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Archive for the ‘dos amigos’ Category

2014-1

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Domingo bom é domingo com amigos. E foi só por isso que Donana não brigou quando Andréa a acordou às 8h30 da manhã com um torpedo convidando para a caminhada.

– São 8h30, mujer! Dá para esperar eu acordar? Além do mais, eu estou com o pé torcido!

Quem conhece Donana sabe que isso é uma bronca leve, grau 4 na escala Richter. Andréa, sabendo que tinha escapado de uma verdadeira explosão de fúria, respondeu com um singelo “rs…” e só apareceu às 11h, anunciando:

– Produçãããão!

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Saiu dali uma hora depois, com o peixe temperado, a mandioca descascada e a salada pron-ti-nha. Mas não sem antes tentar mudar a receita da tradicional Salada Caprese de Donana:

– Acho que eu vou deixar as endívias numa travessa e o resto na outra.

Minha amiga, com toda a paciência que tem adquirido no divã, pegou uma barquinha de endívia, colocou duas metades de tomatinho, dois pedacinhos de queijo de cabra e umas folhinhas de manjericão. Polvilhou sal e regou com azeite antes de meter a barquinha goela abaixo da abusada. E de ouvir um “huuummm…”

– Entendeu agora???

O argumento palatável foi tão convincente que Andréa logo pegou a travessa e começou a montar as barquinhas. Pena que ela não ficou para o que seria a verdadeira experiência do dia.

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A história começa umas semanas antes, com Kakau oferecendo um pacu que tinha chegado do Mato Grosso do Sul. Adriana, que adora uma novidade, correu ao Google em busca de um acompanhamento original. Encontrou. O ri-ri.

Pero que conho é ri-ri? – Donana, relutante, admitiu sua ignorância.

Ninguém sabia direito, e foi o Google quem salvou minha amiga. No dia seguinte ela já sabia que era uma trouxinha de massa de mandioca cozida na folha de bananeira, com variações mil e até uma receita totalmente desfigurada no site da Ana Maria Braga.

– Ora essa! Os índios criam uma iguaria e a metida da Ana Maria Braga muda tudo e mete um caldo knorr? Nem pensar!!!

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Quando Kakau e Adriana chegam a mandioca já está prontinha para ser ralada e espremida. Ralo fino, espreme, espreme, separa o leite e tempera com pouco sal e uma colher de manteiga derretida (a receita original não tem sal nem manteiga, é só mandioca mesmo).

O leite, decantado e escorrido, deixa na vasilha a goma que depois vai virar uma bela tapioca. Mas o que importa aqui é o ri-ri, então a essa altura Donana e suas ajudantes já estão lavando e cortando as folhas de bananeira, que serão escaldadas no caldo de legumes na-tu-ral onde já foram cozidas as bananas da terra.

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Em formação de brigada, Donana vai escaldando os quadradinhos de folha de bananeira e enrolando as porções de massa que Kakau boleia como se manipular a mandioca estivesse em seu DNA. Adriana finaliza com delicados lacinhos de barbante.

– Isso é ri-ri de menina!

RI-RI

A essa altura Sérgio já chegou, mas está mais interessado em ler os jornais do dia que em cortar barbante ou encher os copos das meninas. No máximo, como não havia outro braço masculino no recinto, ele ajuda a espremer a massa de mandioca.

Hombres! Bahhh!!!

ririri

Mesa posta, é hora de levar as costelas de pacu ao forno e cozinhar os ri-ris no caldo fervente, o que demora uns 30 minutos mais ou menos.

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Na hora de servir, vai bem um pratinho extra para colocar as cascas de banana, barbantes e folhas de bananeira – nada que incomode em um almoço legitimamente mato-grossense e no melhor estilo rústico. Para acompanhar, uma tigelinha de chips de banana diretamente da feira do Ceasa. E um vinho branco geladíssimo, que ninguém é de ferro.

Voilà!

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PS: Cynara pediu, e perguntei a Donana como ela preparou o pacu.

– Temperinho básico. Uma marinada de duas horas com uma picada bem brasileira. Meia hora de forno quente, sobre folhas de bananeira, e direto para a mesa.

– Donana, porfa, explica aos brasileiros o que é uma picada.

– É uma mistura de temperos feita no mortero (traduzindo: pilão). Amassei sementes de coentro, juntei salsa e cebolinha bem picadinhas, pimentas biquinho, dedo-de-moça e jalapenha, sal, pimenta do reino moída na hora, azeite e suco de dois limões.

