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Archive for the ‘da poesia’ Category

verdade

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Verdade

Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava

só conseguia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade

voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia os seus fogos.

Era dividida em duas metades

diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era perfeitamente bela.

E era preciso optar. Cada um optou

conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

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Carolina

Chico Buarque

Carolina, nos seus olhos fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei que não vai dar, seu pranto não vai nada ajudar
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar

Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo pela janela, ah que lindo
Mas Carolina não viu…
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe,
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar

Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.

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Me chegou ainda há pouco pelos correios, num envelope pardo escrito em caneta bic, com selos de verdade, o livro de estreia de uma amiga das antigas, que nas palavras dela mesma “escreve desde sempre e faz poesia todo dia”.
Eu soube que Debi era poeta, poeta com P maiúsculo, desde o primeiro poema que li no blog que ela inventou uns anos atrás. Depois ela descobriu o Facebook, e logo se formou uma grande plateia, um fã clube variado que a estimulou a reunir os poemas num livro.
Ela, enfim, cedeu. E nos deu de presente o belo TRIZ. Este que me chegou num envelope pardo, com a letra dela na face e uma coleção de pequenas jóias.
Escolhi esta pra vocês.

 

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Tudo aqui dentro está
por um triz:
a casa em silêncio
a urgência
o ocaso
a solidão desejada
a televisão ligada
o pedaço de pão
a chave no portão
a vida lá fora
aguardando a decisão
esta música em prelúdio
que antecipa
a explosão.

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(Deborah Dornellas)

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No traço genial e delicado de Kleber Sales

Eu tinha 14 ou 15 anos quando escrevi meu primeiro poema de amor. Um emaranhado de rimas pobres com as quais eu tentava, em vão, expressar o quão profundamente aquele amor mexia com minha alma adolescente.

O destinatário era um respeitável senhor a quem eu jamais havia visto. Mas de quem julgava conhecer a alma como à minha própria, tamanha era a sua capacidade de traduzir, nas suas, as minhas angústias.

Sentimentos que eu adivinhava em mim mas que ainda não tinham adquirido forma, e que ele, de longe, sem jamais suspeitar da minha existência, revelou à menina que eu era com uma delicadeza que ficou para sempre gravada em minha alma.

De meu primeiro amor literário, o Pai-Poeta Drummond, escolho para homenageá-lo, no dia em que ele completaria 109 anos, o que talvez seja o poema-síntese de sua alma apaixonada. Um mantra que recito sempre que a vida me surpreende, assusta ou encanta, como um velho espelho que visito na esperança de resgatar a essência perdida.

Longa vida ao Poeta!

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As Sem – Razões do Amor

(Carlos Drummond de Andrade)

 .

Eu te amo porque te amo.

Não precisas ser amante,

E nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

E com amor não se paga.

 .

Amor é dado de graça

É semeado no vento,

Na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários

E a regulamentos vários.

 .

Eu te amo porque não amo

Bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,

Não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,

Feliz e forte em si mesmo.

 .

Amor é primo da morte,

E da morte vencedor,

Por mais que o matem (e matam)

A cada instante de amor.

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As fotos do post anterior, na versão instagram

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Fotos Anamaria Rossi (com um velho blackberry de guerra)

PRIMAVERA

Cecília Meireles

“A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos aRes, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.”

Texto extraído do livro Cecília Meireles – Obra em Prosa – Volume 1, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 1998.

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PS: Agradeço muuuuito a quem souber identificar as árvores aí de cima! Só sei o nome da primeira, um ipê branco…

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