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Archive for the ‘da saudade’ Category

Eu envelheço, tu envelheces, ele envelhece. Mas só o espelho sabe disso. O espelho e os outros.

Dentro de mim mora aquela menina de 15 anos que, dia sim, dia não, passava o pano de chão no assoalho de madeira da grande sala da família ouvindo no rádio as canções que a transportavam para um mundo onde a única coisa que re-al-men-te importava era o amor. O amor sem fim.

Era uma garota gordinha e romântica de olhar profundo, que ligava para a rádio pedindo a sua música preferida e deixava a fita K-7 no ponto para gravar quando tocasse, para depois repetir à exaustão, mesmo sem entender quase nada da letra da canção, que era em inglês, e as aulas de inglês não faziam parte do universo daquela menina de classe média-baixa do interior de São Paulo, e ela só sabia que Black Stream era o nome da sua cidade em inglês porque também era o nome do principal hotel de Ribeirão Preto.

Uma garota que naquele ano de 1982 sonhou com uma valsa de 15 anos e chamou o garoto bonito amigo dos seus amigos feiosos para a contradança, mesmo que fosse para esquecer o nome e o rosto dele no dia seguinte e voltar a se apaixonar pelos feiosos, e que depois da valsa ligou a luz negra e botou o globo para girar na sala de assoalho de madeira e soltou o roquenrol para a turma dançar, que a valsa era meio sem graça.

A mesma garota que reunia a turma do colegial e do grupo jovem para panfletar toda noite pelas ruas do bairro, subindo a rua de um lado e descendo do outro, até acabarem os santinhos jogados em todas as casas com a cara do Seu Atílio para vereador e a do Lula para governador de São Paulo. E que cantava canções de protesto na roda de viola que se formava depois da panfletagem no alpendre da casa, com bolo e limonada.

E era também essa garota quem lavava a calçada com a mangueira no dia em que passou a perua da rádio FM perguntando qual era a rádio ela estava ouvindo a todo volume, ela disse o nome da emissora e ganhou um brinde que guarda até hoje na gaveta dos bolachões, um disco de Roberto & Erasmo, para alegria do seu coração de menina.

Uma garota que nas férias tinha ímpetos de cidade grande e pegava o Cometa para São Paulo de mãos dadas com a irmã mais nova, descia no Tietê e seguia de metrô até o Tatuapé, de lá as duas iam de ônibus até a Vila Formosa para encontrar os primos e os amigos dos primos e perambular pelas tardes de mil perigos na Sé e na República e pelas noites de mil encantos nos meandros da Zona Leste, aprendendo a beijar na boca na escadaria da igreja ou na pracinha.

Essa menina de rosto redondo e olhos inquisidores dividida entre o amor e a luta, que sonhava com um amor sem fim e com uma vida de mulher independente e quiçá jornalista, chegou de mansinho esta tarde para me levar ao tempo da inocência. Entrou pelos ouvidos quando liguei o iPod no vôo que me trouxe de volta da São Paulo de ontem e de hoje. E a música que tocou no modo aleatório foi a mesma que aquela garota de 15 anos em 1982 arranhava junto com Lionel Richie and Diana Ross na fita K-7 já gasta de tanto rodar.

Envelhecer é quase não envelhecer.

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A primeira vez que comi berinjela recheada foi em Sampa, na Festa de Nossa Senhora Achiropita, padroeira do Bixiga. Meados dos anos 80. Eu tinha uns 18 anos e perambulava por lá com uma turma da UnB. Tínhamos ido para um evento do movimento estudantil e estávamos todos amontoados na casa do tio Waldemar, em colchões espalhados pela sala. Tio Waldemar e Tia Célia, aliás, sempre tiveram as portas abertas para nós e nossas turmas lá no Tatuapé.

Fui guiada pelo cheiro até a barraca da melanzana al forno. Me apaixonei perdidamente. E, já na época curiosa pelos sabores, fiquei tentando entender, pelo paladar, como e com que ingredientes era feita. E é claro que, ao chegar em casa, corri ao fogão.

Durante muitos anos fiz a receita que imaginei ser a original naquela época, recheando as berinjelas com carne moída refogada em temperos, batata amassada e a polpa da própria berinjela. Lembrem-se que na época não havia internet nem google, o jeito era inventar. E deu certo.

Hoje, visitando o site da Festa, descobri que, ao invés de batata, a receita original leva ovos cozidos para dar liga à carne do recheio. E azeitonas. Vou tentar na próxima.

Mas hoje eu queria rechear as mini berinjelas que comprei no Ceasa de um jeito diferente. Bateu saudade dos sabores da Espanha. Pensei em juntar minhas duas cozinhas da memória num só prato.

