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… que a gente possa fazer de 2012

o ANO DO ENCONTRO!

Texto e foto / Anamaria Rossi

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Quando ele abandonou o corpo sobre o meu
os sons ainda ecoavam:

um lobo
tocando uma orquestra
dentro de mim.

Pendurei um sorriso em meu silêncio,
ele me despertou com um beijo.

- Escrevendo uma receita?

- É, acho que sim – sorri. – Uma receita de felicidade.

Texto e foto / Anamaria Rossi

Quando algo
fora de mim
morre
algo
dentro de mim
se liberta.

Quando algo
fora de mim
morre
algo
dentro de mim
já morreu.

Mulher é um bicho esquisito mesmo…

Donana saiu hoje numa matéria de capa do site Quero Comer, pilotando suas panelas; a matéria foi reproduzida por metade dos seus amigos no Facebook; Donana recebeu incentivos, parabéns, chamegos e promessas de felicidade eterna como nunca antes em sua vida; e para fechar o dia descobriu que, mesmo sem ficar milionária, sobreviveu às duas primeiras semanas dos Almoços de Fim de Ano sem entrar no vermelho. E depois de um dia ma-ra-vi-lho-so como este, sabem qual foi a primeira coisa que ela disse quando entrou aqui em casa?

- Eu devia ter feito uma henna nos cabelos!

Bom, eu perdôo Donana por esta ingratidão com o destino porque as mulheres precisam ser solidárias em certas questões. E, aqui entre nós, cãs não fariam a menor falta na fotografia. Mas bem no fundo de minha alma às vezes boa, às vezes má, fico tentada a lembrar minha amiga que lindos cabelos vermelho acaju não combinariam com a “quilometragem” da personagem. História, aliás, contada com generosidade ímpar pela repórter Trícia Oliveira, que ignorou a acidez natural de  Donana e, tal qual a sua geléia de pimentão, guardou apenas o doce para o final.

Ao invés disso, tudo o que consigo dizer não passa de uma obviedade (“Que nada, Donana, cabelos brancos são charmosos, e estão super na moda!”). Comentário absolutamente dispensável – que minha amiga, naturalmente, não perdoa.

- Pode ficar com todos, cariño, os seus e os meus. E me dê aí o telefone do cabeleireiro, que de amanhã não passa!

Assim é minha amiga, temperamental, impulsiva e às vezes cega diante da beleza das coisas simples. Só me resta torcer para que a henna que Donana vai passar amanhã nos cabelos não seja vermelho acaju.

 

Mortais

Léo e Ivan em nosso quintal, em Ribeirão (Arquivo de Família)

Confesso que nunca fui uma torcedora de verdade. O máximo que acompanho é Copa do Mundo, e mesmo assim depois que os times de segunda já voltaram para casa. Mas o futebol sempre fez parte da minha vida.

Talvez porque eu fosse meio moleque na infância, do tipo de sobe em árvore, escala muro e enfrenta os meninos com o nariz empinado e a língua afiada; ou por ser a filha mais velha do Seu Atílio, um homem felizmente sem preconceitos de gênero; ou por ter nascido na terra e no tempo de Sócrates no Botafogo e Leão no Comercial. O fato é que minhas mais tenras memórias me levam aos estádios Palma Travassos e Santa Cruz e à época em que o Magrão era o orgulho de toda a minha Ribeirão Preto.

De Leão ficaram um belo par de coxas e a petulância. De Sócrates, a simplicidade, o nome comprido e esquisito, a elegância em campo e a pão-durice.

Imagens pescadas na rede

O futebol e Sócrates entraram em minha vida num quentíssimo domingo de outubro de 1976. Ribeirão era uma sauna esturricante. Eu tinha 9 anos incompletos, mas mesmo assim Seu Atílio topou me levar ao Santa Cruz, junto com meu primo Paulo Rossi, dois anos mais velho, para ver o Botafogo derrotar o Goiás por quatro a zero, dois gols do Magrão. É claro que a gente não via nada lá de cima – bom, pelo menos eu não via nada, tamanha era a quantidade de gente grande na arquibancada. Mas ouvia tudo pelo radinho de pilha do torcedor ao lado, e comemorava cada gol como se estivesse na final da Copa.

Saí de lá meio tonta de sol, guaraná e festa, mas com o coração eternamente botafoguense. O mesmo coração que, um ano depois, no peito daquela garotinha de quase 10 anos, vibrou como gente grande quando seu Botafogo chegou suado em cima de um caminhão carregando a Taça Cidade de São Paulo, Sócrates junto.

