acontece. Novidade é pasto quando se anda de olhos abertos.

Foi assim que aconteceu. Lá de dentro do casarão, uma folia colorida nos chamava. Entramos. E fomos logo subindo a escadaria, seguindo a pequena multidão que se formava em fila. Carlos com sua câmera, eu com minha cara de pau, entramos na festa como se convidados fôssemos, e logo entendemos quem era a anfitriã. Zélia Gattai autografava um livro.

À janela, sentado no peitoril com uma camisa branca de linho semelhante a uma guayabera cubana, Jorge Amado contemplava o Largo e apertava as mãos dos que vinham cumprimentá-lo, mantendo-se humildemente no lugar de coadjuvante que lhe cabia na festa.

Driblando uma timidez que eu nem sabia que tinha, fui até ele. Esperei que voltasse os olhos para dentro da sala, interrompendo sua viagem contemplativa. Pedi licença meio desajeitada, estendendo a mão.

– Eu só queria lhe dizer que adoro seus livros, venho devorando todos desde menina.

Ele pegou minha mão, abriu um sorriso e a beijou como um legítimo cavalheiro.

– Mas você ainda é uma menina!

Baixei a cabeça para esconder o rubor que me levou de volta à adolescência. Olhei para os lados e vi Carlos, perplexo, contemplando a cena. Saí de fininho sem ao menos descobrir qual era o livro que Zélia autografava. Só muito depois, lá fora, recuperado o fôlego, é que atinei: por que diabos Carlos não fotografou a cena???

Não precisava. Como a menina que ainda trago, ela não sai de mim nunca mais.

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No café da manhã do hotel, procuro uma mesa colada na janela de vidro. Quero degustar meu pãozinho de cereais olhando para o mar.
O garçon corta meu barato com um sorrisão:
– Essas daqui são mais disputadas que ingresso pro Maracanã!
É verdade. Estão todas ocupadas. A que eu mirava parecia vazia, mas logo chega um negão de responsa com o pratinho cheio de pães & guloseimas. Tinha ido reabastecer. Está sozinho na mesa para quatro, mas nem te ligo.
Me acomodo numa mesinha discreta na segunda fileira, dá até para ver uma nesga de mar se eu insistir por entre as cabeças dos jovens executivos de Hong Kong que, em trajes de sábado, curtem uma boa ressaca comendo potes de arroz empapado com shoyu e pepinos.
Na primeira fileira o negão se levanta para o terceiro round, sem se importar com o abdômem que distorce a língua dos Rolling Stones estampada na camiseta. A mesa, vazia, atrai um argentino miúdo de rabo de cavalo e olhos azuis, que rapidamente se posiciona na janelinha com uma xícara de café e uma media luna.
Distraído com a paisagem ensolarada do outro lado do vidro, o rapaz leva um choque – pesado – de realidade quando nosso Fat Black Stone desaba na cadeira ao lado, depositando seu estoque renovado de carboidratos sobre a mesa.
Sem olhar para o lado, o argentino se mexe desconfortável no pequeno espaço que lhe sobrou entre o vizinho e a janela.
Opa, penso eu na segunda fileira, isso vai dar merda. O garçon deve estar pensando a mesma coisa, pois o sorrisão foi substituído por um olhar apreensivo. Está começando a ficar divertido este breakfast.
Na primeira fila, nosso pequeno che e seu vizinho volumoso agem como se o outro não existisse. Um encolhido, olhando o mar; outro esparramado, devorando um bolo de cenoura. Até que, finda sua xícara de café, o rapaz do rabo de cavalo dá uma espreitada ao redor, certifica-se de que ninguém está olhando, afasta a cadeira com cuidado e sai com passos leves pelas costas do nosso Stone Distorcido como se ele nunca tivesse estado ali.
Espero cinco segundos e dou uma olhadinha geral pelo restaurante em busca do amigo Che. Nem sinal. Desapareceu feito fumaça. À minha frente, Big Black devora impassível uma media luna lambuzada de geleia.

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http://lezalez.com/blog/sutias-que-nao-podem-faltar-no-guarda-roupa

Já fazia mais de 15 minutos que eu tinha entrado no táxi e o cara não parava de falar. Ô coisa chata é taxista falante! Ainda mais quando você tem dois celulares e um iPad cheios de mensagens acumuladas em duas horas de vôo e está tentando checar todas antes de chegar em casa.

Desisti quando vi que ele tinha pego o caminho errado. Bom, não que fosse errado, mas era um caminho diferente do meu.