Eu ainda tinha na geladeira uns cogumelos Paris frescos (também do Ceasa, baratíssimos, um pacotão por 6,99!), um pedaço de queijo de cabra tipo brie (Ceasa!) e filezinhos de anchova em conserva. Tomate, cebola, batata, cheiro verde e azeite… pronto! Vamos ao trabalho.

Aqui elas estão prontas para ir ao forno

Aqui elas estão prontas para ir ao forno

MINI BERINJELAS RECHEADAS DE DONANA

Ingredientes

  • 10 mini berinjelas
  • 1 batata média
  • 4 filezinhos de anchova em conserva
  • 6 cogumelos Paris
  • 1 tomate
  • 1/2 cebola
  • 2 dentes de alho
  • Sal, azeite, salsa e cebolinha
  • 1 pedaço pequeno de queijo de cabra

Preparo

  1. Lavar as berinjelas, partir ao meio no comprimento e colocar em uma panela com água fervente de boca para baixo. Dividir em duas ou três partes de forma a cobrir a superfície da água sem se amontoarem.
  2. Retirar, escorrer numa peneira e retirar cuidadosamente o miolo da berinjela com o auxílio de uma faquinha ou uma colher, sem danificar as cascas. Reservar.
  3. Cozinhar a batata em cubos.
  4. Triturar rapidamente no mixer o miolo da berinjela, a anchovinha e a batata cozida. Ao final, juntar um fio de azeite e provar o sal. Se necessário, ajustar. Reservar.
  5. Limpar os cogumelos, tirar os cabinhos e fatiar. Os pedaços não podem ser grandes.
  6. Cortar o tomate em cubinhos.
  7. Picar a cebola, o alho e os cheiros bem miudinhos.
  8. Refogar a cebola e o alho em azeite até corar. Juntar os cogumelos, saltear rapidamente. Juntar o tomate e temperar com sal e cheiro verde. Cozinhar em fogo alto, mexendo, até amolecer o tomate. Reservar.

Montagem

  • Ajeitar as berinjelas numa forma em que não sobre espaço.
  • Distribuir o creme do recheio sem encher totalmente as berinjelas.
  • Completar o recheio com o salteado de tomates e cogumelos.
  • Distribuir pedacinhos de queijo de cabra sobre as berinjelas.
  • Regar com azeite e levar ao forno quente por 15 minutos.

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Confesso que ainda não provei o resultado: elas serão assadas para o almoço de amanhã 😉

Mas eu volto para contar.

 

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Fazia muito tempo que meu coração não ficava apertado assim, desse jeito que você conhece bem, desse jeito que me deixa pequenininha, vulnerável, carente nem sei de quê. E com um nó na garganta ameaçando destampar em choro a todo instante.

Fico inventando louça para lavar, armário para arrumar, bolo para fazer, qualquer coisa para esquecer o filminho que fica se repetindo desde que acordei. No sonho, você voltava e tomava conta da minha vida de novo. Da vida, eu digo, da alegria, das horas felizes, do bater forte do coração, do vibrar do corpo todo. Algo de que ando esquecida nas histórias de amor (ou quase). Mas depois você desaparecia – deixava uma maleta, uma pasta cheia de tralhas, mas desaparecia com aquele seu jeito ímpar de desaparecer. Eu sabia que voltaria, mas acordei antes que isso acontecesse, e o resultado foi esse: um aperto no peito a me cercar o dia.

Umas lágrimas chegaram a escapar quando ouvi no rádio a música que abre o primeiro dos muitos CDs lindos que você gravou pra mim. “Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer. Devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer.”

Corri pra cá, para escrever esta carta de saudade. Um jeito de chorar sem perceber.

A vida dá cada tranco na gente…

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No verão íamos para uma praia na Costa Brava, chamada Arenys de Mar. O nome é catalão. Todos os domingos, eu pegava minha sacolinha com um sanduíche, uma canga, uma toalha e algum livro para ler na areia. Biquíni não precisava: a praia, como muitas na região, é território livre para desembolorarmos nossas intimidades sem falsos pudores nem fios dentais hipócritas. Depois de um longo e tenebroso inverno, cobertos por camadas e mais camadas de lã, só o que nossos corpos pediam, suplicavam, imploravam, era sol. Sem restrições.