Acho que foi Seu Atílio que nos levou até a entrada da Anhanguera para ver a festa na chegada do caminhão, ele que além de palmeirense roxo sempre foi um comercialino mal disfarçado. Eu não fazia a menor idéia da importância da Taça em si, mas gostei de sentir de novo o calor e a euforia da multidão, quase um ensaio para o clima que se instalaria no País alguns anos depois, com os comícios pelas Diretas Já.

Em 1978 Sócrates mudou-se para o Corinthians, meu time desde a barriga da Dona Nô, mas continuou presente na vida da cidade. Não me lembro se foi ela, Dona Nô, quem levou o Magrão para fazer uma palestra aos alunos do Sesi da Vila Recreio, onde ela lecionava, mas é bem provável que sim. Foi uma farra e tanto!

Mas farra mesmo foi a visita da Seleção Brasileira de 1982 à cidade, a convite de uma rede de lojas de artigos esportivos. Metade de Ribeirão se amontoou nos corredores do único shopping para tentar chegar perto de Zico, Júnior, Toninho Cerezo, Sócrates, Éder e Falcão. Uns por fanatismo futebolístico, outras por tietagem descarada – o meu caso.

Para falar a verdade, nem me lembro se estavam todos lá, mas sei que voltei para casa com um troféu guardado por muitos anos, e que se perdeu no baú do tempo: a figurinha do álbum da Copa com a estampa de Falcão, autografada pelo próprio. (Ok, eu sei que o assunto aqui é o Magrão, mas convenhamos… para a tietagem feminina, Falcão tinha muito mais requisitos que Sócrates, certo?)

Nem preciso dizer o estado lastimável em que corri para o quarto quando Paolo Rossi mandou nossa linda, elegante e estelar seleção de volta para casa… Mais do que nunca, aquela meninada de 14, 15 anos, que não conseguia entender a sandice de uma Guerra das Malvinas tão pertinho de nós, precisava de ídolos, e a Seleção Canarinho tinha sido escalada sob medida.

Na salada de referências que foi a adolescência de uma garota de classe média no interior de São Paulo nos anos 80, o futebol, mesmo sem ser uma paixão pessoal, fazia muito sentido. A Seleção era a nossa cara. Alegre, brincalhona, guerreira. Talvez por isso, entre uma reunião do grupo jovem, um ensaio de teatro, uma pauta do jornalzinho Mãos à Obra e uns beijos roubados na esquina da igreja, essa garota que ora vos fala tenha encontrado tempo para bater uma bolinha – com os meninos!

De fato, éramos quatro meninas infiltradas nos times dos meninos. As outras três eu não sei se “seguiram carreira” depois que nos separamos, mas eu só deixei as quadras sete anos mais tarde, em plena disputa dos Jogos Internos da UnB de 1988, quando descobri que estava grávida e abandonei o time da Comunicação com o coração e as canelas aos pedaços. (Será que é por isso que Felipe gosta tanto de futebol e joga tão bem?)


Depois da Copa de 1982, cruzei com Sócrates em duas ocasiões, uma delas nada agradável.

Final de 1984, a turma do colégio se revezava nas esquinas do centro fazendo pedágio para arrecadar fundos para a formatura do terceiro ano. Aquele era meu dia e a sacolinha estava vazia. Sinal fechado, o primeiro carro da fila, se não me engano, era um Corcel novinho em folha.

Botei minha melhor cara de pau e fui até lá. Antes de ver o motorista, por acaso, vi sua carteira, escancarada e recheada, no console do painel. Timidamente, olhei para o sujeito e expliquei a situação. E fiquei mais do que perplexa, triste mesmo, quando vi e ouvi o grande ídolo Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira me dispensando com um sorrisinho sarcástico e uma frase do tipo “não tenho trocado, menina”.

Hoje me vejo perfeitamente na cena, no lugar dele, todos os dias, em todos os sinais fechados de qualquer cidade. Mas quem podia explicar aquilo para uma garota sonhadora, idealista e socialista de 17 anos?


Para minha sorte, o ídolo se recompôs em meu imaginário em cima dos palanques das Diretas Já, e foi com um novo respeito e um olhar adulto que vi Sócrates pela última vez, em setembro de 2006, em Brasília.

Eu e Márcia acabávamos de sair da festa de inauguração do Mercado Municipal, e esticamos até o Bar Brasília para um chopinho, levando conosco um amigo que eu não encontrava desde que deixei Ribeirão, aos 17 anos. Mal entramos na varanda do Bar e Edwaldo, meu amigo, já estava abraçando efusivamente a ilustre figura que era o centro de uma das mesas. Ele mesmo, o Magrão. Devidamente acompanhado de Carlos Cachaça e mais uma turma de incendiários culturais das noites da minha boa e velha Ribeirão.

