“Os quintais estão cheios de vozes. Para as escutar exige-se disponibilidade de espírito, ou seja, tempo e inteligência, soma de qualidades que nos dias que correm poucas pessoas possuem.”
José Eduardo Agualusa, em milagrário pessoal
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O personagem é um velho anarquista angolano que coleciona milagres num caderno de capa vermelha, envernizada. “Vou anotando nas páginas do meu Milagrário pessoal os fatos extraordinários que me sucedem, ou de que sou involuntária testemunha, dia após dia. É um diário de prodígios. Os milagres acontecem a cada segundo. Os melhores costumam ser discretos. Os grandes são secretos.”
Não sei se milagres ou prodígios, mas coleciono espantos e encantamentos em caderninhos mais ou menos envernizados desde os 13 anos. Tenho uma infinidade deles espalhados por gavetas, caixas e malas de antiguidades pessoais, e pelo menos uma vez por ano juro a mim mesma que vou organizar tudo isso. Agendas com insights perdidos entre horas marcadas, cadernetas de sonhos anotados nas madrugadas, cadernos de reflexões sobre hexagramas do I Ching, poemas esparsos, flashes de diálogos, histórias sem começo nem fim – e muitas, muitas cartas de amor, jamais enviadas.
Durante muitos anos, os “anos de chumbo” da minha vida profissional, escrevi bem menos do que gostaria, e fui mesmo perdendo o jeito com as palavras na árdua tarefa de expressar o que anda aqui dentro. Reconquistar essa intimidade com a palavra foi um dos desafios de minha temporada em Barcelona, quando, pela primeira vez na vida adulta, pude me afastar, voluntariamente e sem culpa, do universo do trabalho e da massacrante necessidade de produzir e obter resultados materiais bem palpáveis.
Reaprender a escrever as minhas próprias palavras foi talvez a maior das conquistas daquele ano vivido entre as panelas e o teclado, e ainda que nem um mísero leitor tivesse pousado os olhos nas páginas do yo que sé? a minha coleção virtual de espantos e encantamentos continuaria valendo mais, para mim, que muitos anos de jornalismo. Porque foi o embrião de um novo e perene milagrário pessoal.
Mas – e sempre tem um mas no meio do caminho – para ouvir as vozes dos quintais é preciso disponibilidade de espírito, como ensina o velho e sábio personagem de Agualusa. E essa combinação de tempo e inteligência é coisa rara no mundo “produtivo”, sobretudo se este mundo tiver doses cavalares de política e jornalismo.
Novamente submersa num mundo do qual eu preferiria manter uma distância saudável por mais algumas décadas, me vejo perder, a cada dia, uma jóia do tesouro que resgatei em Barcelona. Sinto-me cada vez menos disponível para mergulhar no desconhecido, no impalpável, no etéreo de mim. A cada dia finco um pouco mais os pés na terra seca do dia-a-dia, e vou perdendo a plumagem das asas que me levam ao maravilhoso mundo do criar.
Me dei conta disso quando percebi que, na última semana, todas as energias do meu espírito foram esgotadas pelas exigências de meu novo trabalho, sem que restasse uma única gota para pintar uma outra qualquer realidade na tela branca deste pequeno diário de prodígios. E eu realmente senti falta disso. Eu realmente preciso disso. Porque eu realmente sou isso também.
Mas eu realmente não sei como manter os pés no chão da “realidade produtiva” e, ao mesmo tempo, flutuar com minhas asas invisíveis no éter da criação. É quase como estar casada e solteira ao mesmo tempo. São duas personas brigando dentro de mim, duas fontes que jorram com igual intensidade, mas em sentidos opostos. Duas veredas que não se encontram. Duas metades de uma verdade que nunca formam um ser inteiro.
Tenho um longo aprendizado pela frente. O que não deixa de ser animador, apesar das muitas horas de sono que terei que sacrificar para salvar o meu tesouro. Mas eu o salvarei. Ainda que sejam outras as vozes e outros os quintais. Porque eu acredito em milagres.