Também o Palhaço estava nu. Cabelos longos, cavanhaque bem aparado, dentes brancos, pele dourada. Vez ou outra ele amarrava a canga alaranjada na cintura, como um escocês acometido de tropicalismo, mas não precisava. E nem era por isso. O que atraía todos os olhares da praia para o Palhaço ele não podia esconder com a canga na cintura: ele tinha o mundo em suas mãos. E brincava com ele, deslizava aquele mundo vítreo e redondo pelas curvas de seu corpo bem feito, como quem faz carinho em si mesmo com uma pluma, suave, harmonioso, mágico.

No globo de vidro do Palhaço cabíamos todos: a areia, o mar, o céu, as intimidades. Tudo e todos como um só ser, roliço, deslizante sobre as curvas do Palhaço, braços, o peito aberto, o abdômen, coxas, até a curva entre o tornozelo e o peito do pé, e de lá o globo com a gente dentro alçava vôo pelo infinito dos ares até repousar de novo no côncavo acolhedor do braço do Palhaço.

Juntava gente de todo tipo ao redor do espetáculo, que nem era um espetáculo, era uma brincadeira, um prazer pessoal, um deleite do Palhaço, um deleite que ele estendia a toda Arenys de Mar. Gente de cinco anos querendo apreender o mundo nas mãos do Palhaço; gente pra lá dos oitenta, as intimidades já meio recolhidas mas ainda sem pudor; gente de óculos escuros para disfarçar a paixão repentina e arrebatadora pelo Palhaço; gente tentando decifrar a mágica de ter o mundo nas mãos como se o mundo coubesse todo naquela bola de vidro que bailava bailava na melodia do Palhaço.

No final do último verão o Palhaço montou uma tenda. Quando não estavam brincando com o mundo, suas mãos faziam mágica nos corpos dos veranistas, massageando aqui e ali. Animada com a perspectiva de sentir em meu corpo as mãos mágicas do Palhaço, prometi a mim mesma que voltaria no próximo domingo, com dinheiro suficiente para comprar alguns minutos daquelas mãos, daquela mágica, daquele mundo.

Mas o verão acabou antes do próximo domingo. A ventania levou o Palhaço sabe-se lá para que praia, que verão, que mundo mágico ou real. E antes que o outono tingisse tudo de amarelo, laranja pálido e cáqui, fui eu quem deixei Arenys de Mar, a Costa Brava, a Catalunha e aquele ano de sonho para voltar ao meu mundo muito muito real.

Mas a mágica voltou comigo. Ainda hoje, olhando para a bola de vidro nas mãos de um palhaço qualquer em alguma esquina da grande cidade de Belo Horizonte das Minas Gerais, lá estava, impávido e intocado, lindo e real como um personagem da Commedia dell’arte, o Palhaço Nu de Arenys de Mar, bailando sensual com o mundo nas mãos. Como se o mundo todo coubesse ali, em seu sonho, em seu globo de vidro, sangue e mar. E não cabe?

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Foto de Ike Bittencourt (@ikebitten), publicada no instagram

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Fotos Anamaria Rossi

As sopas frias estão entre as grandes contribuições da cozinha espanhola para a Humanidade. Embora a mais conhecida no Brasil seja o gaspacho, à base de tomate, cebola, alho, pimentão, pepino, azeite e vinagre, os espanhóis conhecem uma infinidade de sopas frias, com variações regionais as mais criativas.

Eu dividiria as sopas frias espanholas em três grandes grupos: gaspacho, salmorejo e ajoblanco. A diferença entre os dois primeiros é a presença ou não de migas de pão na composição – o gaspacho não leva migas, o salmorejo sim, o que lhe confere mais consistência e cremosidade.

Já entre os dois primeiros e o ajoblanco há uma diferença essencial: o ajoblanco não leva tomate. A base de sua composição, como diz o próprio nome, é o alho, ingrediente estrutural da cozinha espanhola. Os demais ingredientes são calculados de forma a não alterar muito a tonalidade final, que deve ser bem próxima do branco.

Os ajoblancos mais conhecidos usam frutas de polpa clara, como peras, maçãs e uvas. E há um toque especial no ajoblanco: amêndoas doces moídas na hora.

A receita que apresento aqui é uma variação particular de um ajoblanco de pera que aprendi na escola, em Barcelona. Mais suave e fresca e com um sabor menos pronunciado de alho em relação à receita espanhola.