O que eles faziam ali? Confesso que até hoje não sei. Só me lembro de ter ficado bastante impressionada com a figura do velho ídolo judiado pela vida, que eu espiava com o rabo do olho enquanto revirávamos o baú de memórias entre um chope e outro.

Hoje, quando liguei para dar a notícia a Felipe, a imagem que me veio à mente foi a de um Sócrates tão frágil quanto genial, tão humano e sujeito às fraquezas quanto qualquer um de nós. Um homem, que viveu e morreu como um homem. Um Sócrates, mais do que nunca, mortal.

Eu sei que o Doutor nunca quis ser modelo para ninguém, mas talvez por isso mesmo ele tenha deixado, sem querer, esse modesto recado. A vida pode ser dura demais até para um ídolo.

No verão íamos para uma praia na Costa Brava, chamada Arenys de Mar. O nome é catalão. Todos os domingos, eu pegava minha sacolinha com um sanduíche, uma canga, uma toalha e algum livro para ler na areia. Biquíni não precisava: a praia, como muitas na região, é território livre para desembolorarmos nossas intimidades sem falsos pudores nem fios dentais hipócritas. Depois de um longo e tenebroso inverno, cobertos por camadas e mais camadas de lã, só o que nossos corpos pediam, suplicavam, imploravam, era sol. Sem restrições.

Também o Palhaço estava nu. Cabelos longos, cavanhaque bem aparado, dentes brancos, pele dourada. Vez ou outra ele amarrava a canga alaranjada na cintura, como um escocês acometido de tropicalismo, mas não precisava. E nem era por isso. O que atraía todos os olhares da praia para o Palhaço ele não podia esconder com a canga na cintura: ele tinha o mundo em suas mãos. E brincava com ele, deslizava aquele mundo vítreo e redondo pelas curvas de seu corpo bem feito, como quem faz carinho em si mesmo com uma pluma, suave, harmonioso, mágico.

No globo de vidro do Palhaço cabíamos todos: a areia, o mar, o céu, as intimidades. Tudo e todos como um só ser, roliço, deslizante sobre as curvas do Palhaço, braços, o peito aberto, o abdômen, coxas, até a curva entre o tornozelo e o peito do pé, e de lá o globo com a gente dentro alçava vôo pelo infinito dos ares até repousar de novo no côncavo acolhedor do braço do Palhaço.

Juntava gente de todo tipo ao redor do espetáculo, que nem era um espetáculo, era uma brincadeira, um prazer pessoal, um deleite do Palhaço, um deleite que ele estendia a toda Arenys de Mar. Gente de cinco anos querendo apreender o mundo nas mãos do Palhaço; gente pra lá dos oitenta, as intimidades já meio recolhidas mas ainda sem pudor; gente de óculos escuros para disfarçar a paixão repentina e arrebatadora pelo Palhaço; gente tentando decifrar a mágica de ter o mundo nas mãos como se o mundo coubesse todo naquela bola de vidro que bailava bailava na melodia do Palhaço.

No final do último verão o Palhaço montou uma tenda. Quando não estavam brincando com o mundo, suas mãos faziam mágica nos corpos dos veranistas, massageando aqui e ali. Animada com a perspectiva de sentir em meu corpo as mãos mágicas do Palhaço, prometi a mim mesma que voltaria no próximo domingo, com dinheiro suficiente para comprar alguns minutos daquelas mãos, daquela mágica, daquele mundo.

Mas o verão acabou antes do próximo domingo. A ventania levou o Palhaço sabe-se lá para que praia, que verão, que mundo mágico ou real. E antes que o outono tingisse tudo de amarelo, laranja pálido e cáqui, fui eu quem deixei Arenys de Mar, a Costa Brava, a Catalunha e aquele ano de sonho para voltar ao meu mundo muito muito real.

Mas a mágica voltou comigo. Ainda hoje, olhando para a bola de vidro nas mãos de um palhaço qualquer em alguma esquina da grande cidade de Belo Horizonte das Minas Gerais, lá estava, impávido e intocado, lindo e real como um personagem da Commedia dell’arte, o Palhaço Nu de Arenys de Mar, bailando sensual com o mundo nas mãos. Como se o mundo todo coubesse ali, em seu sonho, em seu globo de vidro, sangue e mar. E não cabe?

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Foto de Ike Bittencourt (@ikebitten), publicada no instagram

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