Novos quintais….novas idéias. Romper casulos doem mas,
com certeza proporcionam grandes e lindos voos.
Também creio em milagres. Amo voce.
sem essa de perder as asas… asas perdidas são irrecuperáveis. Corta a inteligência, os desvios para o material, o dinheiro, o trabalho… mas nunca as asas.
En este texto estás volviendo.
Entendo bem isto que você está sentindo.
Força Anamaria!!!
Aninha, minha prima querida, você não perdeu o jeito com as palavras nem mesmo sua semsibilidade, basta ler o belo texto que você acabou de escrever, cheio de poesia, poesia sobre a vida, sobre a vida cotidiana, sobre a dureza da vida cotidiana. Eu estou cada vez mais cético, cada dia mais ateu, cada dia mais duro, e o que é pior, sem esse talento da poesia que é coisa para poucos privilegiados como você.
Beijos!
Paulo
Paulo, meu primo querido e amado, pode até ser verdade que você esteja ficando cético, duro e ateu (o que eu duvido), mas sua arte-fotografia continua derramando poesia…
Um beijo.
“Traduzir uma parte na outra parte
que é uma questão de vida ou morte
- será arte?”
Ana, essas fotos estão maravilhosas, que quintal é esse?
Beijos.
Da Cynara e do João, que estão logo ali embaixo nos coments… Lindo e aconchegante!
Beijo.
Ana,
me identifiquei com suas belas palavras. Assim também me sinto, saudosa do período da pesquisa da tese que, uma vez defendida, nos joga no mundo do ganha pão. Duro.
E assim temos que cavar a beleza nas gotas de chuva do quintal da alma, quintal de alegrias.
beijo,
Rosa
amei as palavras e o quinta… parece até que já estive nele!
; )
beijocas.
será?
Enquanto Dona Ana nos fazia oferendas, o quintal roubava seus pensamentos. Ela foi lá e voltou. Ela vai e volta e segue em frente. Não há muro nem quintal que a segure. Não há chuva que desbote a poesia da sua alma.
Todos/as nos que acompanhamos seu blog estamos com voce na mesma viagem, nas mesmas paradas, nos mesmos retornos. Se o combustivel acabar, a gente empurra o carro. Parar, nunca! Beijao
Noca, também acredito em milagres… por isso sinto que logo voltarás ao seu tempo barcelonesco de escritos e quitutes, apenas… Podes crer! Besos!
Reco do Bandolim
Acontece que seus textos trazem ou levam o espelho pro lado de dentro, o lado que importa.
Há grande ternura em seu coração, em sua reflexão.
Tive momentos de aperto mas terminei minha leitura mais feliz que no princípio. Porque algo me convenceu de que os textos da terra seca do dia-a-dia começam a dar sinais da menina voadora…
Beijo desse admirador
Vocês me surpreenderam, menin@s. Eu juro que não esperava tanto!
Me senti menos solitária neste mundo louco – e muito, muito aconchegada no colo de cada um.
Quem tem amigo tem tudo, né?
Obrigada mesmo.
Beijos.
Enquanto tivermos as letrinhas, que solidão que nada…
Resumo: belíssimo texto.
E elogiar suas fotos é chover no molhado.
Beijocas!
Concordo com seu amigo João e acrescento:
cê é uma guerreira, Anamaria querida, e – a cada ida e vinda, de qualquer espaço ou dimensão – vem mais linda e forte. Deus a abençoe sempre. Nô.
Ana, suas palavras sempre chegam em boa hora. Hoje, por acaso, resolvi fuçar o blog para ver as novidades. Estou dura, estressada e louca para ficar distante do que me transforma numa máquina de releases e penduricalhos do gênero. Admiro você pela coragem. Acredite – a docura de donãna está presente agora e sempre. Você já rompeu a bolha. Só dê tempo ao tempo para ajustar a vida e terás o dom de manter o pés no chão, flutuar e ainda mergulhar se necessário ! – Beijo