– Esse lado da cidade é mais bonito que o outro.

Tive que concordar. A Asa Norte é mesmo muito mais bonita e agradável que a Asa Sul. Mas ele nem me deixou terminar a frase.

– Já tentei morar aqui, mas quem pode pagar mil e duzentos pelo aluguel de uma quitinete? É grana demais!

Dessa vez concordei em silêncio – esta cidade que tem dois lados também tem dois mundos.

– Você mora onde?

Taguatinga, foi o que ele disse. Devia ter uns 38 anos, e uma ânsia de falar que pegou o mote pelo laço e discorreu longamente sobre todos os detalhes da sua vizinhança. Eu já tinha perdido o fio da meada quando aquele pedaço de frase me fisgou de volta.

– … mas depois que eu comprei essa televisão (sim, tinha uma TV no console do carro) eu quase nem vou em casa. Só vou mesmo quando me dá muita vontade de ver um filme.

– Você não tem filhos, tem?

– Dois. Maria Eduarda e João Paulo. Mas eles moram com a mãe.

– Ah, então tá explicado porque você não tem vontade de voltar para casa.

Breve silêncio. E ele embala de novo.

– De vez em quando eu entro na internet, sabe? E outro dia eu li uma história que era assim. A menina pergunta para o pai: o que o senhor vai me dar quando eu fizer 15 anos? Ela tinha 14 anos. O pai diz: Não sei, minha filha. Mas uns dias depois ela fica muito doente, muito doente mesmo, e no dia do aniversário de 15 anos ela está no hospital entre a vida e a morte. Quando ela fica curada e volta para casa, encontra a carta do pai. Minha filha, um dia você me perguntou o que eu te daria quando fizesse 15 anos, e eu não soube te responder. Agora eu posso dizer: o meu presente está batendo aí no seu peito. Essas coisas fazem a gente chorar, sabe? Qual é o bloco da senhorita?

– O primeiro à direita.

– Sabe de uma coisa? Se eu tivesse internet no carro, aí que eu não ia para casa mesmo. Fico emocionado com essas coisas, chega até a cair lágrima.

Chegamos. Respiro aliviada. Mas o cara não para de falar nem depois que eu já peguei o troco e a mala.

– É muita solidão nessa vida. Se eu contar para a senhorita o que eu faço para passar o tempo, a senhorita não vai acreditar!

– Não vai me dizer que você faz crochê!

– Eu vendo isto aqui.

Tira uma bolsa de lona do porta-malas, abre o zíper e pega lá dentro um pacotinho plástico igual a dezenas de outros que enchem a bolsa.

Chego mais perto para ver. A peça é de renda, marrom café, e me parece de bom gosto. Um sutiã.

Encaixo a pasta sobre a mala e vou deslizando em direção à rampa do prédio.

– É um bom negócio. E ainda dá para você conhecer umas moças e quem sabe arranjar uma namorada.

Já no alto da rampa, escuto:

– Quero não, obrigada. – E levanta a perna da calça para mostrar – Sabe como acabou meu casamento? Olha aqui o que ela fez!

Eu olho, querendo não ver.

– Então boa sorte para você. Obrigada pela viagem.

– Eu que agradeço. A senhorita fique com Deus!

Entro no prédio com a pressa de quem foge de um monstro. Um monstro chamado solidão.

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Fotos Anamaria Rossi

Senti um calafrio e uma tristeza profunda quando Felipe me chamou, agora há pouco, para ver a notícia:  o fogo destruiu a Estação Brasileira Comandante Ferraz, na Antártica, matando dois militares.

Estive lá há exatos cinco anos, em viagem de trabalho. Contei esta aventura num post originalmente publicado no site Pictura Pixel, do qual fui colaboradora. E hoje peço licença ao meu amigo Cláudio Versiani, editor da Pictura Pixel, para republicá-lo aqui, com o coração apertado.

Lá, como aqui, estávamos em meados de março, e o navio Ary Rongel preparava-se para cumprir a etapa final da Missão Antártica Brasileira iniciada na primavera de 2006, retornando ao Rio de Janeiro para reparos de rotina. O Ary Rongel fazia as vezes de uma base flutuante de apoio à missão brasileira, levando e trazendo gente, equipamentos e suprimentos entre a Base Chilena, onde pousam os Hércules C-130 da FAB, e a Estação Brasileira Comandante Ferraz, na Ilha Rei George.