– Quanta pimenta, Donana!

– Ah, mas eu tirei as sementes, minha filha, porque picada que pica é só na casa da Cynara!

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A homenageada

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Caldinho de bobó de camarão

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Receita de Donana para Solange

 

Ingredientes

  • 3 xícaras de mandioca picada, cozida e limpa, e a água do cozimento
  • 40 camarões grandes, frescos e com casca
  • 3 tomates maduros ou 1/2 xícara de polpa de tomate
  • Azeite
  • 2 colheres (sopa) de manteiga
  • 1 vidro pequeno de leite de coco
  • Sal
  • Cheiro verde (cebolinha, salsa, coentro…)
  • Pimenta calabresa
  • Pimenta do reino moída na hora
  • 1 cebola
  • 5 dentes de alho
  • 1/4 de pimentão vermelho (opcional)

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Modo de fazer

Limpar os camarões e colocá-los em um prato cobertos com azeite, sem temperá-los. Cobrir com filme e reservar. Reservar as cascas e cabeças para o caldo.

Em uma panelinha, refogar as cascas e cabeças do camarão em 2 colheres de azeite até soltar o aroma. Cobrir com água e levar à fervura. Desligar o fogo e abafar. Depois de 5 minutos, coar e reservar.

Em uma panela grossa, refogar na manteiga a cebola e 4 dentes de alho picadinhos, em fogo baixo, mexendo, até amolecer, sem deixar escurecer.

Bater no liquidificador: a mandioca, sua água, o refogado de cebola e alho e o caldo de camarão. Voltar tudo à panela e temperar com sal, um fio de azeite e uma pitada de pimenta calabresa. Levar à fervura, retirar a espuma com escumadeira, juntar o leite de coco, baixar o fogo e cozinhar até chegar à consistência desejada, adicionando água morna quando necessário. O caldo não deve ficar ralo nem chegar a ser um creme espesso.

Enquanto o caldo chega ao ponto, prepare os camarões.

Leve ao fogo alto uma frigideira anti-aderente na qual esfregou um dente de alho aberto ao meio. Deixe-a aquecer muito bem. Ajeite na frigideira já muito quente os camarões besuntados em azeite. Depois de dois minutos, vire-os e polvilhe sal e pimenta do reino moída na hora. Deixe mais dois minutos no fogo até selar o outro lado, depois salteie os camarões por mais um ou dois minutos. Retire os camarões e reserve-os em uma vasilha que os mantenha aquecidos por alguns minutos, no próprio fogão.

Na frigideira, ainda em fogo alto, despeje o tomate picado (sem pele e sem sementes) ou a polpa de tomate. Junte o pimentão picadinho (opcional). Raspe o fundo da frigideira com uma colher de pau para recuperar o sabor do camarão, e vá adicionando água quente aos poucos. Tempere com sal, cheiro verde e uma pitada de pimenta calabresa. Cozinhe, mexendo, até engrossar.

Coloque os camarões de volta na frigideira, misturando-os ao molho grosso. Desligue o fogo e reserve.

Sirva o caldo em pratos fundos ou cumbucas, decorando com camarões e molho (dez camarões grandes para cada 2 conchas de caldo). Vai bem com uma cervejinha gelada.

Voilà!

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Donana por Solange

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Me chegou ainda há pouco pelos correios, num envelope pardo escrito em caneta bic, com selos de verdade, o livro de estreia de uma amiga das antigas, que nas palavras dela mesma “escreve desde sempre e faz poesia todo dia”.
Eu soube que Debi era poeta, poeta com P maiúsculo, desde o primeiro poema que li no blog que ela inventou uns anos atrás. Depois ela descobriu o Facebook, e logo se formou uma grande plateia, um fã clube variado que a estimulou a reunir os poemas num livro.
Ela, enfim, cedeu. E nos deu de presente o belo TRIZ. Este que me chegou num envelope pardo, com a letra dela na face e uma coleção de pequenas jóias.
Escolhi esta pra vocês.

 

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Tudo aqui dentro está
por um triz:
a casa em silêncio
a urgência
o ocaso
a solidão desejada
a televisão ligada
o pedaço de pão
a chave no portão
a vida lá fora
aguardando a decisão
esta música em prelúdio
que antecipa
a explosão.

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(Deborah Dornellas)

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Foto Anamaria Rossi

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Náufrago de terras secas

sobrevivo com sede

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Foto Anamaria Rossi

Donana andava sumida, e me apareceu aqui hoje pelas 7 da noite bem pior que a capa do Batman.