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AJOBLANCO DE PERA, MAÇÃ E AIPO

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Ingredientes:

  • 2 dentes de alho
  • 2 peras maduras e firmes (os espanhóis usam a pera blanquilla, pequena, delicada, de casca fina e clara e polpa branca, vendida atualmente no Pão de Açúcar como pera espanhola)
  • 2 maçãs maduras e firmes (eu prefiro as maçãs brasileiras, mais suculentas e menos ácidas)
  • miolo de um pãozinho de 30 gramas (ou 2/3 de uma fatia de pão de forma branco, sem casca)
  • 1 talo grande ou 2 talos pequenos de aipo (salsão)
  • azeite, sal e um pouquinho de vinagre claro (usei o de Jerez, mas pode ser de vinho branco ou maçã)
  • água gelada
  • cubos de gelo

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Preparo:

  1. Descasque o alho, abra ao meio e retire o miolo (gérmen). Leve ao fogo coberto com água e deixe ferver. Escorra. Repita a operação três vezes (este processo se chama branqueamento). Fatie o alho e reserve.
  2. Descasque a parte externa do aipo com um descascador de legumes e retire cuidadosamente as fibras que restarem. Fatie e reserve.
  3. Descasque, retire o miolo e fatie as peras e as maçãs. Coloque numa vasilha, junte o alho, o aipo, umas três colheres de sopa de azeite e uma de vinagre. Cubra com água gelada.
  4. Junte as migas de pão ligeiramente desfeitas, as amêndoas moídas ou esmagadas na hora e uma boa pitada de sal.
  5. Misture bem, complete com água, se precisar, cubra com filme plástico e leve à geladeira por pelo menos 30 minutos.
  6. No momento de servir, leve tudo ao liquidificador, na velocidade máxima, até obter um líquido cremoso. A densidade e o equilíbrio dos temperos ficam por sua conta: vá ajustando o azeite, o vinagre, o sal e a água conforme seu paladar, lembrando apenas que azeite em excesso pode deixar a sopa densa e pesada.
  7. Sirva em copinhos com cubos de gelo, usando a guarnição de sua preferência.
Se você é do tipo que não lida bem com alho, pode ficar tranquilo: ao retirar o gérmen e branquear o alho, ele perde a acidez e aquela terrível característica que o faz ser lembrado dois dias depois. Deixa apenas o perfume e a viscosidade em sua maravilhosa sopa fria.
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Simplesmente perfeito para um dia quente como hoje!
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Sempre achei um saco essa história de feijoada como símbolo de brasilidade. Primeiro, porque é reducionismo demais enquadrar o Brasil num prato, ainda que seja uma feijoada. Segundo, porque esse tipo de reducionismo só interessa a quem quer ignorar a diversidade e vender para gringo uma inexistente unanimidade nacional. E, por fim, porque embora eu adore feijoada ela sempre me faz um mal danado.

Mas hoje não pensei em nada disso quando encarei a feijoada completa que o Reco e a Cida ofereceram no Clube do Choro para comemorar o aniversário de Henrique Neto, herdeiro da doçura e do talento do pai. Apenas me entreguei – ao caldinho de feijão, à cerveja gelada, ao torresmo, à couve, à farofa, às carnes todas, à caipirinha… Deixei que o chorinho, a cachaça, o feijão e a farinha me levassem pela mão até as profundezas da minha alma brasileira. E cheguei lá. Sem pré-conceitos, sem o filtro das idéias, sem antropologia, sem filosofia, sem vergonha.

Eu nunca tinha comido um feijão com tanto gosto de feijão! Porque uma coisa é o feijão que se come pensando no símbolo, nas vitaminas e na unanimidade nacional. Outra, bem diferente, é o feijão que se come com a boca. O torresmo que vai direto aos sentidos, sem passar pelo fígado. A caipirinha que ignora o amanhã e te faz estalar os beiços de prazer.

Os sentidos, mais que a razão, me aproximam do que sou. Por que diabos nunca fiz uma feijoada para meus amigos catalães enquanto estive em Barcelona? Me pergunto e só tenho uma resposta: puro preconceito! Metideza de quem acha que isso é pouco para falar da riqueza e da diversidade da sua terra. Ignorância de quem não sabe que a brabeza dos sertões, das matas e dos pampas brasileiros foi domada à base de feijão, farinha e carne seca.

Pois hoje, naquele suculento prato de feijoada completa, que meu fígado ignorou tanto quanto meu ranço intelectual-pequeno-burguês-de-meia-pataca, embalada pela mais autêntica caipirinha de limão e cachaça e delirando de prazer com o mais brasileiro de todos os sons, o chorinho, me senti um pouco tropeira, um pouco escrava, um pouco índia ralando mandioca, meio bandeirante, meio bóia-fria, lenço na cabeça, calo nas mãos e embornal a tiracolo. E quanto mais o chorinho entrava em minhas veias e se misturava com o sangue mestiço e quente dos meus antepassados, mais eu me reconhecia brasileira.

Só sei de uma coisa: a próxima festa aqui em casa vai ter feijoada. Completa.

Jean Baptiste Debret

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