De carona nas comemorações do Ano Polar Internacional, os Correios lançariam um selo em homenagem ao Programa Antártico Brasileiro. E lá fomos nós para a festa de lançamento, num “ameno” final de verão antártico – jornalistas, convidados, representantes do governo e patrocinadores do programa.

A certa altura da festa, a jornalista Tereza Cruvinel, na época colunista de O Globo, decidiu que mandaria dali mesmo, da biblioteca multimídia da Estação, um post para o seu blog no site do jornal. Eu, como não tinha blog e já estava ligeiramente bêbada depois de uma maratona de vôos, discursos e drinques, entrei na cabine vizinha, coloquei o copo ao lado do teclado e mandei a seguinte mensagem para minha lista de amigos:

POST AVULSO DE UM BLOG INEXISTENTE

Queridos e queridas,

Como não tenho blog, vou registrar este momento incrível num e-mail coletivo. Escrevo esta mensagem da ANTÁRTICA – não, não é a cervejaria, é o Continente Gelado, o Pólo Sul, essa montanha de pedra recoberta por camadas e camadas de gelo polar, cujos pedriscos neste momento dão charme e antiguidade de dois mil anos ao scotch que eu bebo. Um legítimo uísque 2012 anos!

Pois é, eu espero que todo mundo possa um dia ver isso aqui de perto. Não só pela grandiosidade, mas pela prova concreta que é a Antártica da possibilidade de um mundo sem fronteiras, da colaboração entre os povos, da convivência pacífica – mais do que isso, harmoniosa, complementar, rica – entre os diferentes. É bom ver de perto. É fundamental poder acreditar nisso.

Mas quem quiser vir aqui, prepare-se. São muitas e muitas horas de vôo num avião militar, um Hércules C-130, feito para transportar soldados em guerra, mantimentos às toneladas e até trator, mas jamais pensado para levar turistas com um mínimo de conforto. Ou seja, muuuuuito legal!!!

A saída é no Galeão Velho, terminal de passageiros do Correio Aéreo Nacional, na Ilha do Governador. Primeira parada, Pelotas. E comi uma deliciosa pizza a metro, feita por um uruguaio de tirar o chapéu!

De lá seguimos para Punta Arenas, no extremo sul do Chile, Patagônia, em SEIS horas de Hércules. Vocês não imaginam o que seja isso. Joelho encaixando em joelho, coluna vertebral em ângulo de 90 graus. Mas com uma inacreditável comissária de bordo, dona Alice, 78 anos, 118 viagens à Antártica, voluntária, com um megafone de prontidão para botar ordem na confusão de militares, operários, pesquisadores e convidados VIPs que viajam democraticamente juntos.

Uma noite na gelada e quase antártica Punta Arenas, onde comemos congro rosa e centolla, e seguimos para a base chilena no Continente Antártico – mais três horas de Hércules.

É claro que a abusada aqui pediu ao comandante para ver o pouso da cabine, e logo que o Hércules furou a manta de nuvens eu quase morri de emoção ao ver os primeiros icebergs e as primeiras ilhas antárticas cobertas de gelo. Aqui é final de verão, como aí, e isso permitiu um bom pouso, sem gelo na pista, e depois uma travessia razoavelmente tranqüila de navio até a Estação Comandante Ferraz, brasileira.

Chegamos à estação, onde escrevo agora, já de noitinha. O navio ancorou lançando 48 metros de corda. Só então pude sentir o que é uma aventura de verdade: percorremos dois quilômetros de mar GELADO, cheio de blocos gigantes de gelo e alguns icebergs flutuando, no meio da noite, em um singelo bote salda-vidas, com vento de 10 graus negativos na cara e água hipergelada espirrando para todo lado, que tal?

Eu olhava para os lados e só via montanhas e montanhas de pedra e gelo. Inimaginável. Sensacional. Único! E agora estou aqui, na Estação, tomando o drinque mais badalado do Continente Antártico: uísque 12 anos com gelo de 2 mil anos! Uísque Polar! Chiquérrimo!

Amanhã cedo vamos voltar. Não dá para descrever essa aventura, só mesmo fazendo. De longe, vi alguns pingüins nadando, focas brincando entre icebergs e uma baleia esguichando água. Espero que amanhã o tempo esteja bom e eu possa percorrer os arredores da estação em um quadriciclo, até a pingüineira. Prometo levar fotos, só não garanto a qualidade. E desejo, de verdade, que vocês possam vir aqui um dia. Pelo menos os que não têm medo do frio.

Beijão,
Ana.

(Estação Comandante Ferraz, Ilha Rei George, Antártica, 12 de março de 2007)

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