– Tá parecendo o pano de prato do Alfred, Donana! – a piada eu peguei emprestada de Nico, o Bonvaki.

– Cansada, cansadíssima! – ela adora superlativos, em todos os idiomas. – Mortinha da Silva, mas feliz.

Nem precisava dizer, estava estampado em seus olhinhos acesos de Donana.

Sucede que minha amiga passou o dia todo na cozinha. Ceasa às oito da manhã, Mercado Municipal às nove e quinze, Pão de Açúcar às dez, e vinte minutos depois estava ela vestindo seu dólmã velho de guerra e amarrando o avental na cintura, as facas amoladíssimas à espera. Indiana, a guerreira da pia, já estava a postos. E Rodrigo, o Rodrigão, dali a pouco também chegaria para se fantasiar de cozinheiro.

Faca vai, panelão vem, peneira voa, batata assa – entre um CD do Rappa e outro dos Titãs, fizeram uma porção de delícias para a entrega do final da tarde. Contando piadas, trocando conselhos amorosos, viajando no tempo e na imaginação, o dia foi fluindo no ritmo da marinada, mais intenso e saboroso a cada minuto.

– Hora do check list, Rodrigão!

Eram seis em ponto quando se despediram da Indi e seguiram para fazer a entrega. Meia hora depois, quando se despediu de Rodrigo, Donana nem imaginava que o melhor ainda estava por vir.

– O melhor a gente nunca espera, Donana.

Na verdade, ela só entendeu mesmo depois de deixar a casa da amiga que fez a encomenda. Uma amiga muito querida, embora elas se encontrem pouco e tenham ficado alguns anos quase sem contato.

Nesses anos, a amiga teve uma filha, linda e doce, mas dividiu a alegria desse presente com a dor da perda de outro filho. E, depois de quase dois anos de luto, decidiu que era hora de sair da toca e festejar seu aniversário como se deve, celebrando a vida com os amigos.

Donana pensava no luto, no da amiga e no seu, enquanto dirigia de volta para casa. Sua perda nem de longe se comparava à da amiga, e ela sabia disso. Mas há mortes que não são palpáveis, e elas também doem e enlutam. Donana tinha visto seu sonho agonizar. E achava mesmo que ele estivesse morto.

E não foi justamente o pedido daquela amiga para que fizesse as delícias de sua festa de volta à vida o que havia trazido de volta a Donana uma faísca do seu sonho? Depois de tanto tempo longe da sua cozinha, não foi justamente aquela festa – que Donana nem sabia que seria uma festa de volta à vida – o que a fez mais uma vez acordar cedo, escolher verduras frescas no Ceasa e passar novamente um dia feliz entre facas, panelas e amigos na cozinha de seu sonho?

Donana nem lembrou que estava dirigindo. Pegou o telefone e ligou para a amiga.

– Só agora entendi o quanto este momento é especial. Um recomeço para você e para mim.

Ainda bem que Donana Manteiga Derretida não estava usando rímel, senão tinha borrado tudo. E quando ela chegou aqui em casa e me pediu para encher a banheira com água quente e sais relaxantes, fui eu que entendi. Há muito tempo eu não via minha amiga tão feliz. Mortinha da Silva, mas feliz.

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Fotos Anamaria Rossi

Fotos Anamaria Rossi

Se me contassem (e eu fosse uma cozinheira incrédula) eu diria que era piada. Pão de queijo sem ovos??? Mas foi Dona Lígia quem contou, e ela tem uma longa estrada de forno & fogão – lá nas Minas Gerais e aqui mesmo, no Planalto, a porção asfaltada do nosso Grande Sertão.

Dona Lígia Rosa do Rosário é mãe das queridas Ana Maria Costa e Cristina Roberto, e avó da talentosa Ligiana. Mas, antes de qualquer coisa, Dona Lígia é mineira, poeta, quituteira e biscoiteira de mão cheíssima. Pelo menos é o que me contam. Com fartura de testemunhas.

Da poesia fui eu mesma testemunha, numa tarde chuvosa no raiar de 2012, lá na Aldeia do Urubu. Dona Lígia sentadinha na varanda e toda a gente reunida para ouvi-la declamar – como quem não declama, mas conta um causo, cheio de altos e baixos e idas e vindas – um poema de 58 versos, sem cola e sem tropeços, os olhinhos vibrando como uma Sherazade encantadora. “Renúncia”. Que Dona Lígia assinou como Carmem, em 1935, e que tem trechos como este:

E quando passar em minha casa que aí fica

onde nasceram e morreram nossas ilusões

brincando com aquele estoir rendado

que você se recostava…

Peça ao vento que me traga pelo espaço

aquele perfume que sentia no terraço

Para enfeitar a nossa então felicidade.

Semana passada Dona Lígia fez 94 anos. Não pude ir à festa, mas ganhei da minha amiga, médica e xará Ana Maria Costa o melhor dos presentes: um caderninho com receitas e poemas de Dona Lígia. Foi de lá que tirei a idéia (maluca) do pão de queijo sem ovos.

E como, ao fim e ao cabo, sou mais crédula do que eu mesma posso crer, não só resolvi experimentar como me atrevi a mudar a receita. Na verdade, adaptar aos ingredientes que eu tinha disponíveis.

Para ser honesta com meus 25 leitores e justa com a homenageada, aí vão as duas receitas. A original, legítima e verdadeira receita do pão de queijo sem ovos da Dona Lígia Rosa do Rosário… e o meu arremedo experimental e improvisativo de um sábado de manhã sem quase nada na geladeira.

Pão de queijo de Dona Lígia

  • 1 prato de polvilho doce bem cheio
  • 1 prato de óleo pela marca do prato antes da borda
  • 1 prato de queijo ralado
  • 1 prato de leite bem cheio

Modo de fazer

  1. Escaldar o polvilho mexendo bem.
  2. A qualidade do polvilho tem grande importância. Recomenda-se os mais rústicos de grãos maiores.
  3. Colocar o prato de queijo ralado (quanto menos queijo, mais os pães crescem).
  4. Amassar com leite ou coalhada.
  5. Fazer as bolinhas e colocar no forno quente. A massa pode ser congelada por vários dias.

Ela ensina ainda:

São muitas as receitas de pão de queijo. Pode-se pegar, por exemplo, 4 copos de polvilho e escaldar com um copo de óleo e um copo de leite ou de água. Mexer bem. Colocar sal a gosto. Misturar um prato de sobremesa de queijo. Pode-se acrescentar ovos à massa e algumas pessoas usam coalhada em vez de leite. Neste caso, não se ferve a coalhada com o óleo.

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E aqui a minha modesta adaptação:

Pão de queijo sem ovos de Donana

  • 1 xícara de polvilho azedo
  • 1 xícara de polvilho doce
  • 1 xícara de óleo de girassol
  • 1 xícara de leite
  • 1/2 xícara de queijo cottage (ou coalhada sem soro)
  • 1 xícara de queijo curado ralado fino
  • 1/2 xícara de queijo curado ralado grosso
  • 1 colher (sobremesa) de sal

Modo de fazer

  1. Misturar os dois polvilhos e o sal e escaldar com 1 xícara de óleo e 1/2 xícara de leite ferventes.
  2. Deixar amornar um pouco, juntar o queijo ralado e misturar bem.
  3. Diluir o queijo cottage em 1/2 xícara de leite frio e ir juntando aos poucos à massa, misturando com as mãos.
  4. Amassar até dar ponto, juntando mais leite frio ou mais polvilho (sempre em partes iguais de azedo e doce), conforme o necessário para obter a textura desejada.
  5. Fazer bolinhas e levar ao forno quente por 20 a 25 minutos, ou até ficar douradinho.

Agora eu me explico.

O polvilho azedo entrou na mistura para dar a rusticidade necessária à massa, e maior capacidade de “explosão” em alta temperatura, já que a receita não leva ovos (as claras são responsáveis em boa parte pela “explosão” da massa) e o polvilho doce industrializado é fino e delicado como um talco e está a léguas de distância do potencial do polvilho da fazenda.

O queijo cottage entrou por dois motivos: porque eu tinha meio potinho vencendo na geladeira e porque ele tem uma acidez bem próxima à da coalhada, o que me fez pensar nele imediatamente ao ler a receita de Dona Lígia. Apenas cuidei de hidratá-lo um pouco no leite, mas sem perder o granulado, que também ajuda a deixar a massa mais rústica.

Mantive, ao final, a técnica e as proporções entre secos e molhados da receita de Dona Lígia. E acho que ela não ficaria decepcionada com o resultado. Mas só tem um jeito de saber: levando meu PDQ para ela experimentar. Quem sabe?

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